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Entrevista Com a Organização do FICLO 2020. O Que Podemos Esperar Deste Festival Algarvio?

Entrevista Com a Organização do FICLO 2020. O Que Podemos Esperar Deste Festival Algarvio?
FICLO Com Novas Datas em Julho! Não Pode Perder
Depois do adiamento forçado pela emergência de saúde pública que afecta o mundo, o FICLO - Festival de Cinema e Literatura de Olhão vai realizar-se  entre os dias 15 e 21 de Julho, mantendo o essencial da programação de filmes e actividades paralelas anunciadas em março e com ajustes de exibição em linha de concordância com as recomendações emitidas pelas entidades competentes. O Portal Cinema foi tentar saber junto da organização do FICLO quais são os grandes highlights e o que podemos esperar deste certame. Nos próximos dias, o Portal Cinema vai promover alguns artigos em jeito de antevisão, mas que melhor antevisão pode existir do que uma entrevista com quem organiza este certame...

Portal Cinema - Pode-nos apresentar em breves palavras esta edição do FICLO? O que pode o público esperar?

FICLO - O Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão, este ano, decorre em pleno Verão, de 15 a 21 de Julho, e, assim, fazendo da necessidade virtude, voltamos com mais actividades ao ar livre. Graças, especialmente, às esplêndidas noites do Verão algarvio, muitos dos filmes da competição Oficial passam para sessões ao ar livre no pátio da República 14 e no Convento do Carmo em Tavira. O essencial da programação mantém-se: a competição oficial, a retrospectiva do realizador Albert Serra, o ciclo de cinema italiano, país convidado desta edição e muitas actividades paralelas ao ar livre: masterclasses, carrinha literária, percursos performativos, sem esquecer a livraria no mercado municipal.

Portal Cinema - O grande “elefante na sala” é claro a pandemia Covid-19. Esta teve um impacto na organização, até porque datas foram alteradas e eventos modificados, mas na perspectiva da organização qual foi o impacto e que desafios apresenta? Neste capítulo que mensagens e que querem passar aos possíveis espectadores do FICLO? 

FICLO - Sem dúvida está a ser um ano turbulento. Sim, teve um impacto muito grande. Tivemos de reagendar tudo, com o que isto implica, novos gastos, mais contratações. Este ano quase não contamos com patrocínios privados, portanto, mais gastos e menos recursos. O grande desafio é conseguir manter a serenidade para trabalhar com inúmeras variáveis, e conseguir os apoios do ICA para festivais, estreitar os laços com a Câmara de Olhão e com todas as instituições que tornem possível a continuação do FICLO para o ano que vem. Para os espectadores, o mesmo, manter a calma e a serenidade, e respeitar o distanciamento nos recintos, porém sem deixar de desfrutar do maravilhoso cinema que ao longo dos anos, sempre acompanhou os momentos mais difíceis, alentando poeticamente as nossas vidas.

Portal Cinema - Como curadores desta Mostra, que temas ou ideias quiseram transmitir com esta Programação? Qual foi a grande linha orientadora para montar a programação do festival e orientar a seleção dos filmes, dos homenageados e claro está dos clássicos?

FICLO  - O FICLO explora a relação entre o cinema e a literatura, e nesta edição, temos um ciclo italiano extraordinário, filmes dos grandes realizadores italianos que buscaram um equivalente visual a uma forma de narrar contemporânea.Foi, precisamente, com este desafio em encontrar o equivalente visual que se inaugura um novo tempo do cinema. Estes últimos filmes, todos eles se valem da estrutura narrativa e da temática da viagem para a exploração da identidade. A viagem, temática da literatura universal ao longo dos séculos, é o grande tema que percorre praticamente todos os filmes da competição oficial e da retrospectiva de Albert Serra. Do obscuro e, neste caso, perturbador, dava conta o ciclo do Gótico Tropical. Ciclo que foi adiado por ser, paradoxalmente, actual por excesso. Ficará para uma próxima edição.

Portal Cinema – Albert Serra é a figura de destaque desta edição do FICLO, estando preparada uma grande retrospetiva da sua carreira. O que podemos esperar desta secção muito especial? E o que diriam para convencer quem não conhece o trabalho de Albert Serra a espreitar algumas das sessões dedicadas ao cineasta?

FICLO  - Albert Serra é um realizador e artista muito especial no panorama cinematográfico contemporâneo. Um dos cineastas mais irreverentes da actualidade; a sua obra não deixa ninguém indiferente. O certo é que os filmes de Serra são uma verdadeira experiência. Serra também é singular na relação que estabelece com a literatura. Todos os seus filmes partem da literatura, especialmente da literatura universal, ainda que não conte com nenhum filme que seja uma adaptação propriamente dita. “Honor of the Knights” é livremente inspirado nas personagens principais de El Quijote; “Birdsong” vai beber à Bíblia; “Story of My Death” foca-se nas memórias de Casanova e na figura de Drácula; “The Death of Louis XIV” inspira-se nas memórias de Saint Simon, e por aí a fora… A literatura universal ou a grande literatura serve de inspiração para os seus filmes. Mas podemos mesmo ir mais longe e dizer que Serra é para além disso tudo um poeta das imagens. 
A retrospectiva permite conhecer a obra do autor a fundo, pois trata-se de uma retrospectiva integral, onde podemos acompanhar toda a evolução, do primeiro ao último filme do realizador. Ressalvamos um dos seus filmes da retrospectiva pela singularidade dentro do seu universo. “The Lord Worked Wonders in Me” é, segundo o próprio realizador, uma brincadeira em forma de ‘Making of’ dos seus filmes passados e dos seus futuros filmes. Mostra-nos o lado divertido ou lúdico com que Serra trabalha juntamente com a sua equipa, na realização dos seus filmes, que normalmente o público não vê no formalismo dos seus outros  filmes. 


Adoration - O Filme de Abertura do FICLO


Portal Cinema - Entre os vários filmes presentes da Secção Competitiva, quais são aqueles que mais relevam e aqueles que mais poderão relacionar-se com os espectadores portugueses e porque?

FICLO - Todas as obras por mais distantes que possam parecer se relacionam com o público português, pois as experiências retratadas, independentemente dos temas, localização geográfica ou narrativa, dizem respeito a temas universais. 
Mas podemos ressaltar alguns dos filmes da competição que parecem ter mais afinidade com o público português, pela nossa história e/ou actualidade dos temas. O filme dos italianos Ludovica Andò e Emiliano Aiello “Fortress”, vai-nos tocar muito por se tratar de um filme que nos fala de confinamento e isolamento, momento mais actual que esse não teremos. O filme do romeno Radu Jude “I do not care if we go down in history as barbarians”, poderá ter igualmente um forte impacto no público português, devido ao debate que está a surgir na sociedade portuguesa com as estátuas e o passado colonial do país. Este filme trata do olhar crítico que deveríamos ter para com a nossa história, mesmo que esta nos apareça como muito desconfortável de lidar. No caso do filme, reflexiona-se sobre o passado nazi da Roménia. “Endless Night” é outro filme que nos pode aparecer como muito próximo, pois tal como Espanha também tivemos uma ditadura muito longa que continua a afectar o nosso presente. 
Mas como dito no início, todas as obras da competição falam ao público português, e filmes como “Valley of Souls”, “Adoration” ou “There was a Little Ship” não se podem perder!


Portal Cinema – O que podemos esperar de futuras edições do FICLO? E que mensagem final querem deixar aos possíveis espectadores do FICLO?

FICLO - Estamos muito satisfeitas com o trabalho que estamos a desenvolver para a 3ª edição do FICLO, teremos ciclos muito interessantes, para além da Competição Oficial e da secção de retrospectiva que já é marca do festival. Para futuras edições contamos continuar a surpreender com mais relações inusitadas entre o cinema e a literatura, procurando continuar a abrir o espectro dessa relação entre ambas as disciplinas artísticas. 
Ainda que estejamos numa situação muito frágil, visto que o Programa 365 Algarve que permitiu a existência da 1ª e 2ª edição, parece que deixou de existir, nada se sabe ao respeito. Portanto, o festival poderá continuar se conseguirmos o apoio do ICA a festivais em território nacional, convocatória à qual nos podemos candidatar este ano, pela primeira vez, por ser um requisito da mesma a exigência de 2 edições prévias, consecutivas. Embora a obrigação na convocatória do ICA para um número específico de espectadores não nos pareça correcta em tempos de pandemia. Esperemos que o ICA considere e promova em sentido de igualdade e proporcionalidade o número de espectadores exigido para a convocatória, visto que cumprindo com as directivas da DGS para salas de espectáculo, a lotação vê-se bastante afectada, passando nalguns casos para menos de metade. 
A mensagem para o potencial público do festival é venham, venham! Apoiem este festival neste ano em que tudo parece desmoronar e mudar a cada momento. Venham e permitam que este festival sobreviva à COVID-19. 
O FICLO é um festival que conta com uma bela programação e permite que se veja no Algarve filmes que de outra forma não seria possível, porque são filmes sem distribuição em Portugal, com muitas actividades surpreendentes como um percurso performativo e uma masterclass a bordo do Caíque Bom Sucesso, várias conversas onde podemos conhecer mais a fundo os filmes apresentados a competição. Um festival pequeno, numa cidade pequena que permite estar lado a lado com os realizadores/as, escritores/as e outros convidados do festival. 




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