Crítica - Creed (2015)

Realizado por Ryan Coogler
Com Sylvester Stallone, Michael B. Jordan, Graham McTavish

Em Hollywood, quer no cinema, quer na televisão, está a crescer uma tendência que se tem direcionado para a recapitalização e recuperação de projetos ou sagas que tiveram sucesso no passado. Esta estratégia, que pode ser facilmente criticada a quase todos os níveis, já produziu, no entanto,  vários resultados produtivos e positivos nos últimos anos, como por exemplo os novos filmes dos franchises "Planet of The Apes" ou "Godzilla". Em 2015, Hollywood conseguiu recapitalizar com um evidente sucesso comercial o épico franchise "Star Wars", mas a sua maior vitória foi obtida com o inesperado mas mais que justo sucesso em todas as frentes de "Mad Max: Fury Road" que conseguiu a proeza de superiorizar o franchise "Mad Max". O ano de 2015 não terminou, no entanto, sem antes estrear mais um capítulo de sucesso desta tendência. E tal capítulo pretence a "Creed". Esta espécie de híbrido entre uma sequela e uma spin-off da saga desportiva "Rocky" convence e entretém, mas acima de tudo promove uma necessária modernização e renovação de uma saga já envelhecida e que foi muito mal tratada após os seus dois primeiros sucessos.



Sem a presença de Sylvester Stallone no seu processo criativo, "Creed" devolve o brilho ao produto "Rocky" que, de certa forma, poderá agora passar o testemunho a um novo produto mais moderno que apelará à nova geração. Este novo produto poderá ou não cometer em projetos futuros os mesmos erros da saga original. Quanto a isto nada se pode prever, porque só o tempo dirá o que é que os responsáveis por "Creed" têm planeado para futuras entregas. O que é certo é que este primeiro capítulo parece antever um futuro com potencial, sendo certo que este potencial se deve quase em exclusivo a uma pessoa, Ryan Coogler. 
O talento deste jovem cineasta já é conhecido por quase todo o mundo, basta recordar o seu consagrado trabalho no seu projeto de estreia "Fruitvale Station" (2013), mas em "Creed" outras batalhas mais complexas levantaram-se e Coogler venceu-as a todas. Este projeto foi-lhe confiado para testar as suas capacidades, mas também para desenvolver o seu toque mais comercial. Coogler aproveitou esta oportunidade e criou um produto sem espinhas que, para além de ter um valor próprio muito significativo, consegue ainda acrescentar um valor exponencial a um franchise inteiro. Para além de revitalizar, recuperar e dinamizar a saga "Rocky" e a abordagem cinematográfico relativa ao Boxe, Coogler conseguiu também capitalizar o espírito nostálgico de "Rocky" e aproveitar um envelhecido Sylvester Stallone para assim criar um produto abrangente e completo que não esquece nem denigre as suas origens. 


Neste novo capítulo somos então apresentados a Adonis Johnson, o nosso jovem protagonista que é interpretado, por um igualmente jovem Michael B. Jordan, com o já conhecido profissionalismo que este prometedor mas já muito competente ator nos presenteia em todos os seus trabalhos. Embora a performance de Jordan seja positiva, cabe a Sylvester Stallone o principal destaque do elenco. Habituado a liderar o franchise "Rocky", Stallone tem em "Creed" um papel mais secundário mas muito importante que revitaliza, quer a personagem, quer o próprio ator. A presença de Rocky e Stallone em "Creed" torna este produto ainda mais especial e poderoso, honrando também o consagrado legado do primeiro "Rocky". Mas para todos os efeitos práticos, Adonis é o real protagonista de "Creed".  Este é um jovem sem perspetivas de futuro que nunca conheceu o pai, Apollo Creed, que faleceu antes do seu nascimento. O gosto pelo boxe está, ainda assim, no seu sangue e, por isso, decide entrar no mundo das competições profissionais. Após muito insistir, Adonis consegue convencer Rocky Balboa (Sylvester Stallone) a tornar-se no seu treinador pessoal. Os dois começam então uma jornada pessoal, com objetivos diferentes mas trajetos semelhantes, que dá origem a uma curiosa dinâmica entre a vitória (vida) e a derrota (morte).
Esta dinâmica domina o filme, bem como a relação quase simbiótica entre o passado e o presente que se repercute, quer no estilo deste filme, quer na forma como este se desenvolve. Para além da óbvia atenção que é dada à vertente desportiva, seja pelo evidente ambiente competitivo que rodeia o filme ou pela proeminência clara das sequências desportivas que vão aparecendo no ecrã, "Creed" apresenta também uma forte e criativa dose de dramatismo e humanismo. Esta advém das jornadas particulares de Adonis e Stallone. Os dois têm que enfrentar desafios muito próprios, sendo que num caso existe um desafio mais profissional, ao passo que no outro somos confrontados com um desafio mais existencial. Em ambos os casos existe uma base dramática e humana muito interessante que alimenta sempre a incerteza da vitória ou da derrota. Este plano dramático, que completa de forma sempre equilibrada o plano desportivo, sobressai pela positiva porque nunca entra por caminhos proibidos ou desiquilibradores. É óbvio que há muito mérito de Coogler na promoção deste equilíbrio e na forma como estes dois planos em causa são retratados na perfeição, já que coube a Coogler, como escritor e realizador, a tarefa de os aprimorar e completar. 
A simbiose existente entre drama, desporto e tensão resulta e é clara. As mensagens de esperança, amizade e coragem, apesar de básicas, conseguem também conquistar o seu espaço positivo no seio deste projeto. Tecnicamente, "Creed" também é muito bom. Todas as suas sequências desportivas, em particular o combate final, apresentam um nível muito profissional. Para além de retratar o pugilismo com mais especificidade que o habitual, Coogler conseguiu também captar a sua essência realista e física de uma forma um pouco mais moderna e séria, escapando assim um pouco ao padrão a que Hollywood nos habituou. Mesmo nos planos mais dramáticos e emotivos, Coogler alcançou um nível acima da média. O tratamento que confere às respetivas experiências de vida de Adonis e Rocky oferece um maior detalhe humano à forma como estas duas personagens vivem e desafiam os seus respetivos problemas. Não deixa de ser certo que mesmo perante tanta qualidade em vários patamares, "Creed" denota certas falhas em questões contextuais ou até mesmo melodramáticas que evidenciam o seu posicionamento mais comercial. O que é certo é que "Creed" merece uma nota positiva pelo que é como produto de entretenimento, mas também pelo que representa para a história de "Rocky".

Classificação - 3,5 Estrelas em 5

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