Crítica - On The Road (2012)

Realizado por Walter Salles
Com Sam Riley, Garrett Hedlund, Sam Riley, Amy Adams

Entre os grandes êxitos literários do poeta Jack Kerouac estão algumas obras de grande qualidade como “Mexico City Blues”, "Doctor Sax”, “The Dharma Bums” e “Desolation Angels”, mas os especialistas são unânimes em considerar que “On The Road” é a que melhor representa o seu estilo literário e a que mais cópias vendeu em todo o mundo. A sua adaptação cinematográfica já anda por isso a ser planeada desde 1957, quando o próprio Jack Kerouac tentou vender, sem sucesso, os direitos do livro à Warner Bros. e à Paramount Pictures. Os planos de adaptação passaram, desde então, pelas mãos de vários estúdios e realizadores de renome, como Francis Ford Coppola, Gus Van Sant e Joel Schumacher mas nenhum deles conseguiu levar este complexo projeto a bom porto. Ao fim de alguns anos de engavetamento, Coppola lá entregou a direção desta produção ao cineasta brasileiro Walter Selles que, após vários contratempos e alguns problemas financeiros, conseguiu completar este filme que infelizmente não faz justiça ao magistral clássico literário que está na base do seu mediano argumento, no entanto, não se pode dizer que esta versão cinematográfica esteja completamente desprovida de qualidade ou de coisas positivas, tal como prova a agradável performance coletiva do seu elenco cheio de estrelas.


A história de “On the Road” segue a jornada pessoal de Sal Paradise (Sam Riley), um jovem aspirante a escritor que anda sempre à procura de inspiração. O rumo da sua vida altera-se radicalmente quando um dos seus amigos apresenta-o a Dean Moriarty (Garrett Hedlund), um irresistível e charmoso ex-condenado, com quem ele cria uma forte ligação de amizade. Os dois estão determinados a não se deixarem prender pelas rotinas de uma vida normal, por isso decidem cortar as ligações com tudo o que os rodeia e fazem-se à estrada, juntamente com Marylou (Kristen Stewart), a libertina mulher de Dean Moriarty. Estes três jovens sequiosos por aventura e liberdade iniciam assim uma procura pelo mundo, por novas experiências e por si próprios que irá envolver outras curiosas personagens como o introvertido Carlo Marx (Tom Sturridge), a deslumbrante Camille (Kirsten Dunst) ou o excêntrico casal Old Bull Lee e Jane (Viggo Mortensen e Amy Adams). 

 

Esta magnífica jornada de introspeção e prospeção emocional é retratada com uma vasta riqueza e requinte narrativo pelo romance autobiográfico de Jack Kerouac, mas infelizmente é alvo de um tratamento mais enfadonho e rudimentar por parte do argumento desta adaptação cinematográfica que, para além de ignorar várias partes importantes do livro, explora com alguma leviandade a complexa evolução psicológica das personagens principais e as problemáticas dinâmicas sociais que envolvem estes poderosos intervenientes. Esta gigantesca fragilidade torna-se evidente quando olhamos para a curiosa relação que nasce e cresce entre Sal e Dean, uma ligação de camaradagem que no livro se destaca pela sua volatilidade e força melodramática, mas que nesta adaptação cinematográfica é retratada sem a força ou a veemência necessárias para enfatizar as suas combativas personalidades ou para desenvolver habilmente os vários conflitos e relações que derivam das suas interações com outros intervenientes como Mary Lou ou Carlo Marx, as duas personagens que, a par dos dois protagonistas, aparecem mais vezes em cena. É por tudo isto que não tenho problemas em afirmar que a falta de espessura dramática, intelectual e emotiva de “On The Road” é problemática e gritante, já que salta à vista em praticamente todos os aspetos do filme, sobretudo na parca dinâmica intimista que envolve os dois protagonistas e no fraco aprofundamentos das relações secundárias que eles desenvolvem ao longo da história. Só quem leu o livro é que pode perceber que o que Jack Kerouac idealizou e descreveu no seu livro não é aquilo que aparece nesta adaptação. A sua génese narrativa está presente, mas o sumo criativo e emocional que a sustenta e valora não aparece neste filme, sendo por isso que se torna cada vez mais enfadonho e distante com o passar dos minutos e das conversas sem rumo ou robustez emotiva.


O seu enredo com conteúdo mas sem alma ou emoção não convence, mas existem outras coisas em “On The Road” que conferem um certo alento a este road movie de Walter Salles, nomeadamente o seu elenco. Eu já aqui referi que o argumento tem várias falhas ao nível do crescimento e desenvolvimento dos vários intervenientes, mas Sam Riley e Garrett Hedlund não se deixaram afetar por esses óbvios defeitos, já que as suas performances são bastantes corretas e coniventes. Estes dois jovens atores demonstram um profundo sentimento de sacrifício e envolvência durante todo o filme e conseguem por isso incarnar, com um certo esmero visual e mental, os curiosos estilos de Sal Paradise e Dean Moriaty que, afinal de contas, são uma espécie de alter egos dos escritores Jack Kerouac e Neal Cassidy. A pálida Kristen Stewart mostra a sua faceta indie e séria nesta obra mas, mais uma vez, a sua performance é afetada pela constante falta de emoção que não consegue demonstrar ou exteriorizar, no entanto, este é claramente o seu papel mais esforçado e sensual até à data, algo que merece um pouco de reconhecimento. Os trabalhos de Kirsten Dunst, Amy Adams e Viggo Mortensen são razoáveis mas são afetados pela sua presença limitada. Para além de um bom elenco, “On the Road” conta com uma agradável fotografia de Éric Gautier, que consegue passar para imagem algumas das magnificas paisagens desérticas que são descritas na obra literária. É difícil de considerar “On The Road” um mau filme, mas não tenho a menor dúvida que Walter Salles (Realizador) e Jose Rivera (Guionista) podiam ter feito um trabalho muito melhor com esta adaptação cinematográfica de um dos grandes clássicos da literatura norte-americana. É verdade que este trabalho literário de Jack Kerouack é tão subjetivo e alternativo que é praticamente impossível de ser adaptado na perfeição ao grande ecrã, mas Salles e River podiam ter feito mais para tornar este filme num produto mais cativante e emocionante para o público, especialmente para aquelas pessoas que não conhecem o livro e que agora vão ficar, muito provavelmente, com uma má imagem de um romance que está na base da Geração Beat. 

Classificação – 2 Estrelas em 5

1 comentários:

  1. Não entendi uma boa parte do seu texto. O problema do filme ficou vago.

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