Crítica - The Flowers of War (2011)

 
Realizado por Zhang Yimou
Com Christian Bale, Ni Ni, Zhang Xinyi

Quem conhece o trabalho de Zhang Yimou sabe exatamente o que ele tem para oferecer em cada uma das suas obras. Conhecimentos técnicos ao nível dos grandes génios do cinema contemporâneo, planos de câmara absolutamente surpreendentes, um controlo narrativo de excelência e uma ambição sem limites são apenas algumas das suas imagens de marca. Em conjunto com Ang Lee, Zhang Yimou foi o grande responsável pela revitalização do cinema chinês que ocorreu nas últimas décadas. Obras como “Hero”, “House of Flying Daggers” e “Curse of the Golden Flower” trouxeram credibilidade a uma cinematografia que por vezes caía no ridículo, elevando o cinema chinês a um patamar de notabilidade que jamais havia alcançado. Com o seu “Crouching Tiger Hidden Dragon”, Ang Lee abriu as portas de uma nova era. Mas foi Yimou que consolidou essa revolução cinematográfica, transformando os seus épicos num género cinematográfico próprio e agora muito apreciado em todo o mundo. Com os devidos valores de produção a suportarem as suas visões épicas, Yimou já comprovou que tem talento mais do que suficiente para rivalizar com os seus homólogos ocidentais. E, apesar de inferior às películas supracitadas, não é este “The Flowers of War” que vem manchar o currículo do cineasta oriental. O mais recente filme de Yimou tomba em demasia num melodrama fácil e escusado, não possuindo a consistência e até a espetacularidade de outras obras. No entanto, a nível técnico chega a fazer lembrar o “Saving Private Ryan” de Steven Spielberg, e a nível narrativo não deixa de ser tocante e intoxicante quanto baste para merecer os mais elevados louvores. 

 

John Miller (Christian Bale) é um coveiro zangado com a vida e com queda para os copos. Tudo o que ele quer é fazer a sua vidinha sem importunar ninguém e sem ligar muito aos problemas dos que o rodeiam. Em plena segunda guerra mundial, a cidade chinesa de Nanquim encontra-se destruída e ocupada pelos japoneses vitoriosos. Mas ainda que tenha de ultrapassar mil e um tormentos para alcançar o seu destino, John não desiste de ziguezaguear por entre os escombros da cidade na busca incessante pelo colégio de órfãos onde ficou de sepultar o falecido padre residente. Ao chegar ao colégio, verifica que um pequeno grupo de alunas menores de idade subsiste por conta própria no meio do caos, sem grandes condições de vida e sem qualquer adulto que as guie na direção correta. De início, tendo apenas olhos para o pagamento que ficou de receber pelos seus serviços, John pouco se importa com esta situação, chegando mesmo a fazer pouco das miúdas. Contudo, após testemunhar os horrores da guerra com os seus próprios olhos, o coveiro decide assumir o papel de pároco do colégio para tentar manter as crianças em segurança. Algo que é ameaçado pelos assaltos constantes dos militares japoneses e também pela chegada de um bando de prostitutas que procura refúgio nas paredes do colégio…

   

Como já dissemos, “The Flowers of War” não se encontra ao mesmo nível de filmes como “Hero” e “House of Flying Daggers”, porventura as obras mais bem-sucedidas de Yimou até à data. Mas isso não quer dizer que estejamos perante um filme fraco e dispensável. Muito pelo contrário. O último terço da película é invadido por um excesso de melodrama que se prolonga de forma angustiante até ao final. Um pouco menos de lágrima fácil seria aconselhável, e uns cortezinhos nalgumas cenas escusadas tornariam o filme mais consistente e menos moroso (são mais de duas horas de um choradinho pegado…). É óbvio que algumas das crianças têm prestações que deixam algo a desejar (especialmente quando se esforçam por falar um inglês arranhado) e nem todas as atrizes orientais que desempenham o papel de prostituta são propriamente convincentes. Para dizer a verdade, são mais irritantes que outra coisa, chegando mesmo a fazer lembrar as nossas atrizes de revista com grandes vozeirões mas pouco talento para as artes da representação. Assim sendo, somente Christian Bale e mais dois ou três membros do elenco (como a pequena Zhang Xinyi e a sensual Ni Ni) apresentam desempenhos intocáveis. Porém, todos estes defeitos são compensados por um design de produção assombroso, uma realização de Yimou fria, ambiciosa e madura (como sempre), efeitos visuais de colocarem muitos blockbusters de Hollywood vermelhos de vergonha, e sequências repletas de cor e de beleza como só Yimou sabe captar. O público ocidental poderá achar “The Flowers of War” demasiado estranho e exótico, pois há momentos (como um inesperado e algo ridículo número musical perto do fim) que simplesmente não se encaixam da melhor maneira na montagem final da película. No entanto, não podemos deixar de afirmar que isto é cinema com “c” grande, resultante do génio de um cineasta com muito para oferecer a quem souber apreciá-lo. Está longe de ser uma obra-prima, mas vale bem um visionamento numa sala de cinema, quanto mais não seja pela lição de História e pelo testemunho das barbaridades que se cometem em tempos de guerra. 

 Classificação – 3,5 Estrelas em 5

1 comentários:

  1. O que me custa por vezes neste tipo de filmes é o facto de se tentar tornar cenas "sujas" lindas. As coisas são o que são e estar a tornar o acto de agressão lindo bem, pode ser visualmente muito agradável, mas falha no retrato da estória que pretende contar.

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