Crítica - Mr. Turner (2014)

Realizado por Mike Leigh
Com Ruth Sheen, Sandy Foster, Timothy Spall

Os meus conhecimentos sobre a vida e a obra do excêntrico pintor britânico J.M.W. Turner eram bastante diminutos antes de ter a oportunidade de ver "Mr. Turner", aliás confesso que só conhecia este artista de nome e, tal como eu, acredito que a maioria dos espectadores portugueses tenham um certo desconhecimento sobre a existência desta personalidade artística que, hoje em dia, é considerado por muitos especialistas como um dos principais pintores britânicos da história. Mike Leigh, o consagrado cineasta britânico responsável por obras de elevado calibre como "Vera Drake" (2004) ou "Secret & Lies" (1996), presta-lhe uma grande homenagem com "Mr. Turner", uma primorosa cinebiografia que para além de nos mostrar o lado humano e intimista deste famoso pintor, também explora os métodos e os ideias que fundamentam a sua loucura e que contribuíram para as suas aclamadas obras de arte. 


Estamos portanto perante uma cinebiografia que, apesar de se focar apenas nos últimos vinte e cinco anos de vida de .M.W. Turner, apresenta-se como um trabalho histórico muito completo que retrata com um merentório detalhe e uma forte dose de intimidade o percurso de vida deste consagrado pintor. Uma importante parte do filme reside na forma curiosa como acompanha e explora a criação de algumas das suas obras de arte mais icónicas e dos comportamentos extravagantes que levaram às suas criações artísticas, mas o que mais salta à vista em "Mr. Turner" é a forma excecional como pinta o retrato pessoal do homem que se esconde por detrás das suas criações. E o homem que aqui é retratado não é propriamente o individuo mais perfeito ou integro que se poderia imaginar, muito pelo contrário, mas Mike Leigh nunca se acanha em nenhum parâmetro e explora em "Mr. Turner" o que J.M.W. Turner realmente foi em vida. Esta honestidade histórica é muito bem vinda e tem um elevado valor e relevância natural, já que ao destacar o bom e o mau desta personalidade artística e histórica sem ter medo de ferir suscetibilidades, Leigh consegue mostrar que, apesar das suas óbvias falências humanas e emocionais, também existia algo de muito bom por detrás de toda a extravagancia de Turner e, especialmente, por detrás dos comportamentos dúbios e de mau carácter pelos quais também ficou conhecido junto da sociedade britânica.
Não há dúvidas que "Mr. Turner" está muito bem feito e tem um enredo muito bem construído, mas muita da magia e qualidade desta obra assentam também na fenomenal performance de Timothy Spall que, simplesmente, assume com um detalhe e um carisma incrível o papel deste conturbado e controverso pintor que, à margem de uma carreira artística de valor mas quase nunca apreciada com o devido respeito, passou por muitas tormentas pessoais graças à sua personalidade complicadíssima, tormentas essas que tiveram um grande impacto na sua forma de viver e de encarar a vida, sobretudo no campo romântico, familiar e sexual. Este lado aparentemente mais desconhecido do pintor é explorado com um amplo detalhe por esta cinebiografia, sendo precisamente nestes pontos do filme que se percebe a importância e a qualidade da performance de Spall que, graças a uma corporização quase perfeita da mentalidade do pintor, consegue atribuir uma dinâmica emocional e realista a tudo o que se desenrola no grande ecrã, algo que faz com que "Mr. Turner" ganha uma profundidade humana que muitas cinebiografias raramente alcançam. 

Classificação - 4 Estrelas em 5

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