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Crítica - Cars 2 (2011)

Realizado por John Lasseter e Brad Lewis
Com Vozes de Owen Wilson, Larry the Cable Guy, Michael Caine, Emily Mortime

Aquilo que sempre diferenciou a Pixar dos outros estúdios de animação norte-americanos foi a forma como a empresa de John Lasseter e companhia fazia questão de privilegiar a história dos seus filmes. Acima de qualquer outra coisa (receitas de box-office, qualidade da animação digital, etc.), aquilo que mais importava era brindar o espectador com uma narrativa sólida, consistente e verosímil. Isto fez com que a Pixar se destacasse facilmente no mercado, ganhando instantaneamente o respeito e a admiração de todos os cinéfilos. Ao construir histórias que agradavam tanto a crianças como a adultos, a Pixar tornou-se quase uma empresa lendária, aparentemente imune aos efeitos do bloqueio criativo e das consequentes críticas negativas. Ao longo dos seus 25 anos de vida, alguns filmes receberam mais aclamação do que outros. Mas o que era comummente reconhecido é que todos eles se encontravam num patamar de qualidade muito acima da média. Pois bem, “Cars 2” vem deitar um pouco abaixo esta História gloriosa de sucesso, pondo a nu a ideia de que John Lasseter e companhia não são, afinal de contas, nenhuns deuses do Olimpo cinematográfico. Errando como qualquer humano erra.


Pois é. Infelizmente, “Cars 2” é o primeiro filme da Pixar que nos deixa com um travo verdadeiramente amargo na boca. De certa forma, já se esperava que assim fosse. Pois a primeira aventura de Lightning McQueen e companhia já tinha sido dos filmes menos convincentes da empresa. E esta sequela apenas vem comprovar o facto de que as desventuras dos carros falantes estão a milhas de distância da profundidade dramática e equilíbrio narrativo que já nos habituámos a exigir da Pixar. Ao contrário do primeiro filme, Mater (Larry the Cable Guy) é (estranhamente) a personagem que assume o principal protagonismo, deixando Lightning McQueen (Owen Wilson) e Sally (Bonnie Hunt) para segundo plano. Enquanto McQueen disputa corridas pelos quatro cantos do mundo, Mater vê-se envolvido numa intriga de espionagem, onde, com a ajuda de Finn McMissile (Michael Caine) e Holley Shiftwell (Emily Mortimer), terá de desvendar os segredos de uma máfia secreta e salvar o mundo de uma espécie de ataque terrorista. Convincente? Nem por isso. E é por isso mesmo que “Cars 2” falha redondamente.
Este é o primeiro filme da Pixar que fica reduzido a um público-alvo muito particular: o infantil. Claramente, “Cars 2” apresenta uma narrativa muito óbvia, vulgar e vazia de significado, deixando-nos sem aquele toque de profundidade dramática que tanto arrebatava o público adulto. Ao colocar Mater no centro de todas as atenções, a película torna-se divertidíssima, sem dúvida. Mas torna-se também no típico filme da Walt Disney para maiores de quatro anos, onde a mensagem moralista do “atrasadinho salva o dia e conquista a miúda” impera por completo, deixando o público mais adulto a pensar que, para ver isto, mais valia ter ficado em casa a ver os DVD musicais da bebé Lily. Não quero chegar ao ponto de dizer que a Pixar se vendeu ao comercialismo fácil e banal dos desenhos animados para crianças. Mas o que é certo é que esta obra apresenta uma intriga muito infantil, forçada e pouco verosímil. Nada à imagem da Pixar, portanto.


Ao contrário daquilo que se costuma esperar num filme com a chancela destes estúdios, a narrativa é muito fraquinha e só mesmo os aspectos puramente técnicos nos conseguem prender a atenção até ao fim. Pois, pelo menos nesse ponto, “Cars 2” continua a mostrar que a Pixar está num patamar muito superior ao dos concorrentes directos. Visualmente, o filme é espantoso. Não se detecta qualquer tipo de falha na animação digital, o detalhe empregue na construção dos cenários é de nos deixar de boca aberta e o brilho da imagem suplanta tudo aquilo que se possa imaginar. O ritmo das sequências de acção (especialmente nas cenas de corrida e nas cenas em que Finn McMissile enfrenta vários inimigos ao mesmo tempo) é avassalador, demonstrando uma vez mais que os técnicos da Pixar são génios da animação digital e que John Lasseter tem uma imaginação impressionantemente fértil. Mas a narrativa é mesmo muito oca e terrivelmente forçada, deitando tudo o resto a perder.
Depois de chegar a pensar que os membros da Pixar tinham feito um pacto com o Diabo para se manterem sempre nos píncaros da glória cinematográfica, eis que “Cars 2” vem destroçar esse mito por completo. Apesar de tudo, não é um mau filme. Razão pela qual não podemos começar já a escrever o nome da Pixar numa lápide tumular. Mas não há volta a dar ao facto de que deixa muito a desejar, sendo quase certo que só agradará a um público juvenil. E para variar um pouco, muito dificilmente vencerá o Óscar de Melhor Filme de Animação. Se conseguir ser nomeado, já será uma grande vitória para Lasseter e companhia.


Classificação – 3 Estrelas Em 5

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