Crítica - Deadpool (2016)

Realizado por Tim Miller
Com Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein

A personagem Deadpool foi, definitivamente, um marco para as bandas desenhadas nos Anos 90. Com a sua personalidade excêntrica, piadas sobre a cultura pop e grande nível de violência e sexualidade, Deadpool ganhou o coração de muitas pessoas que apreciam esta “vibe” mais moderna do conceito de “super-herói”. Mas será que chamá-lo de herói é fiel? Nesta questão um tanto filosófica, a resposta vai aparecendo ao longo deste refrescante filme numa forma simples e diferente.
Para quem está à espera de heroísmo alá Captain America poderá não apreciar muito esta abordagem. Aqui o que conta é sexo, cabeças cortadas, humor negro e questões muito particulares deste “herói”. Não quer salvar o mundo nem tirar gatinhos das árvores mas sim cumprir os seus próprios interesses e ambições, sem se preocupar com a opinião dos outros. Desde 2000 que nos prometiam este filme, mas como colocar um personagem tão bizarramente característico numa tela de cinema? Talvez a razão por termos Deadpool só agora é que Hollywood encontra-se numa fase um pouco mais arriscada. A preocupação paira nos estúdios com as histórias de super heróis que parecem que vão-se desgastando, sempre com a mesma finalidade, explosões e aventuras. Deadpool veio numa altura ideal, uma lufada de ar fresco que vem dar uma nova dimensão às histórias de bandas desenhadas adaptadas para cinema.
O filme de origem conta a louca jornada do ex-militar e atual mercenário, com um sentido de humor bastante peculiar, Wade Wilson (Ryan Reynolds), diagnosticado com cancro terminal. De modo a sobreviver, Wilson encontra uma possibilidade de cura em uma experiência científica sinistra que transforma pessoas comuns com problemas parecidos com os dele em “super-heróis”. Recuperado com poderes de regeneração, tornando-o um ser imortal, com um aspeto que faz lembra Freddy Krueger, adota o alter-ego Deadpool, em busca da vingança contra Ajax (Ed Skrein), o homem que arruinou a sua vida.  


Ao contrário de maior parte dos filmes de origem apresentados até agora, os acontecimentos não seguem uma linha linear em termos de cronologia, o que faz com que nós não tenhamos que ficar a primeira metade do filme a ver a história de Wilson até chegar a Deadpool. Em vez disso, intercala os episódios que o levaram a Deadpool, com o momento presente em que anda à procura de Ajax e cruza-se com dois X-Men, Colossus (executado através da interpretação e movimentação de cinco atores no total, mas cujos efeitos visuais que o compõem deixam um bocado a desejar) e Negasonic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand).
No começo, o filme presenteia-nos com créditos iniciais hilariantes que criticam muitos aspetos sobre a elaboração deste tipo de filmes, e desde aí já temos noção do tom da longa-metragem. Vemos algumas das capacidades impressionantes de Deadpool tal como o seu humor bizarro e negro, juntamente com uma banda sonora que nos faz dançar na cadeira. É apelativo longo de início e faz-nos questionar sobre variados pormenores que depois são esclarecidos com muitas quebras da “4ª parede”, uma das principais caraterísticas da narração de Deadpool na banda desenhada.
Há que salientar o quão fiel o filme é da banda desenhada, provavelmente, o único filme de super-heróis que conseguiu tamanho feito. Desde o fato, os olhos até às atitudes e piadas, é tudo retirado dos comics com bastante agilidade sem se tornar doentiamente familiar. No entanto, tem que se afirmar que tudo isto resulta devido a uma única pessoa: Ryan Reynolds. Aqui, o ator oferece-nos uma performance impecável e polida, excêntrica nas pontas certas e humana em situações para tal. Vê-se as dedadas de Reynolds por tudo o que é sítio, no argumento, nas piadas e na escolha de certos elementos do filme. É bastante positivo quando nos deparamos com atores que se entregam sem vergonhas a algum personagem. Ryan Reynolds é tão Deadpool quanto Robert Downey Jr. é Tony Stark. É daqueles momentos que ficamos orgulhosos com o casting que põe o filme todo a andar.
A obra tem personagens secundárias que permanecem na nossa memória, como a “girlfriend and future baby mama” e melhor amigo de Wade Wilson, Vanessa Carlysle (Morena Baccarin) e Jack Hammer (T. J. Miller) respetivamente. São personagens com as quais o espectador poderá identificar-se, por serem pessoas completamente normais, sem super poderes, mas com línguas bastante afiadas. Tanto o relacionamento de Wilson com Vanessa como com Jack são retratados na perfeição e com grande naturalidade, devido à química que há entre atores. É agradável quando um filme de super-heróis nos mostra uma história romântica sem lamechices e beijos à chuva com uma músiquinha clássica de fundo. Aqui, a relação amorosa é crua, pura e uma montanha russa, onde criamos empatia por este divertido casal. Já na relação de amizade Wilson/Jack, as suas trocas de piadas grosseiras são fantásticas e nunca caem no exagero.


O calcanhar de Aquiles de qualquer filme do Universo Marvel são os vilões. São todos personagens bastante esquecíveis e monótonas, sem carisma para representar uma verdadeira ameaça para o herói. Apesar de não ser dos vilões que vai ficar na história, Ajax (ou Francis) tem carga para ser um grande vilão, com o seu sotaque britânico, crueldade e sarcasmo malévolo no tom de voz e no olhar. Uma frase em particular que é dita pela personagem durante o filme todo até nos dá um pequeno arrepio na espinha, mas mesmo assim torna-se simplesmente mais um vilão que está só lá para cumprir o seu papel. Outro personagem a destacar é Colossus que, pelo que os trailers do filme nos davam a entender, seria alguém extremamente durão, pelo menos era o que transmitia o seu aspeto. Contudo, provavelmente, o X-Man é a maior surpresa por se revelar um herói com todas as letras maiúsculas, um cavalheiro, com um coração dado a ajudar o Mundo. Torna-se o perfeito companheiro para Deadpool, quase como se fosse aquele pai chato pronto para dar variadas lições de moral. É através dos seus discursos e da sua relação com Deadpool que a questão filosófica do herói ganha forma: será que ser herói é sempre trabalhar para o bem e ajudar os coitados?
Apesar dos efeitos visuais de Colossus que nos fazem torcer um pouco o nariz, aquilo que se conseguiu construir com um orçamento limitado é impressionante. Porém, este filme está longe de ser perfeito e peca muito em um pormenor essencial: as personagens femininas. Mesmo o espetador querendo ver uma heroína, Vanessa não tem esse papel e seria um exagero considerar o filme sexista devido a isso. Aliás, o filme tem tudo menos teor sexista, mas não constrói personagens femininas que marquem na história. Negasonis Teenage Warhead é uma rapariga com ainda possui muita coisa para contar e detêm uma estética muito intrigante, mas não transmite tanta presença como se gostaria. O pior do filme pode mesmo ser a performance de Gina Carano, interpretando Angel Dust, parceira de Ajax. Dá a sensação que a personagem está ali para meramente grunhir e fazer cara de má e não lhe é atribuída qualquer tipo de volume ou diálogo relevante. A sua imagem de marca, o fósforo na boca, não lhe acrescenta em nada e não faz sentido nenhum. 
Outro facto, são as piadas, que na sua esmagadora maioria funcionam numa maneira impecável, mas que o público português poderá não perceber por serem algumas (poucas) muito específicas e um bocadinho longe da nossa realidade.
Com uma direção competente, atores carismáticos e um guião perfeito com humor que arranca uma gargalhada a qualquer um, “Deadpool” pode muito bem ser considerado como um dos melhores filmes do género, tendo uma montanha de direções que poderá tomar, sendo a prova que filmes de super-heróis Rated R têm futuro e pernas para andarem num rumo para mais dinheiro, sucesso e sequelas.

Artigo Elaborado por Bellatrix Alves

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