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Apresentação do Queer Lisboa e Queer Porto 2020

Apresentação do Queer Lisboa e Queer Porto 2020
Apresentação do Queer Lisboa e Queer Porto 2020


O Queer está de volta ao porto e Lisboa. O Portal Cinema divulga agora o comunicado oficial da organização sobre a programação e a apresentação de ambos os festivais!

O Queer Lisboa anuncia toda a sua programação, com destaque para os filmes de abertura e encerramento: Los Fuertes e Petite Fille. São também apresentados os filmes dos seis programas que compõem o Queer Focus, secção anteriormente anunciada.  Foi ainda revelado o programa completo do Queer Porto 6, com destaque para o Filme de Abertura Si C’Était de L’Amour e o Filme de Encerramento Le Milieu de L´Horizon, para além de conversas e debates com a presença de convidados. 

O Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer, anunciou a programação completa da sua 24.ª edição, a decorrer de 18 a 26 de setembro de 2020, no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa. Também o Queer Porto anunciou toda a programação da sua 6ª edição, que acontecerá de 13 a 17 de outubro de 2020, no Teatro Rivoli e na “Casa Comum” da Reitoria da Universidade do Porto..

O Queer Lisboa e o Queer Porto, neste ano atípico, assumem o seu formato presencial, celebrando a ideia de comunidade e socialização, dentro das necessárias restrições. Através de um conjunto de termos-chave transversais às muitas expressões da cultura queer, como o são o Cruising, Sex, Bodies, Play, Skin e Memory, o festival celebra o corpo e a sua diversidade sexual - o que estes termos nos ensinam sobre a influência dos nossos contextos vivenciais e sociais, e dos lugares que habitamos, na construção das nossas identidades voláteis. Celebra-se a importância da nossa presença, luta e transgressão, na apropriação e subjectivização dos espaços físicos e mentais que nos rodeiam. Com os muitos filmes que compõem as diferentes secções competitivas dos festivais das duas cidades, reforçados por um conjunto de sessões especiais e de conversas, debates e performances, reivindicamos o toque e o olhar, a entrega e o deslumbramento, e um conjunto de experiências que nos atravessem o corpo e que enaltecem as nossas complexidades.


Queer Lisboa 24


O Festival revelou hoje que o Filme de Abertura do Queer Lisboa 24 será Los Fuertes, de Omar Zúñiga, a exibir na noite de 18 de setembro. Estreado no Festival Internacional de Cinema de Valdivia em 2019, o filme, que desenvolve uma narrativa já anteriormente explorada pelo realizador na curta-metragem San Cristóbal, vencedora do Teddy Award na Berlinale de 2015, fala-nos do encontro e da paixão entre Lucas e o contramestre Antonio, numa aldeia remota no sul do Chile onde Lucas se encontra a visitar a sua irmã. À medida que a relação entre os dois homens floresce, vamos conhecendo as motivações e desejos de cada um deles. Será na divergência do futuro que cada um traçou para si mesmo, profundamente marcados pela relação com a família e com o país natal, que se constrói este filme onde o amadurecimento da passagem à idade adulta e a defesa da liberdade e independência pessoais, são os principais vetores de força. 

Noutro quadrante, tanto do universo queer como cinemático, ainda que partilhando princípios de resistência e liberdade semelhantes com Los Fuertes, encontramos o Filme de Encerramento do Festival, Petite Fille (2020), de Sébastien Lifshitz. Estreado na 70ª edição da Berlinale, em 2020, festival onde Lifshitz fora já anteriormente vencedor de dois Prémios Teddy, o documentário acompanha a petite fille do título, Sasha, e a sua incansável família, irredutível na luta pela afirmação da identidade da filha e a sua aceitação nas várias dimensões da esfera social e, sobretudo, no meio escolar. Confrontados com um constante ambiente hostil, cabe aos pais de Sasha lutar pela sua liberdade, enquanto a menina vive confortável na sua pele, por vezes sem mesmo entender os motivos pelos quais é tão complicado deixarem-na apenas ser quem é. 

O Júri da Competição de Longas-Metragens é composto pelo artista plástico e poeta André Tecedeiro, a programadora de cinema Joana Ascenção e o ator e realizador Miguel Nunes. Como é habitual, um total de oito filmes fazem parte desta competição: Em El Cazador, de Marco Berger, estreado na mais recente edição do Festival Internacional de Cinema de Roterdão, Ezequiel, um adolescente em pleno despertar sexual, vê-se preso numa armadilha que o força a escolher entre ver exposta a sua sexualidade ou colaborar com um esquema de pedofilia; vencedor do Queer Lion no Festival de Cinema de Veneza em 2019, El Príncipe, de Sebastián Muñoz, transporta-nos ao Chile dos anos 70 onde encontramos Jaime que, depois de sem razão aparente assassinar um amigo e ser enviado para a prisão, encontra proteção e afeto na relação com El Potro, um prisioneiro mais velho, líder de um dos grupos que disputam o poder dentro do estabelecimento prisional; da argentina Clarisa Navas chega-nos Las Mil y Una, que teve estreia mundial na Berlinale de 2020 e nos convida a entrar na relação de Iris e Renata que, com o seu grupo de amigos, vão formar uma resistência queer aos preconceitos e boatos que envolvem a presença de Renata no bairro marginalizado em que vivem; com um largo percurso em festivais internacionais segue-se Lingua Franca, de Isabel Sandoval, onde seguimos Olivia, uma mulher transgénero filipina que trabalha como cuidadora de uma idosa em Brooklyn, e procura desesperadamente alterar a sua situação legal no país através de um casamento arranjado para obter o visto de que precisa; em Make Up, longa-metragem de estreia de Claire Oakley, somos conduzidos a um prosaico parque de roulottes na Cornualha onde, na época baixa, Ruth chega para visitar o seu namorado. Quando o mundano começa a dar lugar ao fantástico e Ruth conhece a enigmática Jade, a sua perceção da realidade altera-se irremediavelmente; Neubau, de Johannes Maria Schmit, leva-nos à Alemanha para além dos grandes centros urbanos e ao encontro de Markus, um jovem homem transgénero que cuida das suas avós, enquanto anseia pela mudança para, precisamente, a grande cidade onde espera encontrar uma família queer escolhida que colmate a sua solidão e seja também destinatária do seu amor. O ator e argumentista de Neubau, Tucké Royale, estará presente no Queer Lisboa para apresentar o filme; no filme sensação da Berlinale de 2020, No Hard Feelings, de Faraz Shariat, vencedor do prémio Teddy de melhor longa-metragem, descobrimos o que acontece a Parvis, jovem alemão de ascendência iraniana que divide o seu quotidiano entre raves, engates no Grindr e cultura pop, quando conhece os irmãos Banafshe e Amon num centro de refugiados onde foi forçado a fazer trabalho comunitário, e a atração cresce entre Parvis e Amon; por fim chegamos à pequena cidade do estado de Goiás, no Brasil, onde decorre Vento Seco, de Daniel Nolasco. Presente na mais recente edição da Berlinale, o filme segue Sandro, um homem gay que passa os dias entre jogos de futebol com os amigos e o trabalho numa fábrica de fertilizantes, e vê a sua rotina destabilizada com a chegada de Maicon, um novo e misterioso colega por quem sente uma atração irresistível. A competição atribui um prémio monetário no valor de 1.000€ ao melhor filme, oferecido pela Variações - Associação de Comércio e Turismo LGBTI. 

O Júri da Competição de Documentários é este ano composto pela realizadora e antropóloga Catarina Alves Costa, pela apresentadora da RTP Margarida Mercês de Mello, e pelo ator e ativista Paulo Pascoal. Fazem parte da competição oito títulos: All We’ve Got, de Alexis Clements, olha para a enorme quantidade de locais onde as mulheres queer encontravam um sentido de pertença e um espaço físico de encontro nos Estados Unidos da América, que desde 2010 foram encerrando. Entre livrarias, bares e espaços comunitários, o filme atenta na importância fundamental que estes espaços têm para as mulheres na comunidade LGBTQI+; La Casa dell’Amore, de Luca Ferri, estreado na Berlinale de 2020, faz um retrato de Bianca, uma mulher transgénero que vive em Milão e é trabalhadora do sexo, e que mantém uma relação com Natasha, também ela uma mulher transgénero que vive no Brasil; em Miserere, de Francisco Ríos Flores, somos envolvidos pelo calor sufocante de Buenos Aires, e na praça que dá o nome ao filme observamos um grupo de rapazes trabalhadores do sexo enquanto ouvimos as suas reflexões, atiradas contra a ensurdecedora agitação do espaço que os envolve; em Queer Genius, de Chet Catherine Pancake, são examinadas as vidas criativas de artistas queer não brancas e de mulheres artistas LGBTQI+, enquanto lhes é colocada a questão “o que é o génio?”, resultando de cada umx delxs, de Barbara Hammer a Rasheedah Phillips, uma perspetiva única sobre novas maneiras de pensar o conceito; em The Art of Fallism, Aslaug Aarsæther e Gunnbjørg Gunnarsdóttir acompanham algumas das vozes do movimento de descolonização iniciado em 2015 na África do Sul com o derrubar da estátua de Cecil Rhodes na Cidade do Cabo, enquanto esta servia uma memória que não a dos corpos e realidades que constituem a sua população; em Toutes les Vies de Kojin, de Diako Yazdani embarcamos numa viagem pelas contradições do povo curdo face às questões da sua comunidade LBGTQI+ que, na procura pela liberdade proclamada por este povo, encontra obstáculos devido à força de uma religião que não se mostra recetível a reconhecer a diferença; depois de uma passagem pela Berlinale de 2020, em Vil, Má, Gustavo Vinagre traz para a ribalta a rainha da literatura sadomasoquista brasileira Wilma Azevedo que, sem medo ou pudor, conta a história da sua vida, recordando os detalhes mais deliciosos recheados de erotismo; chegamos, por fim, ao urgente Welcome to Chechnya, de David France, que acompanha a luta pelos direitos humanos de corajosos ativistas na Chechénia onde, perante a brutal ameaça à existência das pessoas LGBTQI+, este grupo atua na clandestinidade com o objetivo de resgatar vítimas, fornecendo-lhes casas seguras ou acesso a um visto que lhes permita escapar em segurança. O filme tem somado prémios em vários festivais de cinema, incluindo um Teddy Award na mais recente Berlinale. O prémio de melhor documentário no valor de 3.000€ é atribuído pela RTP2, pela compra dos direitos de exibição do filme. 

O Júri da Competição Queer Art, composto pelo curador Hugo Dinis, pelo diretor de fotografia Sérgio Braz d’Almeida e pela coreógrafa e dramaturga Sónia Baptista, terá a seu cargo premiar um dos oito filmes que compõem este programa, dedicado a linguagens mais experimentais: Ask Any Buddy, de Evan Purchell, que usa fragmentos de mais de 125 longas-metragens dos anos 1968-1986, é uma lição na técnica de montagem e sobre a importância das imagens de arquivo, além de ser também uma homenagem à pornografia gay como elemento crucial na construção de identidades na década de 70; em Comets, de Tamar Shavgulidze, entramos letargicamente no contido universo de uma casa de campo na Geórgia para logo de seguida, com o aparecimento de uma figura do passado, mergulharmos nas recordações da relação entre Nana e Irina, amigas de infância que, confrontadas com os sentimentos que nutriam uma pela outra, escolheram caminhos muito diversos; Hiding in the Lights, da artista visual Katrina Daschner, cujo trabalho já antes exibimos no Queer Lisboa, é uma celebração do corpo da mulher e das expressões performativas, em que se encenam estruturas queer de desejo, e que, nas oito partes em que é dividido, apresenta uma jornada pelas origens do cinema como local de prazer visual encenado; em Judy versus Capitalism, Mike Hoolboom, que, tal como Daschner, regressa à programação do Queer Lisboa, recorre ao super8 para falar do feminismo desde os anos 70, e ao mesmo tempo fazer um comovente retrato sobre saúde mental, apresentando-nos Judy Rebick, uma ativista canadiana que teve um papel fulcral na garantia dos direitos das mulheres sobre o seu próprio corpo; Les Nuits d’Allonzo, de Antoine Granier, mostra-nos como dois rapazes que se conhecem à beira de uma estrada, embarcam juntos numa aventura que de real ou imaginada, vivida ou relatada, tem uma fronteira tão ténue como aquela que divide o passado do presente e se inscreve como um eco na paisagem vulcânica de Auvergne, local das suas deambulações; Padrone Dove Sei, de Michele Schirinzi, foca o tema da masturbação e convida-nos a um mergulho hipnótico numa sublime beleza estética e paisagem sonora que nos transportam a um universo existencial absolutamente impactante; em Santos, de Alejo Fraile, uma família submersa no silêncio, vive os seus dias de declínio quando, durante um quente mês de dezembro, dois irmãos, María e Santiago, são seduzidos pelo mesmo homem e vivem um doloroso despertar sexual no seio do universo cristão que os rodeia; El Viaje de Monalisa, de Nicole Costa, vai ao encontro de Iván Ojeda, um promissor ator chileno que em 1995, após uma residência artística em Nova Iorque, decide ficar ilegalmente no país para se reinventar como Monalisa e ganhar a vida como trabalhadora do sexo. A realizadora Nicole Costa estará em Lisboa durante o festival para apresentar o seu filme.    

A Competição de Curtas-Metragens tem este ano como Júri o realizador José Magro, o ator Ricardo Barbosa e a artista e pesquisadora Rita Natálio. Ao todo, 21 filmes compõem a competição, onde se destacam obras como Quebramar, de Cris Lyra, com um importante percurso em festivais internacionais de cinema, onde um grupo de jovens lésbicas encontra um refúgio físico e emocional para os seus corpos e afetos numa praia longe do tumulto urbano de São Paulo; Stray Dogs Come Out at Night, de Hamza Bangash, que nos leva ao Paquistão para nos apresentar, com delicadeza e comicidade, um jovem migrante trabalhador do sexo que anseia por um momentâneo escape do seu quotidiano e da sua condição de seropositivo, numa praia em Karachi; Babydyke, de Tone Ottilie, recentemente premiado no Outfest, segue Frede, uma jovem lésbica, que decide ir a uma festa techno queer na tentativa de superar um desgosto amoroso; da África do Sul, Cause of Death, de Jyoti Mistry, em que se descreve e analisa, através de imagens de arquivo, animação e poesia, a violência estrutural e recorrente nos corpos das mulheres; em Aline, de Simon Guélat, vamos a uma estância de esqui onde Alban escapa todas as noite para se encontrar com um rapaz que tem o mesmo nome que o herói do romance que Alban avidamente lê, Julien; ou The Institute, de Alexander Glandien, documentário de animação que trata a importância da biodiversidade para a identidade cultural e independência económica da América Latina, através de uma conversa com Brigitte Baptiste, ativista transgénero e diretora do Instituto Humbolt. Teremos novamente em força a presença da cinematografia brasileira nesta competição, que para além de Quebramar traz também Carne, de Camila Kater, Minha História é Outra, de Mariana Campos e o explosivo Swinguerra, de Barbara Wagner e Benjamin de Burca. E ainda cineastas que regressam à programação de curtas do festival, como o canadiano Daniel McIntyre com a sua mais recente obra, Mach Stem, e o brasileiro radicado nos Países Baixos Bernardo Zanotta com In His Bold Gaze.

O mesmo júri avaliará a Competição “In My Shorts” de filmes de escolas de cinema europeias. Dez títulos constituem esta competição, vindos de escolas tão diversas como o Doc Nomads, o Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma, a HEAD em Genebra, a francesa Le Fresnoy, a FAMU, em Praga, ou a berlinense DFFB. Destaque para a presença do realizador Olivier Cheval no festival para apresentar o seu filme Rose Minitel, e de Simone Bozzelli para apresentar J’ador, assim como para o filme An Act of Afection, de Viet Vu, realizador que venceu ex-aequo o prémio de Melhor Curta-Metragem na edição de 2019. 


A já anteriormente anunciada secção Queer Focus, revela agora também o seu programa completo. Cruising, Skin, Memory, Sex, Bodies e Play foram as palavras escolhidas como mote, evocando elementos e ações que a atual pandemia momentaneamente subtraiu do nosso quotidiano, mas também reafirmando a necessidade de reflexão e de se estabelecerem ligações entre o contexto atual e aspetos da história recente da comunidade LGBTQI+. 

No programa Cruising apresentamos as curtas-metragens polacas Afterimages (2018), de Karol Radziszewski, e Bodies without Bodies in Outer Space (2019), de Rafał Morusiewicz; Fuck Tree(2017), de Liz Rosenfeld; GUO4 (2019), de Peter Strickland, realizador dos aclamados The Duke of Burgundy e In Fabric; e finalmente Sodom (1989), filme experimental de culto do recém falecido Luther Price. 

Memory traz a Lisboa duas curtas-metragens da realizadora experimental Jennifer Reeves, Monsters in the Closet (1993) e Chronic (1996), tateando temas que atravessam toda a obra da artista, como o trauma, a saúde mental e a opressão social, enquanto o programa Sex será a Hard Night do Queer Lisboa 24, exibindo em toda a sua glória o recém-restaurado Équation à un Inconnu(1980), de Dietrich de Velsa, talvez um dos mais cuidadosamente estilizados filmes pornográficos alguma vez feitos.

O Queer Focus continua com a longa-metragem documental Mr. Leather (2019), de Daniel Nolasco, que constitui o programa Skin e lança um olhar sobre a comunidade gay fetiche de São Paulo no contexto da disputa pelo título de Mr. Leather Brasil e, sob o signo Bodies, chegamos a Un Uomo Deve Essere Forte (2019), de Elsi Perino e Ilaria Ciavattini, a jornada de Jack, um homem transgénero que dá início ao seu processo de transição nos arredores de uma pequena cidade do norte de Itália, uma sociedade hipermasculinizada onde Jack começa também a questionar o que é ser um homem e que tipo de homem quer ele ser. 

Por último apresentamos Play que com (W/Hole) (2019), de Mahx Capacity, nos convida a observar o processo de criação da nova peça do coletivo porno queer/feminista AORTA, em colaboração com a companhia A.O. Movement Collective, em que se celebra o prazer queer como arma de resistência.

Cada um destes programas, à exceção da Hard Night, inclui, para além dos filmes mencionados, momentos de conversa, debate ou performance ao vivo que, no contexto do tão longo afastamento físico vivido nos últimos meses, foi pensado pelo Queer Lisboa com o objetivo de reclamar a presença, e com um mínimo de mediação virtual. De entre os vários convidados que se juntam ao Festival para conversar ou refletir sobre cada um destes programas e os seus temas, estarão o ativista e poeta André Tecedeiro, xs performers Nadia Granados e David Loira, (este último com a performance presencial Blondi) a artista e antropóloga Fernanda Eugénio, o diretor de fotografia Sérgio Braz d’Almeida, a representante da APAV - Associação do Apoio à Vítima Joana Menezes e o realizador, fotógrafo e ativista polaco Karol Radzisewski. 

Do programa desta edição do Queer Lisboa faz ainda parte a exposição Frágil do fotógrafo Lisboeta Italiano que decorrerá no Espaço Santa Catarina. Um trabalho sobre fragilidade e solidão que se foca também na frustração que advém do desejo do toque entre sujeitos que não se conseguem encontrar. 

Relembramos também as já anteriormente anunciadas Sessões Especiais deste Queer Lisboa 24. Na Esplanada da Cinemateca Portuguesa teremos a exibição de Race d’Ep! (1979), a lendária, mas pouco vista, docuficção sobre o ativismo francês, de Lionel Soukaz e Guy Hocquenghem, uma sessão que acontece em diálogo com a nova exposição dos artistas portugueses João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira que estará patente na Stolen Books em Lisboa. No Cinema São Jorge apresentamos a sessão Liberdade, Participação e Ativismo, em parceria com o GAT - Grupo de Ativistas em Tratamentos e o CheckpointLX, e integrada na iniciativa “Lisboa Sem Sida – Fast-Track City”, que consiste num debate precedido pela exibição da curta-metragem Thrive (2019), de Jamie di Spirito. O debate, moderado por Sofia Crisóstomo e Luís Veríssimo, terá como convidadxs Maria José Campos, Paolo Gorgoni, Luma Andrade, Sérgio Vitorino e Pedro Silvério Marques.


Queer Porto 6


Um dos principais destaques do Queer Porto 6 vai para o Filme de Abertura do Festival que será Si C’Était de L’Amour (2020), do realizador austríaco Patric Chiha. Com estreia mundial na passada edição da Berlinale, onde recebeu o Prémio Teddy para melhor documentário, esta é uma obra que acompanha quinze jovens bailarinxs de diferentes origens que se encontram em digressão com Crowd, um espetáculo de dança coreografado por Gisèle Vienne, onde se explora a cena rave dos anos noventa. O filme observa as relações íntimas que se vão desenvolvendo entre xs performers e o impacto que estas têm na própria peça ao longo da digressão, num processo em que o palco contamina a vida real ou talvez o seu contrário. 

Como Filme de Encerramento o Festival escolheu Le Milieu de L’Horizon, de Delphine Lehericey, uma estória situada durante o verão seco de 1976, na Suíça rural, em que assistimos, através do olhar de Gus, uma criança à beira da adolescência, ao desmoronar da uma família tradicional que vive do que produz na sua pequena quinta. A cisão acontece quando a sua mãe (interpretada pela atriz Laetitia Casta) se apaixona por uma nova amiga, a feminista Cécile, questionando assim o papel que vinha desempenhando na família até então. O filme teve estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián em 2019, onde ganhou o Prémio Greenpeace. 

O Júri da Competição Oficial é este ano constituído pela jornalista Amanda Ribeiro, pelo diretor de programação de artes performativas da RTP2 Daniel Gorjão, e pelo cofundador e diretor artístico do Teatro Plástico Francisco Alves. Um total de oito longas-metragens de ficção ou documentais integram a competição. Em A Perfectly Normal Family, de Malou Reyman, que passou este ano pelo Festival Internacional de Cinema de Roterdão, começamos por assistir ao quotidiano da família de Emma, uma família “normal” que encontramos momentos antes de o seu pai, Thomas, revelar que é afinal Agnete, assumindo ser transgénero. Segue-se a luta de Agnete e Emma para manterem o que as une, enquanto aceitam que tudo mudou; com L’Acrobate, Rodrigue Jean volta ao Queer Porto conduzindo-nos ao invernoso centro de Montreal, cidade em permanente expansão urbanística e aqui profundamente indiferente aos seus habitantes, onde Christophe inicia uma intensa relação com um acrobata russo, explorando o seu desejo sem restrições enquanto tenta consolar a sua solidão; no documentário Always Amber, de Lia Hietala e Hannah Reinikainen Bergenman, Amber, de 17 anos, e x melhor amigx Sebastian, recusam-se a que a sociedade lhes ponha uma etiqueta de género, vivendo num mundo aberto e carinhoso onde tudo parece possível até ao momento em que Amber se apaixona por Charlie e o seu utópico mundo é abalado; Deux, de Filippo Meneghetti, põe o foco no amor entre duas mulheres idosas que há décadas vivem o seu idílio amoroso na intimidade dos seus apartamentos vizinhos, sem que ninguém suspeite da sua relação, até que a filha de uma delas descobre a verdade e lhes perturba a paz; Dopamina, de Natalia Imery Almario, examina de forma terna mas acutilante as contradições na família da realizadora, cujos pais ativistas de esquerda, que na Colômbia dos anos 70 e 80 lutaram pela liberdade e igualdade, não aceitaram o facto de a sua filha ser lésbica quando há 10 anos atrás ela se assumiu; em Hombres de Piel Dura, de José Celestino Campusano, acompanhamos Ariel, um rapaz que na puberdade foi abusado por um padre católico que continua a aproveitar-se da sua inocência, e que tenta agora tomar decisões que terminem esse ciclo da sua vida, e caminhar na direção do verdadeiro amor; Para Onde Voam as Feiticeiras, de Eliane Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral, segue um grupo de artistas LGBTQI+ que, tomando as ruas de São Paulo como palco da sua luta, desconstrói com humor todos os conceitos pré-estabelecidos sobre identidades, numa polifonia entre ficção e realidade; por fim, com Rescue the Fire, de Jasco Viefhues, recordamos Jürgen Baldiga, um fotógrafo e artista que na década de 1990 batalha contra o VIH enquanto à sua volta tudo o que conhece e ama se vai extinguindo e desaparecendo. Baldiga torna-se então cronista do seu tempo. O prémio de Melhor Filme, no valor de 3.000€, é atribuído pela RTP2 pela compra dos direitos de exibição.

A par da Competição Oficial, o festival terá também a sua habitual Competição “In My Shorts”, constituída por filmes de escola portugueses. Este ano são quatro as escolas representadas no programa In My Shorts do Queer Porto. Da Escola Superior de Teatro e Cinema chega o silencioso e minimal À Tarde, sob o Sol, de Gonçalo Pina, enquanto do Kino-Doc recebemos o esfuziante Caravagyo, de Ana Manana e Joana Lourenço. A Escola Artística de Soares dos Reis estará representada com três obras: a jornada surrealista de autoconhecimento A Dança do Narciso Inseguro, de Ana Matos; o documentário onde se partilham memórias De A a D, de Maria João Paiva; e Somewhere in Outer Space this Might Be Happening Somehow, a curta experimental, imbuída da avant-garde dos anos 60 e 70, de Paulo Malafaya. Também explorando territórios semelhantes ao filme de Malafaya (mas em tom muito diverso), temos por último, da Ar.Co, Test Room, de Pedro Antunes. 

Também no Queer Porto haverá este ano uma secção Queer Focus, aqui dedicada exclusivamente ao tema Cruising e dividida em três sessões. Na primeira sessão poderemos encontrar a segunda exibição (depois da passagem pelo Queer Lisboa 24) de Afterimages (2018), de Karol Radziszewski, e Bodies without Bodies in Outer Space (2019), de Rafał Morusiewicz, aos quais se acrescenta Kisieland (2012), também de Radziszewski. Com uma sessão constituída exclusivamente por filmes polacos, para além do cruising como tema central, reflete-se também o contexto das vidas da população LGBTI+ na Polónia atual, acossadas pelas violentas políticas e discursos governamentais naquele país. O realizador, fotógrafo, ativista e editor polaco Karol Radziszewski estará presente no Porto para uma conversa sobre estes temas.

A segunda sessão traz-nos Et in Arcadia Ego (2018), de Sam Ashby, e Tearoom (1962-2007), de William E. Jones. O primeiro, uma curta-metragem filmada em Super8, observa antigas casas de banho públicas que funcionaram como locais de engate em Londres, criando uma elegia a esses espaços queer perdidos e uma peregrinação às suas ruínas, enquanto Tearoom, focando-se no mesmo tipo de espaço de cruising, a casa de banho pública, é um documentário que faz uso de gravações feitas secretamente num desses espaços, pelo Departamento de Polícia de Mansfield, no Ohio, EUA, em 1962, de forma a obter provas posteriormente usadas em processos de acusação por sodomia. 


Por fim, a terceira sessão do Queer Focus do Queer Porto 6 é programada pelo artista britânico, designer gráfico e editor Sam Ashby, que escolheu trazer Museum, de Arnoud Holleman, uma coreografia de olhares entre pessoas que se entregam ao cruising num museu fictício; Umbrales, de Marie Louise Alemann, filme de 1980 rodado em Paris e Buenos Aires durante a última ditadura da Argentina, e que oferece um raro olhar sobre a experiência queer num regime repressivo; Underground, do padrinho do cinema porno gay Peter de Rome, onde uma viagem no metro de Nova Iorque acaba num inusitado encontro sexual; e liz/james/stillholes, de Liz Rosenfeld, uma exploração de glory holes de cruising, feminismo e frustração queer no geral. Sam Ashby e Liz Rosenfeld estarão no Porto para uma conversa que se seguirá a esta sessão.

Junta-se ainda ao programa uma Sessão Especial onde exibiremos Days, a aclamada mais recente obra de Tsai Ming-liang, vencedora do Prémio Especial do Júri nos Teddy Awards da mais recente Berlinale, onde Kang, interpretado pelo colaborador habitual Lee Kang-sheng, se entrega a uma vida de deambulação, enquanto tenta lidar com a dor da doença e do tratamento a que se submete. Quando Kang conhece Nom, os dois vão encontrar um no outro o consolo de que precisavam, antes de voltarem a separar-se. 

Por fim, ainda espaço para o evento A Importância de Acreditar no Desconhecido, do Colectivo Prometeu, que estará nos Maus Hábitos e também espalhado por vários espaços da cidade do Porto. Este é um coletivo que tem como missão promover um encontro anual entre a comunidade e criativos de diferentes áreas de expressão artística, para se conhecerem e se expressarem à volta de um tema. Este ano o tema será “a importância de acreditar no desconhecido” e reúne obras de mais de 30 artistas. Este ano, a equipa de programação dos Festivais Queer Lisboa e Queer Porto teve em consideração mais de 1000 filmes, 497 deles recebidos como submissões, um número recorde para o festival.


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