Crítica - Danton (1983)

Realizado por Andrzej Wajda
Com Gérard Depardieu, Wojciech Pszoniak, Anne Alvaro, Patrice Chéreau 

A Revolução Francesa representou uma mudança profunda na conceção de sociedade, ao defender valores como igualdade, fraternidade e liberdade. A partir dela, o homem passou a ser mais valorizado, não pela posição que tinha, ou pela sua riqueza, mas pelo simples fato de ser um indivíduo livre, com os seus deveres e direitos. No entanto, essa liberdade e igualdade vêm a um preço. Antes da Revolução, a sociedade encontrava-se extremamente estratificada e dividida através de riqueza e poder, com leis que não cobriam todos e com muitas vozes que não eram ouvidas. Ora, estes conceitos liberais eram particularmente novos na mentalidade do final do século XVIII, o que tornava difícil determinar certos limites, sendo os extremos frequentes. 
Danton conta os últimos momentos de Georges Danton (Gérard Depardieu), uma das figuras mais destacadas e relevantes nos estágios iniciais da Revolução Francesa. Após a revolução, a França vive numa época de puro terror, onde todos os dias, pessoas são guilhotinadas por suspeitas de irem contra os princípios da revolução. Não concordando com a direção que o governo francês está a tomar, Danton entra em confronto com Robespierre (Wojciech Pszoniak), seu antigo aliado, e acaba por ir a julgamento. 
Aqui encontra-se representada a clássica história onde o feitiço vira-se contra o feiticeiro. Fundando o Tribunal Revolucionário, Danton encontra-se a ser julgado injustamente pelo mesmo, finalmente tendo a noção de como as coisas estão fora do controlo. Apesar de despercebido e escondido por um véu de suposta persuasão, a manipulação encontra-se bem presente. Danton utiliza a sua verdadeira arma, a oratória manipuladora. Com palavras intensas, tenta colocar a opinião popular a seu favor, declarando que sempre esteve a seu lado, a lutar por seus direitos. Mas será que o advogado e político francês esteve definitivamente ao lado do povo francês? Não seria aquele terror exagerado, obra sua? Danton finalmente vê o fruto das suas ações e encontra-se entre a espada e a parede.
Robespierre, por outro lado, assenta-se no papel de um juíz divino, que decide o destino de seus “traidores” num estalar de dedos, apesar de não ter bem a noção do perigo das suas decisões. Encontra-se debilitado, cansado, confuso, nada bom para um suposto líder. Observa-se pelas rugas, pelo olhar exausto, que antes fora um homem com visões determinadas, com as rédeas bem seguras em suas mãos. Entra numa espiral de solidão, preocupando-se sempre com política, não vivendo a vida como outros homens e, supostamente, segundo seu antigo aliado, “nunca ter feito amor”. Rodeado por pessoas que se cegam com tanto sangue, acaba por dar respostas que não são totalmente seguras, hesitando muitas vezes. Julgar e condenar Danton seria uma imensa reviravolta para a Revolução que, provavelmente, até determinaria o seu destino. 
As diferenças entre persuasão e manipulação política carregam o filme com subtileza. Somos convencidos que Danton deve ser julgado, mas ao ouvirmos as suas palavras, também somos convencidos que encontra-se injustamente a ser julgado. Saltitamos nas nossas opiniões, somos empurrados pelas palavras apaixonantes de Robespierre e Danton. O coração palpita no nosso peito ou ouvirmos as vozes a elevarem-se, o desespero a aumentar, o poder a concentrar-se. Os discursos são verdadeiramente cativantes e prendem a nossa atenção como algo raramente visto. Estamos realmente interessados em ouvir esses políticos manipuladores, que têm muita acusação mas defesa das suas posições praticamente negada ou inexistente. A paixão pela pátria acelera e aquece quando Marseillaise começa a ser entoada. Basta só as primeiras palavras para todos se levantarem e cantarem o hino com toda a alma. Ficamos encantados com a política, os discursos, os gestos, os olhares…
O maior trunfo da obra é, obviamente, as performances que a constituem. Todo esse palpitar de coração não seria possível sem as atuações brilhantes de todos, em particular, claro, de Gérard Depardieu e Wojciech Pszoniak. O filme poderá chamar-se Danton, mas definitivamente são duas histórias intercaladas em uma só. Apesar de ambos terem um objetivo comum, a estabilidade para as conquistas feitas durante a revolução, têm dois pontos de vistas um tanto diferentes. Aliás, até a maneira como expressam esses pontos de vista já por si são distintas. Danton parece mais descontraído, um ser social, adorado, com um temperamento um pouco explosivo e uma mente menos extrema. Já Robespierre é mais fechado, retirado, extremista, não tão seguro de si mesmo como o seu antigo aliado. No entanto, apesar dos dois atores atuarem perfeitamente individualmente, é na única cena em que estão juntos, numa acolhedora sala de jantar, que maravilham tudo e todos. A troca de palavras afiada é simplesmente extasiante, entregando-se de corpo e alma aos personagens. É uma cena abertamente memorável.
Posso afirmar, a direção de Wajda, arriscando, como sendo (quase) perfeita. Sem movimentos de câmera fantasiosos, o realizador assume o filme e detém-no na mão. Com a câmera bem segura, mostra-nos facetas destas duas figuras históricas conhecidas pelos historiadores mas jejuadas pelo comum espectador. Mostra-se capaz de contar uma história emotiva e grandiosa, oferecendo-nos uma perfeita noção de como era a situação durante a época do terror. Possui grande sensibilidade para retratar as personagens, tanto como grandes imagens na História da Humanidade, como indivíduos meramente humanos, que se perderam no meio de uma grande revolução. 
Para quem tem o mínimo de conhecimento da Revolução Francesa, sabe muito bem por que caminhos seguem depois o final desta fantástica obra. A música inquietante assombra os nossos ouvidos tal como a visão de um destino desmoronado assombra a mente de Robespierre. Uma experiência, confesso, bastante positiva, e certamente que o filme fica a matutar na cabeça, quer pelas performances apaixonantes, como pela história inesquecível.

Artigo Elaborado por Bellatrix Alves

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