Crítica - Bridge of Spies (2015)

Realizado por Steven Spielberg
Com Tom Hanks, Mark Rylance, Scott Shepherd

Após um período de relativo esquecimento e de uma série de projetos pouco dados a elogios, o complexo tema da Guerra Fria subordinado às tensas relações entre Estados Unidos e União Soviética voltou a ser habilmente explorado por Hollywood com este "Bridge of Spies". E tal só foi possível graças a uma impressionante combinação de génios que colocou lado a lado a genialidade narrativa dos Irmãos Coen e a magnificência criativa de Steven Spielberg. Os Irmãos Coen ocuparam-se, em parceria com Matt Charman, do argumento, ao passo que o leme deste híbrido entre um drama jurídico e um thriller de espionagem foi entregue a Steven Spielberg, um dos nomes mais seguros em Hollywood para transformar boas histórias reais em bons filmes. No passado já o fez com projetos altamente consagrados, como "Schindler's List" (1993) ou "Munich" (2005), que, à sua maneira, expuseram ao mundo de uma forma absolutamente memorável e sublime duas pesadas e importantes histórias reais que não eram muito conhecidas. Spielberg, agora com a preciosa ajuda dos Coen, repetiu a proeza com "Bridge of Spies", um produto cinematográfico equilibrado e muito bem pensado, onde Tom Hanks interpreta, com a sua já habitual classe e destreza, o advogado americano James Donovan que, em 1962, foi contratado pela CIA para negociar a libertação de um piloto de guerra americano que se encontrava detido na União Soviética e que acabou por ser libertado graças, em boa parte, aos esforços de Donovan.
A equilibrada narrativa de "Bridge of Spies" não evoca os importantes traços satíricos e criativos dos Irmãos Coen, mas torna-se evidente que Joel e Ethan Coen estiveram por detrás deste argumento graças à astuciosidade natural do mesmo. Um exemplo dessa inteligência está na forma como o filme se apresenta ao público. Numa primeira fase, "Bridge of Spies" apresenta-nos, com o devido pormenor, ao advogado James Donovan e à forma como este desempenha a sua profissão. E fá-lo por intermédio de um par de eventos prévios, com um teor mais jurídico, que ajudam assim a dar o mote para todos os restantes eventos do filme, já que, para além da apresentação de Donovan, lança também as bases políticas contextuais da Guerra Fria. Ao não começar de imediato por explorar o evento que sustenta a base do filme, "Bridge of Spies" consegue assim fornecer ao espectador o contexto necessário para que este possa compreender como é que a CIA chegou até Donovan e como é que este opera. A partir do momento em que começa a desenvolver a história real por detrás das negociações entre os Estados Unidos e a União Soviética para a libertação do piloto Francis Gary Powers, "Bridge of Spies" entra então por um caminho bem mais diplomático e mais ligado á política que aparece carregado por uma maior tensão. O resultado final desta conjugação criativa é um importante exercício político, histórico e diplomático sobre a Guerra Fria que, num patamar de igual importância, acompanha a vertente mais humana e dramática que está inerente ao evento que efetivamente dá nome ao filme.


Em todo o caso, "Bridge of Spies" exibe sempre um poderoso ambiente do já típico thriller de espionagem em todas as suas fases. Embora a conclusão seja conhecida à partida, Spielberg e os irmãos Coen conseguiram incutir a este seu projeto histórico um toque de classe cinematográfica, já habitual da sua filmografia, que o transforma num filme um pouco mais emocionante e criativo do que aquele que inicialmente se poderia supor. Ao impor um elevado nível de detalhe e tensão às diferentes fases do filme, quer à fase de apresentação de Donovan, quer à fase de ação de Donovan junto da União Soviética, "Bridge of Spies" acaba por expor uma já de si curiosa história real a um saudável magnetismo cinematográfico. Isto leva ao seu óbvio realce comercial e reforça também o seu lado mais humano e misterioso sem, no entanto, entrar por caminhos demasiado fantasiosos, patrióticos e mentirosos, que, embora timidamente presentes, pouco afetam o espírito do filme. 
Esta obra aparece-nos portanto como uma curiosa história política e diplomática com um forte peso jurídico, para além, claro está, de conseguir convencer o público pela sua vertente humana e dramática que se foca, sobretudo, na inquietante situação de Francis Gary Powers e na sempre tensa relação entre forças americanas e soviéticas. No seu conjunto, "Bridge of Spies" assume-se, por tudo o que já foi dito, como um produto cinematográfico muito explicito que devolve um certo glamour histórico e comercial aos filmes ambientados na Guerra Fria. Para tal muito contribuiu a genialidade de Steven Spielberg que, uma vez mais, provou que sabe contar boas histórias e que resiste à tentação de cair em estereótipos baratos para o fazer. Não se pode dizer que "Bridge of Spies" seja um dos seus melhores filmes, mas perante uma filmografia tão magnífica será sempre difícil para qualquer um dos seus projetos chegar ao nível de obras clássicas como, por exemplo, "Schindler's List" (1993). É claro que a genialidade de Spielberg de quase nada serviria se não pudesse contar com o apoio de uma grande base narrativa como aquela que foi elaborada pelos Irmãos Coen, cujo trabalho neste projeto deve ser valorizado no mesmo patamar que o de Spielberg. 

Classificação - 4 Estrelas em 5

2 comentários:

  1. Olá, João.

    Quando vi este filme voltei à época áurea de Spielberg, em que qualquer filme assinado por ele era, certamente, de excelência. Não é, de facto, um “Schindler's List”, ou um outro qualquer de início de carreira de Spielberg, mas é um bom filme, com o Tom Hanks a dar, como sempre, aquele seu toque mui pessoal a uma personagem que fez história dentro da história política-bélica-desumana.

    Continuação de boas críticas.

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    1. Olá Lucy. A combinação entre os Coen e Spielberg torna-o muito bom. É claro que não tem aquele toque de clássico imediato de outros filmes do cineasta, mas é como diz, um bom filme.

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