Crítica - Carol (2015)

Realizado por Todd Haynes 
Com Rooney Mara, Cate Blanchett, Kyle Chandler 

A maior injustiça da Época de Prémios de 2015 é a ausência de Todd Haynes da lista de nomeados ou vencedores dos principais prémios da indústria cinematográfica. Há uma enorme variedade de elementos que merecem ser destacados em "Carol", aliás o filme todo merece ser realçado pela sua enorme virtude e beleza. Se, no entanto, tivesse que destacar o principal ponto positivo de "Carol" teria que escolher a sublime e delicada direção de Todd Haynes. E tal escolha justifica-se a si própria, tal é a perfeição do trabalho levado a cabo por este cineasta britânico que parece ter um claro dom para filmar histórias de época, como tão bem provam os seus trabalhos passados na minissérie "Mildread Pierce" (2011) ou no drama "Far From Heaven" (2003).
O seu currículo como realizador não é propriamente extenso mas, como já dei a entender, conta com a presença de certos filmes de elevado calibre, sendo de destacar o aclamado "I'm Not There" (2007). A par desta poderosa e extravagante cinebiografia de Bob Dylan, também protagonizada por Cate Blanchett, "Carol" terá forçosamente que se destacar como um dos mais perfeitos e espetaculares projetos de Haynes que, injustamente, poucos prémios recebeu ou receberá por este seu exemplo de qualidade técnica.


Haynes incute a "Carol" uma nobreza muito própria e profundamente requintada. Este toque de classe pura acrescenta uma nova dimensão de primor a um filme já de si muito pormenorizado e requintado. É portanto quase indescritível a pureza e a simplicidade do primor com que Haynes retrata o moralmente proscrito romance entre a jovem Therese Belivet (Rooney Mara) e a elegante Carol Aird (Cate Blanchett). O que se pode dizer é que Haynes incute a "Carol" uma sensibilidade técnica de enorme valor que joga na perfeição com a formosura humana, romântica e dramática de uma trama simplesmente sublime e delicada. 
O tom de "Carol" é sutil. É certo que o seu teor romântico pode até ser picante, mas Haynes permaneceu fiel e dedicado à elegância e à pureza natural deste projeto, tendo assim resistido à ideia de se aproximar da banalidade da sexualidade para estimular o espectador pela visa do fetiche e da sexualização. Em vez disso, Haynes retrata o romance proibido entre Carol e Therese com a graciosidade e o primor que lhe era pedido, não só pelo nível e estilo do próprio filme, mas também pela sublimidade das performances de Cate Blanchett e Rooney Mara.



É quase um pecado não colocar as simétricas performances de Blanchett e Mara ao mesmo nível da realização perfeccionismo de Todd Haynes. É impossível não reconhecer que se não fosse pela graciosidade clássica de Blanchett e pela virgindade natural de Rooney Mara, "Carol" não teria tanto impacto. Estas duas excelentes atrizes pegaram nas suas respetivas personagens e conferiram-lhes partes importantes das suas respetivas personalidades. É por isso que conseguimos ver muito de Blanchett e Mara em Carol e Therese. É por isso também que "Carol" respira e expira tanta classe e sofisticação. Não há portanto nada a apontar às performances de Blanchett e Mara que, em conjunto, promovem a excelência artística e a vulnerabilidade humana por via de uma história romântica que se revela prazerosa a todos os níveis. Este casamento perfeito entre o primor de Haynes, Blanchett e Mara é ainda completado pela excelência de Carter Burwell, cuja banda sonora, para além de absolutamente sublime, casa também na perfeição com o tom sério e delicado do filme.
Esta perfeição técnica ajuda então a realçar ainda mais uma excepcional história que foi inspirada no romance "The Price of Salt", de Patricia Highsmith. Há que dizer que "Carol" sempre será muito mais que um belo produto dramático sobre um romance lésbico. A questão sexual é apenas um dos muitos patamares narrativos de uma trama completa e equilibrada, onde jogam também outros interesses e temas, como a família e a vida. A história de dedicação e romance entre Carol e Therese transcende a simplicidade do sexo e do romance, alcançando assim por intermédio de profundas explorações pessoais um nível impressionante de transcendência humana, moral e emocional. É por isso que "Carol" é um filme puro, mas também um filme raro na forma peculiar como explora o amor e o drama sem se perder no banalismo ou prender às simples questões do sexo e do melodramatismo. Para além de um plano mais existencial e de um plano mais sensível, "Carol" apela também a um plano mais social que puxa pelas moralidades da época e pelos valores que pautavam as escolhas de cada um numa época tão fechada como aquela onde Carol e Therese vivem o seu complexo romance. Não se pode por isso dissociar de "Carol" uma importante ambição social que se mescla na perfeição com a sua primorosa textura dramática/romântica que, em conjunto com uma componente técnica deslumbrante, promovem um filme insigne e requintado para ser recordado por muitos anos.


Classificação - 5 Estrelas em 5

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