Crítica - State of Play (2009)

Realizado por Kevin Macdonald
Com Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams

Baseado numa série política da BBC, “State of Play” apresenta-nos uma história intelectualmente complexa que aparentemente tem como principal enfoque as vicissitudes e conspirações político-militares tão proeminentes na nossa sociedade global, no entanto, à medida que entramos na vasta e enigmática teia de informações e reviravoltas fornecidas inteligentemente pelo argumento, apercebemo-nos que não estamos perante mais um simples e aborrecido thriller político, mas sim perante uma interessante obra de investigação fictícia que rapidamente nos prende/cativa e nos obriga a pensar sobre a direcção e conclusão da perspicaz investigação jornalística que vamos acompanhando.


A história do filme começa apressadamente e misteriosamente por mostrar um complexo homicídio que afecta um jovem drogado e um inocente transeunte que graças à penumbra da noite consegue sobreviver, tendo no entanto sofrido graves danos físicos que o colocam num coma profundo mas aparentemente reversível. Na manhã seguinte ao incidente, Cal McAffrey (Russell Crowe), um famoso jornalista de investigação, chega ao local do crime e recolhe algumas informações circunstanciais junto do detective Donald Bell (Harry Lennix), o encarregado do caso. Paralelamente, somos transportados até ao Capitólio, onde o promissor congressista republicano Stephen Collins (Ben Affleck), membro activo de uma comissão de investigação do congresso aos negócios e actividades de uma empresa de segurança privada que é responsável por alguns trabalhos de segurança nos vários cenários de guerra, é informado pelos seus assistentes políticos sobre a trágica morte da sua assistente de investigação, Sonia Baker (Maria Thayer). Esta notícia devasta emocionalmente Stephen, que posteriormente não se consegue controlar durante a audiência de inquérito, dando azo à especulação dos media que afirmam repetidamente que Sonia e Stephen eram amantes. Esta notícia causa muita contestação junto do público, algo que leva McAffrey a acreditar que Stephen, seu amigo de longa data, possa estar a ser alvo de uma estratégia de desacreditação por parte da empresa de segurança privada que está a analisar/investigar. À medida que várias novas peças vão surgindo, McAffrey e Della Frye (Rachel McAdams), uma ambiciosa jornalista política, vão juntando todos os factos e provas até obterem alguns indícios que ligam o homicídio do jovem drogado ao aparente suicídio de Sonia, ligação essa que poderá estar relacionada com uma grande conspiração política que liga o Governo e o Exercito à PointCorp, a empresa de segurança privada.


Entre dramas pessoais e conspirações governamentais, “State of Play” explora inúmeras vertentes narrativas que contribuem para uma surpreendente conclusão que possivelmente irá contrastar com todas as ideias previamente formuladas pelo espectador durante a introdução do filme e exposição inicial dos factos. O romance também aparece timidamente na história através do quadrado amoroso que envolve McAffrey, Stephen, Sonia e Anne (Mulher de Stephen), no entanto esta vertente só se torna relevante nos últimos instantes do filme que clarifica objectivamente estas relações. A realização de Kevin Macdonald é bastante eficaz e amplamente correcta, porque aposta numa vertente criativa razoavelmente simples que evita algumas dúvidas e possíveis confusões relativamente ao complexo desenvolvimento da história. A fotografia é amplamente comum e superficial, sendo praticamente irrelevante para o resultado final. O único elemento do elenco que não convence é Ben Affleck, que sem grandes surpresas, volta a nos apresentar uma performance seca e vazia que afecta negativamente o trabalho dos seus companheiros de profissão. Ao assumir o protagonismo sem grandes dificuldades, Russell Crowe assina uma performance de qualidade que exterioriza o seu talento e profissionalismo. Ao nível das prestações secundárias também encontramos várias performances de qualidade, nomeadamente as prestações realistas e portentosas de Rachel McAdams e Helen Mirren. Dentro do género, “State of Play” assume-se como uma produção de qualidade. Um argumento complexo e intelectual mas perfeitamente organizado fornece à obra um elemento de luxo, que é brilhantemente interpretado pela grande maioria do elenco e objectivamente dirigido por um realizador eficaz e talentoso.

Classificação - 4,5 Estrelas Em 5

4 comentários:

  1. Excelente filme no género do thriller político! Deixa-me só referir um aspecto que não abordaste e que me pareceu muito bem desenvolvido: o olhar sobre o jornalismo de hoje em dia, a fina linha que o separa do sensacionalismo e a questão da total cedência à polémica em detrimento da averiguação da verdade, porque a imprensa, como todo um conjunto de serviços públicos, se tornou num negócio e só o lucro interessa.

    Através de variados pontos de vista, desde o jornalista da velha guarda cheio de contactos e conhecimentos (Crowe) à bloguista a quem interessa a notícia na hora e que está quase isenta de responsabilidades devido à protecção do mundo virtual (McAdams), passando pela directora sénior do jornal que responde agora a chefes gestores de negócios (Mirren), o realizador conseguiu retratar muitíssimo bem esta problemática, criticando e sensibilizando a audiência para terem o discernimento de distinguir e valorizar o jornalismo a sério em vez da fofoquice.

    E, para além de um argumento riquíssimo envolvendo política e lóbis económicos ao nível de "Michael Clayton" (na verdade, acho que este último foi sobrevalorizado, desfrutei muito mais de "State of Play", que mais uma vez fica a perder com o absurdo e redutor título de "Ligações Perigosas", deve haver para aí 4 filmes com este nome em português...), é um thriller poderoso e que nos faz suster a respiração mais do que uma vez. E não ficava nada a perder sem o "twist" final da complexa e imprevisível trama amorosa. Mesmo do ponto de vista artístico, houve aspectos que me encantaram em termos de espaços, posicionamento de câmara e fotografia. O longo e branco corredor da série de apartamentos, toda a cena da garagem em termos de jogos de luz, o pormenor do poster da paragem de autocarro no encontro entre McAffrey e a sua fonte da PointCorp: uma loiraça com uma mancha de tinta de spray no meio da testa, a escorrer!

    Alonguei-me, as minhas desculpas... :/

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  2. É sem dúvida o filme que mais aguardo por ver em cinema. Já existem comparações com All the President's Men. E se for minimamente semelhante ou se for detentor de um pouco da sua qualidade já vale o bilhete.

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  3. Realmente Ana, nunca tinha pensado na comparação com Michael Clayton mas realmente está bem visto e também nunca me tinha aprecebido do promenor do poster :) Outra coisa que também achei piada foram os créditos finais.

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  4. Sim, também gostei muitíssimo, mais uma vez dando ênfase à "arte" da imprensa escrita e à sua relevância mesmo na era digital! :)

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