Crítica - Shame (2011)

Realizado por Steve McQueen
Com Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale

Steve McQueen começou por dar nas vistas com o multi-premiado “Hunger”, filme de 2008 que contava já com a participação de Michael Fassbender no papel principal e que relatava a história de um prisioneiro irlandês que levava todo um bloco prisional a fazer greve de fome como forma de protesto. Foi também esse filme que catapultou Fassbender para a fama, levando-o quase de imediato a trabalhar com realizadores do calibre de Quentin Tarantino (em “Inglourious Basterds”), Matthew Vaughn (em “X-Men: First Class”) e David Cronenberg (em “A Dangerous Method”). Não será, portanto, difícil de verificar que o actor de genes alemães é uma autêntica estrela em ascensão. Curiosamente, McQueen não vivenciou o mesmo tipo de ascensão meteórica, já que precisou de esperar 3 anos para voltar a pegar nas câmaras. Embora este período de inactividade tenha sido provavelmente intencional, pois McQueen parece ser fiel ao cinema de autor, não deitando mãos a qualquer trabalho multimilionário que lhe apareça à frente. “Hunger”, “Shame” e o agendado para 2013 “Twelve Years a Slave” (as únicas longas-metragens do seu currículo) foram todos escritos pelo cineasta londrino. E todas estas obras contaram com a colaboração de Fassbender, antecipando-se desde já uma simbiose actor/realizador semelhante àquelas perpetradas pelas duplas Robert De Niro/Martin Scorsese, Johnny Depp/Tim Burton e outras que tais. E a julgar pelos resultados obtidos em “Hunger” e neste intenso e muito arrojado “Shame”, que venham muitas mais colaborações entre estes dois homens do cinema.



A narrativa é simples, mas nem por isso deixa de ter muita coisa a dizer ao espectador. Brandon Sullivan (Michael Fassbender) vive sozinho (tal como ele gosta) num apartamento opulento da cidade que nunca dorme (Nova Iorque, para os mais desatentos). Profissionalmente bem sucedido e fisicamente atraente, tem uma boa relação com o chefe de trabalho (James Badge Dale) e parece usufruir de um dom natural para captar a atenção do sexo feminino. Uma vida normal de um homem normal e perfeitamente adaptado ao ambiente em que vive. Todos decerto pensaríamos isso. Mas Brandon esconde um segredo que lhe assombra os pensamentos de dia e de noite, e que o faz viver uma segunda vida de perversão e de constrangimento emocional: ele é viciado em sexo. Por causa da forma como interpreta o sexo feminino e as relações conjugais, não consegue manter uma relação sexual séria e funcional com alguém por mais que alguns meses. Por causa do vício angustiante que se torna mais forte do que ele, vê-se incapaz de levar a cabo o seu trabalho sem prestar algumas visitas a sítios de pornografia verdadeiramente hardcore. E por causa do vício que tanto o transtorna, vive uma existência oca e vazia de significado, como se mais não fosse do que um pedaço de carne ambulante que passa a vida a copular. Conforme se percebe, a sua vida apenas aparenta ser perfeita, sendo na verdade bastante fria e dolorosa. E tudo piora ainda mais com a chegada de Sissy (Carey Mulligan), a irmã mais nova que possui também a sua dose de sérios problemas emocionais.




Se é puritano ou se acha que o sexo simplesmente não tem piada nenhuma, não se atreva a pôr os pés numa sala que esteja a exibir este filme. “Shame” é um dos filmes mais arrojados e decididos dos últimos anos, não hesitando em mostrar as coisas como elas são realmente, mesmo que isso possa chocar o espectador (a classificação de maiores de 18 não está lá por acaso). Aqui também se nota a faceta de cinema de autor. Se “Shame” fosse um produto dos grandes estúdios norte-americanos, nem por sombras Fassbender passaria à frente da câmara com o pirilau à mostra um sem número de vezes. Se há coisa que Steve McQueen faz e bem é mostrar a realidade tal qual ela é, sem se preocupar com comités de censura que muitas vezes ostracizam o real propósito de uma obra. E este realismo confere a “Shame” uma veracidade e uma intensidade dramática que não seriam possíveis de atingir de outra forma menos ousada. Esta não será propriamente a película mais alegre e esperançosa do ano. A dor que atravessa a alma da personagem de Fassbender é de tal forma real que nos atravessa o coração e nos deixa maldispostos. Por um lado, isto acentua o brilhante trabalho de McQueen, que não tem pressa nenhuma em expor as suas ideias no grande ecrã e acaba por brindar a audiência com um produto final deveras satisfatório. E por outro lado, a forma extremamente natural como Brandon comunica com a audiência põe a nu o grande talento de Michael Fassbender, que não precisa de ser muito exuberante para se afirmar como um dos melhores actores da sua geração. Ficou-lhe assim a faltar a mais que merecida nomeação para o Óscar, mesmo em ano de grande concorrência. Mas se Fassbender brilha mais alto que nunca, Carey Mulligan não deixa também de fazer o mesmo com uma interpretação que, apesar de breve, marca de forma indelével toda a película.




Os pontos positivos desta obra são, portanto, mais que muitos. “Shame” é uma daquelas fitas que põe o espectador a pensar e a reflectir, até porque não lhe oferece todas as informações e termina com um grande plano que espelha na perfeição toda a dúvida que vai na alma da personagem principal. Por isto e por muito mais, é um filme extremamente meritório e ao qual se deve prestar a devida atenção. Todavia, fica um pouco longe da perfeição cinematográfica. O estilo de filmagem de McQueen é ambicioso e refrescante, mas peca por algum abuso dos tempos mortos que assassinam o ritmo da película. A cena em que a personagem de Mulligan canta uma balada num bar de Nova Iorque é talvez o maior exemplo disso mesmo, pois, embora seja bastante emocional e sirva para mostrar a indefinição da personagem, perde demasiado tempo com algo que poderia perfeitamente ficar bem vincado em metade do tempo utilizado. Para além disso, sente-se que a narrativa nunca chega a atingir o clímax que prometia, pelo que fica a sensação de que lhe falta alguma coisa para alcançar um patamar de qualidade ainda mais elevado. Coisas mínimas que não devem desmoralizar o espectador mais curioso mas que devem aqui ficar registadas como notas de aviso, até porque “Shame” não é propriamente o produto convencional que estamos habituados a ver com bastante frequência nas salas de cinema.

Classificação – 4 Estrelas Em 5

2 comentários:

  1. adorei o filme... super diferente.. excelente crítica!

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  2. Gostei muito do filme. As cenas de sexo não foram excessivas, foram adequadas ao tema sem tornar o filme vulgar. A nudez de Fassbender e de Mulligan fez sentido, ao contrário do que acontece na grande maioria dos filmes, até porque sem ela o filme pareceria púdico e dependente dos moralismos hipócritas dos norte-americanos (ainda bem que não foi o caso). Mas para mim valeu sobretudo pela história e pelo modo como foi contada, sem dizer tudo, mas dizendo o suficiente. Não senti que houvesse tempos mortos e achei a ideia de filmar a canção "New York New York" do início ao fim em tempo real fantástica. E achei que o filme atingiu o clímax (pun intended) necessário, com a cena de Mulligan na casa-de-banho e posterior cena de Fassbender à chuva.

    É chocante a não nomeação de Fassbender para os Óscares (e de Steve McQueen), tal como aconteceu com DiCaprio e Gosling. Mas enfim, a Academia afasta-se cada vez mais do contacto com a realidade, favorecendo lobbies e/ou seguindo as opiniões de um júri praticamente senil.

    Mal posso esperar por Twelve Years a Slave! Com Django Unchained de Tarantino, acho que podemos esperar por dois filmes sobre a escravidão de grande qualidade.

    V.

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