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Sem Fundos a Produção Nacional Encontra uma Forma...A História de Inimigo Desconhecido e de Tantas Outras Grandes Produções indie Nacionais

Sem Fundos a Produção Nacional Encontra uma Forma...A História de Inimigo Desconhecido e de Tantas Outras Grandes Produções indie Nacionais

Muito se fala sobre o estado da produção cinematográfica nacional. O cinema português está bem vivo e tem futuro? Ou vive apenas do seu passado, dando apenas espaço a alguns nomes e projectos? É claro que acredito no potencial e no futuro, mas há que dizer que, comparativamente com outros mercados, Portugal tem, por muito que se custe dizer, uma capacidade de produção cinematográfica algo bipolar e com graves lacunas. 

A aposta no Cinema é forte, pelo menos de um ponto de vista académico. Existem, por exemplo, várias instituições de ensino com cursos e formações dedicados ao cinema e áreas similares que, todos os anos, lançam para o mercado nacional e internacional vários talentos nas mais variadas funções. Também a nível de montras para as obras nacionais pode-se dizer que o nosso país está também muito bem servido. São vários os festivais de cinema, ciclos e cineclubes existentes e que são verdadeiramente incansáveis na promoção de autores nacionais e de obras nacionais em variadíssimos formatos e estilos, muitos deles até apoiam economicamente alguns criadores. Portugal tem, também, uma Academia de Cinema e um Instituto de Cinema, para além da Cinemateca e de outras organizações que privilegiam o Cinema e o Entretenimento. Porque é que então se considera que Portugal tem uma capacidade de produção cinematográfica abaixo do esperado?

Tendo em conta todas as ferramentas e todas as organizações dedicadas ao cinema, um cidadão português apreciador de cinema não pode deixar de pensar que a produção nacional deveria ter uma maior expressão e dimensão. Se olharmos, hoje em dia, para aquilo a que realmente corresponde a chamada produção nacional verificamos que cerca de 90% dos projetos nacionais que, todos os anos, são produzidos e promovidos no nosso país e além fronteiras são curtas-metragens. São um formato nobre e é inegável que anualmente temos o prazer de ver curtas portuguesas de grande qualidade que demonstram o grande potencial dos seus criadores. O cinema português é, aliás, pródigo em conquistar prémios pelas suas curtas-metragens além fronteiras, basta recordar o enorme sucesso que "Balada de Um Batráquio" (2016), de Leonor Telles, teve no Festival de Berlim ou, mais recentemente, o grande  sucesso que curta de animação "Tio Tomás, A Contabilidade dos Dias", de Regina Pessoa, teve nos Estados Unidos, onde foi aclamada, por exemplo, nos Prémios Annie, os Óscares da Animação. 

O problema não está nas curtas, mas sim na razão que ajuda a explicar a prevalência deste género na produção nacional. Embora as curtas-metragens sejam, como se sabe, o orgulho do cinema nacional são também o sintoma do grande problema da produção nacional: o financiamento. Não há falta de criatividade e talento, mas há falta de dinheiro. Mesmo quem pretende criar uma curta. que acaba por ser por norma um formato mais económico que uma longa-metragem, acaba por enfrentar dificuldade em encontrar financiamento e, muitas vezes, são os próprios criadores a terem que financiar o seu projeto. Se o problema de financiamento é grave no campo das curtas, então o que dizer do financiamento no campo das mais escassas longas metragens. 

Em abono da verdade, hoje em dia, há mais possibilidade de financiamento e mais apoios à produção de cinema, mas Portugal continua, ainda assim, bem atrás da média europeia e perde claramente em comparação com mercados que deveriam ser nossos concorrentes diretos. Até mercados emergentes como a Ucrânia, Polónia ou Bielorrússia já começam a ter um melhor e maior plano de apoio a produções nacionais. E por melhor não se quer dizer necessariamente mais dinheiro, já que o que estes planos não têm em fundos compensam com planos mais consolidados, transparentes e claros no que à aposta no cinema deve ser.  

Nos tempos pós-crise económica assistiu-se a uma quase desertificação de longas-metragens nacionais e, as que foram sendo lançadas, nem sempre acompanharam as expectativas. Nos anos de retoma o cinema português parece ter recuperado e começavam a surgir mais longas metragens de variadíssimos autores mas, agora com a eminência de nova crise, existe o grande receio que a produção nacional reverta a sua limitada expansão e volte a cair na escuridão. 

A ascensão do streaming, a ajuda da televisão e as tentativas do ICA têm ajudado a mitigar a grande crise que se sente no sector, mas corre ainda no ar o sentimento que as oportunidades não são iguais para todos, que o sistema está viciado e que não basta o talento para singrar nesta indústria. 

Não é de estranhar, por isso, que vários criadores e entusiastas de cinema estejam a procurar novas formas de dar visibilidade ao seu trabalho e de entrar numa indústria que, claramente, parece precisar de um abanão. Ao longo dos anos entramos em contacto e temos apoiado várias produtoras independentes (umas maiores que outras) que têm lutado contra a maré e até contra o poder estabelecido para tentarem ser auto-suficientes e para tentarem criar novos produtos. A juntar às histórias dos nossos amigos e parceiros Caracol,  Ukbar Filmes, Zero em Comportamento, Agência Curtas Metragens, Terratreme, Anexo 82, Filmógrafo, Station, Fado FilmesAté ao fim do MundoLanterna de Pedra,  JumpCut, Lightbox, Vende-se Filmes e muitas outras produtoras de criadores a título próprio que fomos entrevistando e que têm tentado singrar temos hoje que juntar a história da Constantino Filmes.


Sem Fundos a Produção Nacional Encontra uma Forma...A História de Inimigo Desconhecido e de Tantas Outras Grandes Produções indie Nacionais


Foi há poucos dias que descobrimos a Unknown World Pictures e a Constantino Filmes, dois estúdios independentes fundados por Rui Constantino, cuja paixão pelo cinema e pela criação de projetos independentes levou-o a criar estas duas entidades e, com elas, projetos curiosos. Os estúdios já têm várias produções no currículo, mas um dos grandes frutos, até agora, do seu trabalho é o filme de ação/ sci-fi "Inimigo Desconhecido" que, acima de tudo, prova que é possível criar longas metragens com poucos fundos e, com isso, viver o sonho. 

A ser trabalhado desde 2007, "Inimigo Desconhecido" foi lançado este Verão em Portugal em 4K, Blu-ray e DVD e é um hino à força de vontade e criatividade de Rui Constantino que, se virmos bem as coisas, não é diferente dos milhares de criadores nacionais que investem no seu próprio sonho e tentam criar algo do qual se orgulhem.

Quando vejo "Inimigo Desconhecido", não vejo necessariamente um produto com várias falências técnicas e defeitos narrativos (que as tem). Está longe ser ser um filme acima da média é certo, mas a ideologia do projeto que me cativa por ser algo que, claramente sem grandes fundos, conseguiu entrar nos mercados que entrou e mostra potencial para algo futuro. É digamos um B-Movie português bastante curioso.

Quando descubro histórias de produção como a de "Inimigo Desconhecido", do célebre "Ninja das Caldas" ou de obras similares lembro-me sempre da história de sucesso de "One Cut of the Dead", o célebre filme de zombies japonês que com um orçamento minúsculo tornou-se campeão de bilheteira no Japão e foi exibido em todo o mundo, incluindo já este ano no Porto. Esta obra nipónica, como esta de Rui Constantino ou muitas outras, permitem sonhar, mas acima de tudo permitem conquistar sonhos e traçar novos objetivos desafiantes para o futuro. Sabiam, por exemplo, que o realizador de  "One Cut of the Dead" é, hoje em dia, um cineasta com novas perspectivas no Japão, tendo já realizado dois filmes com um maior orçamento? 

É claro que Rui Constantino e a sua equipa têm muito por onde crescer e melhorar mas, como tantos outros criadores nacionais, arriscou e poderá vir a colher os frutos no futuro. A grande mensagem que espero que este texto ajude a passar, para além de dar a conhecer o trabalho de grandes autores independentes nacionais que merecem sonhar, é que Portugal pode ter poucas hipóteses, pode ter planos fracos de apoio ao cinema e pode até dar sempre o dinheiro aos mesmos, mas isso não pode servir de desculpa para não apostar no cinema. Hoje em dia é mais fácil do que nunca promover e produzir um filme e há centenas de bons exemplos espalhados por Portugal e pelo Mundo. Se tem talento e ambição então aposte na sua arte e, quanto mais não seja, o Portal Cinema cá estará para lhe dar visibilidade.

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