Crítica - Beasts of the Southern Wild (2012)

Realizado por Benh Zeitlin
Com Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly

O palmarés de “Beasts of the Southern Wild” é invejável. Este drama indie de Benh Zeitlin estreou no Festival de Sundance em 2012, mas também passou por vários festivais de renome como o Festival de Cannes, o Festival de Los Angeles ou o Festival de Cinema de Deauville. Ao longo da sua virtuosa caminhada por estes conceituados certames internacionais, “Beasts of the Southern Wild” acumulou vários prémios relevantes e muitas críticas positivas, daí ninguém ter ficado surpreendido quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos da América o nomeou aos Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador (Benh Zeitlin), Melhor Atriz Principal (Quvenzhané Wallis) e Melhor Argumento Adaptado. Estas diversas honras e louvores atestam, teoricamente, o seu valor, mas é “Beasts of the Southern Wild” assim tão bom? Eu gostei mas, muito sinceramente, não o considero um dos grandes filmes do ano transato. Sem muito dinheiro, Benh Zeitlin conseguiu criar um drama que mexe connosco mas parece-me a mim que, entre tanto melodrama e análises a desastres sociais, poucas são as coisas que realmente interessam e comovem nesta valorosa obra, que se desenrola numa pequena comunidade piscatória numa zona pantanosa localizada nos arredores de Nova Orleães. É nesta zona isolada que vive Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), uma adorável menina de seis anos que está entregue à sua própria sorte. Quando um forte furacão faz subir as águas em torno da sua aldeia, Hushpuppy é forçada a enfrenta um enorme desafio à sua árdua e inocente existência. 


O que tem então “Beasts of the Southern Wild” a mais ou a menos? Eu começaria por referir que não gostei das suas partes fantasiosas, porque não se enquadram com naturalidade no quadro geral do argumento. Toda a questão dos “Aurochs" parece-me desnecessária e, no meu entender, não acrescenta nada de mais ao filme. É até bonito ver os monstros e entender o seu simbolismo, mas no fundo é um acessório que não resulta. O que realmente funciona é a história de luta e sobrevivência de Hushpuppy. É incrível seguir os passos desta adorável menina, que consegue sempre fazer frente a todas as questões e problemas que lhe aparecem à frente. Uma boa parte destes problemas têm na sua base o seu pai, uma figura abusiva, indiferente e detestável que acaba por ser a única força de apoio desta criança inocente e muito curiosa, que ambiciona ter a seu lado uma mãe que possa cuidar dela sem hesitações. Esta sua enternecedora demanda pelo calor humano da sua incógnita mãe é outra das coisas que não convence, muito embora faça muito sentido. A ideia até é interessante mas o seu desenrolar é demasiado aéreo e distante, daí só se tornar verdadeiramente evidente num par de cenas que mereciam mais contexto e desenvolvimento. Esta sua procura por uma figura maternal insere-se numa dilatada jornada de sobrevivência, onde se englobam muitos outros eventos e dilemas. Esta sua aventura é então marcada por muitos momentos deliciosamente emotivos e cativantes, mas também por alguns mais calmos e enfadonhos que afastam a nossa atenção da evolução da melodramática batalha que Hushpuppy trava contra as suas debilidades familiares e os efeitos de um furacão. É por isso que defendo que o sentimentalismo excessivo fere um bocado este autodenominado melodrama de fantasia, onde também encontramos um ou outro momento mais cómico sem relevo. Infelizmente, “Beasts of the Southern Wild” não patenteia um eficaz equilíbrio entre o (melo)drama e a fantasia, dando assim origem a um argumento instável com muita emoção humana mas escasso valor educativo. As alusões subjetivas à negligência parental, às pobres condições da vila piscatória e às consequências nefastas que o furacão teve no ecossistema e na vertente socioeconómica da zona são manifestamente subtis e insuficientes. Cabia a Benh Zeitlin explorar, com um pouco mais de paciência e primor, todas estas questões e outras que delas derivassem, mas em vez disso somos presenteados com um argumento que nos inspira e até nos impressiona de um ponto de vista dramático, mas que acaba por não fazer justiça a todas as suas potencialidades intelectuais. A jornada de Hushpuppy é portanto muito comovente, mas parece estar rodeada de oportunidades perdidas. 
Já a performance da pequena Quvenzhané Wallis como Hushpuppy não pode nunca ser acusada de ficar aquém da excelência. Esta novata atriz dá um verdadeiro festival de emoção e carisma, que atira qualquer outro interveniente para um plano secundário muito recatado. É por isso que os outros atores do elenco acabam por passar ao lado desta produção dramática, cuja validade e mérito da nomeação ao Óscar de Melhor Filme é incontestável, no entanto, não o vejo como um filme do mesmo calibre dos fantásticos “Amour” e “Argo”.

Classificação - 3,5 Estrelas em 5

2 comentários:

  1. Mais uma vez uma excelente critica, que bem ilustra o que eu queria mais ou menos referir do filme. Para a primeira longa metragem deste realizador acho que está muito bom filme. O papel da miúda é a meu ver excepcional, nem parece que está a representar. Também acho que a parte fantasiosa do filme está a mais, mas as crianças, eu também tenho um filho de seis anos, vivem a maioria das vezes em mundos só deles, o meu tem um primo imaginário, e como tem poucos primos reais criou-o, e vive num mundo dito normal, ora a miúda do filme onde vive é normal criar mundos e personagens á parte.
    Mas concordo com 3,5 estrelas, mas também só dava o mesmo a Argo, o Amour ainda não vi.
    Bons filmes e continuem.
    Cumprimentos a todos os amantes de cinema.

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  2. Olá João! Vi o filme só ontem e mais uma vez estamos de acordo em relação ao filme! óptima crítica e é só... não ha mais nada a dizer a não ser "subscrevo por baixo"...=D Cumprimentos

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