Crítica - Snowden (2016)

Realizado por Oliver Stone
Com Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Melissa Leo, Zachary Quinto

O sempre polémico Oliver Stone adora debruçar-se sobre a controvérsia política. Entre os exemplos mais mediáticos deste seu prazer cinematográfico estão os filmes “W” (2008), "Nixon" (1995), “JFK” (1991) e "Born on the Fourth of July" (1989)  que, como se sabe, não poupam nas críticas e nas ofensivas morais contra o poder político norte-americano. É portanto natural ver Oliver Stone como o realizador da primeira cinebiografia de Edward Snowden, o espião da CIA e da NSA que em 2013 tornou-se num dos delatores mais célebres do planeta ao tornar públicos vários documentos que comprovaram que o Governo Americano vigiou, durante anos, toda a população americana e mundial a toda a hora e sem autorização.
Esta cinebiografia é um retrato do trajeto profissional de Snowden. Este começou por ser um patriota assumido que defendia com unhas e dentes o Governo Americano, mas que mal começou a trabalhar para a CIA e NSA mudou radicalmente de opinião. Embora mantenha até hoje as suas convicções patrióticas e amor ao seu país, Snowden já não é um apologista cego das suas opções e tudo por causa dos abusos de privacidade e poder que presenciou durante o desempenho das suas funções. Os documentos que divulgou ajudaram a expor um enorme escândalo moral, político e social com repercussões mundiais que, pese embora o enorme alarido que causou, não trouxe as mudanças significativas que Snowden esperava. Isto porque entre pedidos de desculpas públicos e reafirmações de questões de segurança, toda a questão da vigilância em massa caiu um pouco no esquecimento sem muitas culpas atribuídas. Não ajudou à causa o facto de se ter vindo a descobrir que os Estados Unidos não foram nem são os únicos a apostarem neste tipo de situações e que estas, por estes dias, são quase uma prática comum. Mas a grande verdade é que a maioria da população, atendendo à crescente insegurança mundial, não parece importar-se assim tanto com esta questão. O filme por acaso escusa-se a explorar esta problemática ao não mostrar como o dito sacrifício de Snowden alterou ou não a realidade mundial até ao momento. O certo é que nada parece ter mudado a nenhum nível, pelo menos não de uma forma visível. O que existe desde o escândalo é sim uma maior convicção sobre a possibilidade constante de o Governo, seja ele americano ou não, estar à escuta das nossas conversas. Numa era de expansão e enorme presença tecnológica tal possibilidade já era bem real mesmo antes do Caso Snowden, mas foi claramente reforçada pela divulgação do espião que confirmou as piores teorias de conspiração. 


Isto tudo para dizer que "Snowden" é efetivamente um filme interessante sobre a polémica em redor do espião, mas pelo meio do retrato profissional e pessoal de Edward Snowden faltou um ponto muito essencial, ou seja, um maior enfoque e aposta na discussão e informação sobre o tema da violação de privacidade. Num plano mais concreto pode-se mesmo dizer que "Snowden" falha por completo na hora de contextualizar esta problemática junto da nossa sociedade, não conseguindo também explorar devidamente o que ela representa, quer de positivo, quer de negativo, para a sociedade 
Quanto à cinebiografia em si não de pode dizer que esteja mal feita. Stone trabalhou de perto com o próprio Snowden para conseguir a maior veracidade possivél, pelo que o retrato que nos é apresentado presume-se fiel. É claro que há uma tendência para valorizar o lado positivo, moralista e competente de Snowden que até pode corresponder à verdade. O problema é que em especial na parte final do filme esta valoração torna-se um pouco forçada, especialmente os elementos que ilustram a fuga de Snowden às autoridades até à Rússia, onde encontrou asilo.
Isto não deixa de tornar “Snowden” numa peça cinematográfica interessante e com uma clara aptidão dramática mas, lá está, menos informativo do que se esperava. A alteração progressiva de opinião de Snowden relativamente ao Governo Americano está bem estruturada e os efeitos que os seus dilemas internos têm na sua vida e relação amorosa são curiosos de observar. A boa performance de Joseph Gordon-Levitt também ajudou a dinamizar e credibilizar um retrato mais pessoal de um Snowden que, sem querer spoilar nada, acabou por ter nesta obra uma participação bem mais ativa do que se pensava. Por muitos defeitos que se possam apontar às tendências conspiracionais de Stone há que dizer que em “Snowden” também apresentou um trabalho aceitável. Pode não ser o projeto mais competente, integro e intelectualmente preponderante, mas entra claramente dentro dos parâmetros da razoabilidade do entretenimento.

Classificação - 3 Estrelas em 5

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