Crítica - Gone Girl (2014)

Realizado por David Fincher 
Com Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris 

Já não víamos um filme de David Fincher nos cinemas desde o aclamado, sombrio e cativante thriller "The Girl with the Dragon Tattoo" (2011), a adaptação cinematográfica americana do homónimo best seller de Stieg Larsson que puxou, sem dúvida, pelo lado mais negro e imaginativo de Fincher, cuja brilhante carreira tem agora mais um grande filme neste intenso, surpreendente e macabro “Gone Girl”. Baseado no homónimo romance de Gillian Flynn, “Gone Girl” segue a história de Nick Dunne, um marido aparentemente dedicado que, no dia do seu quinto aniversário de casamento, reporta à polícia local que a sua bela esposa, Amy, desapareceu sem deixar qualquer rasto. Este trágico evento surge como o grande catalisador de uma narrativa repleta de imprevisibilidade que, ao longo de aproximadamente duas horas e meia de suspense, leva o espectador por uma jornada negra e completamente surpreendente, onde a complexidade e a perversidade humana são exploradas com um toque de tragédia negra simplesmente sublime que joga, pelo meio, com poderosos dramas conjugais, familiares e policiais que apimentam, com uma perfeita e psicadélica harmonia, um argumento cheio de pujança.
Com “Gone Girl”, Fincher apresenta mais uma excelente produção repleta de destreza, quer a nível técnico, quer a nível narrativo. Na onda dos seus melhores projetos mais negros, como “Fight Club” (1999), “Se7en” (1995) e “The Girl with the Dragon Tattoo" (2011), “Gone Girl” tem bem presente aquele toque singular de Fincher, ou seja, aquele toque de perplexidade e intensidade própria que puxa pelo inerente magnetismo humano de tudo que envolve a história, desde as singularidades das suas personagens, passando pelas características próprias de todo o ambiente que rodeia o filme. É por isso inevitável que o espectador sinta qualquer tipo de atração e interesse pela sua convincente narrativa que, embora apresente certas falências claras, consegue no seu íntimo puxar pela nossa curiosidade e atenção graças ao suspense que nunca esmorece e à inteligência inerte de uma narrativa que, embora brinque perigosamente com o exagero em certas alturas, consegue ainda assim manter, durante grande parte do tempo, uma competente dose de realismo e seriedade que só puxa para cima o filme e o nosso interesse contínuo por ele. 
Em certas alturas, “Gone Girl” é anti-climático e esta é, porventura, a sua principal falha. Os seus últimos vinte minutos, por exemplo, são um bocado cansativos demais e, embora esta parte final faça parte também do livro, acredito que o filme beneficiaria com um final ainda mais incerto, por exemplo, há uma sequência que faz a ponte entre a parte final e a parte do climax da jornada dos protagonistas, onde curiosamente o protagonista masculino fecha uma porta de uma divisão, que, para mim, daria um final mais poderoso, não só porque não arrastaria o espectador por vinte minutos que não têm a pujança do resto do filme, mas também porque permitir-lhe-ia traçar o final que achasse mais conveniente para uma história que, de certa forma, acaba por ter uma conclusão bem amena e não tão chocante como o resto.
Esta pequena falha é acompanhada por outras, que incluem certas impossibilidades e exageros de contexto e coerência, que também obrigam, por vezes, um espectador atento a torcer um pouco o nariz, mas estas fragilidades são disfarçadas por um contexto mais amplo, onde o valor e nível do conjunto dos dramas que vão sendo apresentados no ecrã acabam por compensar tudo o resto. É porque convém não esquecer que “Gone Girl” é, acima de tudo, uma espetáculo de surpresas e twists negros que não obedecem sempre a elevados critérios de exigência, mas que no meio de um guião tão bem montado e interessante acabam por fazer parte de um quadro geral bem emocionante que mantém o espectador preso à expectativa, sendo precisamente isso que se quer num filme deste género.


Na parte técnica, “Gone Girl” também é muito competente. A tão aguardada banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross enquadra-se bem dentro do espírito do filme, mas para mim ficou um pouco aquém das expectativas, especialmente porque esperava algo semelhante ao poder e importância das bandas sonoras de “The Social Network” ou “The Girl with the Dragon Tattoo". É certo que Ross e Reznor têm aqui mais um grande trabalho sonoro, mas também é igualmente certo que, tendo em conta a elevada expectactiva e o teor do guião, esperava-se outro tipo de espetáculo sonoro. Já a fotografia de Jeff Cronenweth é espetacularmente negra e, por isso, perfeita e pormenorizada, podendo o mesmo elogio ser atribuído à edição de Kirk Baxter que ajudou, e muito, a tornar este projeto no filme forte que é, sendo exemplo crasso desta qualidade de edição as sequências que são narradas em flashback por Amy ou as sequências mais macabras e violentas que também envolvem a esposa de Nick.
É necessário também conferir uma merecida menção honrosa ao seu elenco. Um dos seus cabeças de cartaz é Ben Affleck. A sua performance não é propriamente imaculada ou brilhante, mas é produtiva e competente, sendo certo no entanto que lhe falta, por vezes, um certo carisma e sentimento que ajudariam a tornar mais interessante o sempre abananado Nick Dunne, o marido supostamente triste e destroçado que, durante grande parte do filme, assume as principais despesas dramáticas e criminais do filme, já que é sobre ele que gira toda a trama até, claro, aparecer um dos primeiros twists espetaculares do filme que, de certa forma, coloca em evidência outra personagem central que é brilhantemente interpretada por Rosamund Pike, falo claro está da esposa Amy Dunne. Pike é, para mim, a principal estrela de “Gone Girl”. A sua interpretação é imaculada, porque consegue enquadrar-se perfeitamente no tipo e espirito psicológico de Amy, uma personagem extremamente complexa e, graças a isso, plenamente empolgante que, desde que se torna presença assídua no guião, consegue roubar todas as atenções devido ao seu inerente apelo e poder humano. 
Só vendo o filme é que se pode compreender a sua qualidade, porque só vendo todo o filme como um conjunto é que se compreende como é que a sua trama é tão habilmente montada e desconstruída com tantas surpresas e polémicas à mistura, não faltando nenhum espectro moral ou emocional importante por abordar. É claro que existem alguns esquecimentos ou exageros importantes, mas no meio de um guião tão complexo tudo acaba por se esquecer em prol do excelente resultado final que acaba por desaguar num grande menu cinematográfico de boa qualidade que envolve imponentes dramas conjugais, surpreendentes mistérios criminais, fortes polémicas familiares e perspicazes sátiras sociológicas que vão desde o exagero mediático às conceções sociais. David Fincher volta a acertar e convencer, sendo “Gone Girl” um dos filmes a ter em conta neste final de 2014.

Classificação - 4 Estrelas em 5

2 comentários:

  1. De deixar qualquer pessoa que vá sem expectativas nenhumas de queixo caído. Banda sonora é sublime. Rosamund Pike rouba o protagonismo a Ben Affleck( que com este filme pode mudar a opinião negativa que muitas pessoas têm sobre a sua capacidade de representação), e é uma séria candidata ao oscar de melhor actriz. Ainda me dá arrepios os planos em que ela nos mira com aquele olhar distante, mas calculista. Em suma, um grande filme, onde a experiência é elevada ao máximo no cinema.

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  2. Até agora, o 2º melhor filme que vi este ano, logo a seguir a Interstellar. Brilhante Rosamund Pike. Concordo que de facto há cenas que roçam um pouco o exagero, mas tendo em conta que o filme se baseia num livro acaba-se por compreender. Daria 4,5 em 5. Boa crítica.

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