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sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Crítica - The Reader (2008)

Realizado por Stephen Daldry
Com Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross

Com a cerimónia dos Óscares a aproximar-se rapidamente, apraz-me ver que ao contrário do que aconteceu o ano passado, todos os candidatos à estatueta de Melhor Filme estrearam em Portugal antes da entrega dos mais importantes prémios da 7ª arte. Aplaudo assim as várias distribuidoras responsáveis pelo lançamento em Portugal desse leque de cinco filmes que claramente marcaram a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos da América. “The Reader” é portanto o ultimo desses cinco prestigiados candidatos a estrear em Portugal e lamento dizer que, na minha opinião, este drama da autoria de Stephen Daldry é o mais fraco dos cinco nomeados. É claro que “The Reader” não é um mau filme mas, ao contrário dos restantes candidatos, não nos apresenta uma história verdadeiramente original que nos deixe colados ao ecrã durante duas horas.
O argumento do filme, adaptado da homónima obra literária de Bernhard Schlink, conta-nos uma bela história de amor que ultrapassa sucessivamente as barreiras do tempo e do espaço. Um dos protagonistas deste romance é Michael Berg (Ralph Fiennes), um alemão de semblante carregado a quem somos apresentados na cena introdutória do filme, que se desenrola no apartamento berlinense de Michael em 1995. Após se despedir da mulher com quem passou a noite, Michael observa através duma janela o metro da cidade e, a partir deste momento, somos transportados até à Berlim do Pós-Segunda Guerra Mundial dos anos 50, local onde esta história tem início. É aqui que conhecemos a versão adolescente de Michael Berg (David Kross), um jovem aparentemente intelectual que parece ligeiramente adoentado. Graças a esta má disposição, o jovem Michael abriga-se num local desconhecido e é aqui que conhece Hanna Schmitz (Kate Winslet), uma simpática funcionária dos transportes públicos alemães que o auxilia. Após três meses de repouso, Michael recupera a saúde e encontra-se novamente com Hanna, e os dois começam um caso amoroso proibido. Os dois são solteiros e descomprometidos, mas Hanna é muito mais velha que Michael e a sua relação roça a ilegalidade jurídica e moral. Alheios a esta problemática, Hanna e Michael encontram-se sucessivamente para materializar fisicamente a sua relação e, após os momentos mais tórridos, Michael lê para Hanna alguns dos livros que está a estudar. Certo dia, a relação entre os dois chega a um abrupto fim quando Hanna abandona Michael, sem lhe dar qualquer justificação. Anos mais tarde, durante um julgamento de crimes de guerra cometidos pelos nazis, o par romântico reencontra-se mas este acaso está longe de ser feliz, porque Hanna é uma das acusadas do caso. Ao longo do julgamento, Michael descobre os vários segredos de Hanna e as razões que a levaram a terminar a relação no passado.

Quando digo que este argumento não é tão original como o dos restantes candidatos aos Óscares refiro-me expressamente aos conteúdos e temas que ele aborda que, apesar de serem maravilhosamente retratados, não são novidade para ninguém. Esta história incide claramente sobre três grandes temas que são divididos pelos três grandes momentos do filme. O primeiro “problema” abordado é a relação tabu entre adolescentes e adultos, incorporado na relação amorosa entre o jovem Michael (16 anos) e a experiente Hanna (36 anos). É durante este primeiro período que somos brindando com o clima de maior romance e intimidade do filme, com várias cenas explícitas a aparecerem sucessivamente no ecrã, cenas essas que servem para incutir mais polémica e escândalo à problemática e à malograda história de amor. O segundo período dá-se durante o julgamento de Hanna. Nesta parte do filme somos confrontados com uma nova temática ainda mais complexa que a anterior, a humanização dos peões da ditadura Nazi e a complexa relação de culpa/dever presente nas acções desses peões. Ora “The Reader” tenta mostrar, através de Hanna, que nem todos os funcionários da SS e de outras organizações do cruel regime são maus de natureza, e que as suas acções podem ser, de certa forma, desculpadas por várias condicionantes. No caso de Hanna é notório que a sua acção criminosa não foi efectuada com intenções homicidas, mas sim com intenções de cumprir o dever e de não ver o seu segredo exposto. É claro que, em certa medida, todos os alemães devem ser parcialmente responsáveis pelas atrocidades do seu regime, porque compactuaram de livre vontade com as ideologias abertamente xenófobas e bélicas do seu líder, no entanto, será que esta acção passiva pode-lhes ser criminalmente imputada? Esta questão ainda hoje não tem resposta e o filme tenta, através de vários diálogos, exprimir as várias doutrinas sobre esta e outras questões penais da guerra, no entanto, a questão mais colocada durante o filme prende-se em saber se Hanna deverá ser responsabilizada criminalmente pelo cumprimento de ordens moralmente repreensíveis. O final do julgamento oferece-nos a resposta a esta questão.
Por fim, o terceiro momento do filme dá-se após o julgamento de Hanna, onde acompanhamos mais atentamente a vida de Michael que, após refazer a sua vida, descobre as notas e escritos que escrevera durante o seu caso juvenil com Hanna. Após os sucessivos envios de cassetes com o conteúdo desses escritos a Hanna (se juntarmos este acontecimento com as leituras efectuadas pelo jovem Michael a Hanna, encontramos a origem do título do filme), esta começa a responder-lhe (Spoiler – Hanna aprendeu a ler e a escrever na prisão, livrando-se assim do seu segredo e da sua “doença” de disfunção literária que a obrigou a integrar as SS e que a obrigou a fugir da promoção laboral que recebeu nos anos 50) e os dois reatam platónicamente a sua relação. É durante este terceiro momento que abordamos o crescimento psicológico de Michael e a sua incapacidade de lidar com as suas emoções, no entanto, o final do filme parece mostrar que este seu problema começa a desvanecer e a personagem começa a olhar para o futuro com um certo optimismo, fruto da sua aproximação com a sua filha. Esta parte do filme também mostra a força de Hanna, que aceitou o seu destino e usou o tempo disponível para lidar com o seu problema. Em suma, todas estas questões e problemáticas levantadas pelo argumento já foram retratadas por outros dramas, especialmente as questões relacionadas com a Segunda Guerra Mundial e com as relações entre adolescentes e adultos. É claro que “The Reader” confere-lhes um toque mais subjectivo e único mas, em traços gerais, esses temas são simples e básicos. Apesar de tudo, este argumento oferece-nos uma bela história de amor e de esperança que vence todas as barreiras impostas, e é graças a essa bela história que o filme conseguiu a sua nomeação para o Óscar de Melhor Filme. O argumento elaborado por David Hare não complica, em nenhum momento, o núcleo da história romântica que nos é contada de forma organizada e coerente, algo que realça a emoção e simplicidade do amor vivido pelas duas personagens principais.
A realização de Stephen Daldry é bastante competente porque orquestra, sem grandes intelectualismos, a bela história de Hanna e Michael. O realizador poderia ter optado por atribuir um grande peso às questões ideológicas da Segunda Guerra Mundial, mas preferiu dar mais atenção à história romântica, uma decisão que na minha opinião foi a mais acertada. Num campo mais técnico, é de louvar a forma como retrata os primeiros encontros escaldantes de Hanna e Michael, e a forma como capta as expressões vazias e pouco emocionais do Michael adulto. Todos os cineastas nomeados ao Óscar de Melhor Realizador são merecedores da sua posição, mas acredito que o trabalho de Stephen Daldry é aquele que menos chama a atenção do público, apesar de ser muito bom. Outro aspecto técnico de grande valor é a fotografia da autoria de Chris Menges e Roger Deakins. Todos os cenários e paisagens são belissimamente apresentados e o ambiente transposto por elas é digno da história que envolve.
Após uma bela prestação em “Revolutionary Road”, Kate Winslet volta a deslumbrar tudo e todos com esta sua performance. Na minha opinião, a sua prestação em “Revolutionary Road” é mais completa e dotada duma maior centralização, no entanto, a sua interpretação de Hanna não deixa de ser brilhante e credível. Após ver “The Reader” e o enquadramento de Hanna na história, compreendo perfeitamente a dificuldade de caracterizar a sua prestação como principal ou secundária. É obvio que a personagem é importante mas o grande protagonista da história parece ser Michael Berg, brilhantemente interpretado por dois grandes actores, Ralph Fiennes e David Kross. O grande destaque vai para este último que, apesar da sua juventude, não se deixou intimidar pela fama e talento da sua companheira de profissão (Kate Winslet) e acabou por dividir coerentemente o protagonismo inicial com ela, sem nunca se rebaixar ao nível superior de Winslet. Apesar de ser o mais “fraco” dos cinco nomeados ao Óscar de Melhor Filme, “The Reader” oferece-nos uma bela história de amor que se mostra capaz de emocionar qualquer um. Uma bela homenagem a Anthony Minghella e Sydney Pollack, os dois produtores do filme que não tiveram oportunidade de ver o resultado final.

Classificação - 4 Estrelas Em 5

3 comentários:

  1. Concordo com a classificação atribuída, mas para mim o mais fraco dos 5 nomeados a melhor filme é "Milk". Uma boa interpretação de Sean Penn e um filme importante pela discussão actual de tudo o que envolve a homosexualidade, mas pouco mais que isso...

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  2. Gostei bastante de todos os nomeados, incluindo deste "The Reader". No entanto, os tres que mais gostei foram precisamente o "Milk", "The Curious Case of Benjamin Button" e "Slumdog Millionaire". Acho que o "Milk" trouxe algo de novo às biografias dramáticas e no tempo de contestação e polémica em redor à homossexualidade e ao casamento Gay que actualmente vivemos, axo que esse filme insere-se muito bem neste panorama e sendo assim, é socialmente mais relevante que qualquer dos outros nomeados. Para além do mais, tem a mais bela banda sonora, um incrivel elenco, um argumento interessante e uma direcção talentosa.

    Benjamin Button e Slumdog Millionaire são aqueles astros que toda a gente gosta. E "Frost/Nixon", dentro da sua vertente politica, é claramente diferente de qualquer filme que tem saido nos ultimos tempos, e graças a isso mereçe destaque.

    Resta este "The Reader", um filme bom mas que na lista dos nomeados, poderia ser facilmente substituido por "The Wrestler" ou "Revolutionary Road", obras de qualidade semelhante.

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  3. Ainda estou a digerir The Reader... :) Foi o último dos nomeados que consegui ver e, não sei se por ainda ter na memória a Winslet de Revolutionary Road, é aquele filme que mais me impele a um segundo visionamento.

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