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Entrevista com Silvia Di Marco, co-directora do ​Olhares do Mediterrâneo - Women's Film Festival​

Entrevista com Silvia Di Marco, co-directora do ​Olhares do Mediterrâneo - Women's Film Festival​


Na sua 7ª edição, de 23 a 29 de Novembro, osOlhares do Mediterrâneo - Women's Film Festival​ desdobram-se e expandem-se. Será um festival de cinema no feminino com mais de 50 filmes, mas implementará também "Awareness and Empowerment", um projecto educativo que visa criar uma rede de festivais que envolve parceiros de Espanha, França, Itália, Líbano, Marrocos, Palestina e Turquia. O Festival acontece nas salas do Cinema São Jorge e nos anfiteatros do ISCTE-IUL, mas também ​online​, na Filmin PortugalEm antevisão deste Festival, o Portal Cinema falou com Silvia Di Marco, co-directora do Festival. Nesta conversa discutimos esta edição do festival, como a pandemia o afetou e quais são as grandes expectativas para esta edição, quer na versão física, quer na versão online! 


Portal Cinema (PC) – O Olhares está de volta para uma 7ª Edição que promete! O que nos podem dizer sobre esta edição e o que moveu a linha editorial da programação?

Silvia Di Marco (co-directora do Festival): A organização desta edição do Festival foi bastante diferente do habitual, devido a situação de pandemia em que nos encontrávamos, mas em termos de linha editorial mantivemo-nos fiéis à nossa missão de promover o cinema feito por mulheres da área do Mediterrâneo. O nosso objectivo é sempre o de dar a conhecer a enorme riqueza e diversidade do cinema feito nas margens do Mediterrâneo. Para nós, porém, as fronteiras são feitas para serem ultrapassadas. O nosso olhar não se limita ao Mediterrâneo, mas vai do Mediterrâneo para o mundo. Dou só um exemplo: a curta-metragem “In the Land of Morning Calm” é um filme de uma realizadora italiana, Alessandra Pescetta, filmado na Coreia do Sul, com uma protagonista coreana, uma ambientação coreana, e uma história de perda e renascença que fala a todos. Esta diversidade, estes encontros inesperados são o que nós queremos promover e apresentar ao público.


Portal Cinema (PC) – O que é que o Covid-19 veio alterar na logística e na programação? Que desafios é que se impuseram à organização?

Silvia Di Marco: Foi terrível, a todos os níveis! Trabalhar na total incerteza do que irá acontecer é muito duro. Estivemos a fazer a programação nos meses do confinamento. Todas as reuniões tiveram de ser online, e isso não só complicou o trabalho em termos operacionais, mas tirou uma parte do prazer de criar um festival com um grupo de pessoas que, antes de serem colegas, são amigos. Além disso, optámos por organizar o Festival ao mesmo tempo de forma presencial, numa versão reduzida, no Cinema São Jorge, e colocar toda a programação online, na plataforma Filmin Portugal. Em termos práticos isto significa o dobro do trabalho, o dobro do esforço de comunicação com a quantidade enorme de pessoas envolvidas na criação de cada edição do Festival.


Portal Cinema (PC) – Uma vez mais a programação do Olhares é vasta e diversificada mas tem um claro foco no cinema feminino. Quais são as grandes missões que o Olhares tem para com o cinema no feminino e quais os objectivos do festival?

Silvia Di Marco: O nosso Festival tem duas grandes missões. Uma, como já referi, é a promoção do cinema feito pelas mulheres que trabalham na área do Mediterrâneo (realizadoras, produtoras, montadora, etc.), o outro é “usar” o cinema, passe a expressão, para promover o diálogo e a mudança social acerca de temas que consideramos fundamentais, nomeadamente a igualdade de género e os direitos humanos. Somos um festival engajado e isto é patente na nossa programação cinematográfica, nas actividades paralelas que organizamos, e no nosso esforço para levar as escola ao conema e o cinema às escolas.


Portal Cinema (PC) – Quais são os grandes destaques da programação deste ano?

Silvia Di Marco: Temos de destacar, sem dúvida, os filmes de abertura e encerramento. O de abertura, “God Exists, Her Name is Petrunya”, da macedónia Teona Strugar Mitevska, ganhou o Prémio Lux de Cinema do Parlamento Europeu, e foi candidato ao Urso de Ouro na 69.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. O filme de encerramento, “A Thief’s Daughter” (La Hija de un Ladrón), é da espanhola de Belén Funes, que ganhou os Prémios Goya e Gaudí como Melhor Nova Realizadora. São ambos filmes fora de concurso. Dentro das secções competitivas destacaria a longa-metragem documental “I Am the Revolution”, da italiana Benedetta Argentieri, que nos mostra as lutas das feministas na Síria, o Afeganistão e no Iraque, e nos faz lembrar que o feminismo é, antes de mais, um movimento para a defesa dos direitos mais básicos das mulheres. O direito de viver, de sair de casa, de estudar, de escolher o seu caminho de forma livre. Sempre na competição geral longas destaco também “Between Heaven and Earth”, da palestiniana Najwa Najjar. Este filme é muitas coisas ao mesmo tempo: um road movie, a história do fim de um amor, o testemunho de como o passado e a História com a maiúsculo determinam a vida das pessoas. Na secção Travessias destaco “Elsewhere, Everywhere”, de Vivianne Perelmuter e Isabelle Ingold (co-produção franco-belga). Trata-se de um documentário, realizado completamente com imagens de câmara web, que acompanha a vida real de um jovem iraniano que procura asilo na Inglaterra, depois de passar pelos campos de refugiados em Lesbos, na Grécia. As curtas - quer da competição, quer da secção Começar a Olhar, constituem também uma descoberta muito interessante no seu conjunto, porque abordam de forma séria, ainda que por vezes até divertida, questões tão singelas como a depilação das sobrancelhas numa menina de 12 anos ou o papel ou a luta contra o papel pré definido que a mulher ainda tem na nossa sociedade. Verificamos, como é habitual, que as nossas realizadoras têm preocupações muito transversais e querem falar-nos delas de formas muito diversas. Entre os temas abrodados há ainda filmes sobre a mutilação genital feminina ou a gravidez adolescente a par da pressão para ter filhos, relações com pais ou filhos, retorno às origens ou a separação de famílias refugiadas. 


Portal Cinema (PC) – O que nos podem dizer sobre a parceria com o FILMIN? Como funcionará e que filmes estarão disponíveis na plataforma?

Silvia Di Marco: Todos os filmes, com a excepção do “A Thief’s Daughter”, estarão disponíveis na Filmin Portugal, num “separador” específico para o Festival, de 26 de Novembro a 10 de Dezembro. Os assinantes à Filmin terão acesso livre. Quem não tiver assinatura, poderá ver toda a nossa programação ao preço de um bilhete de cinema, 7,50 eur!

Gostaríamos de destacar que este ano, devido à nossa opção de viabilizar toda a programação do Festival fazendo a versão reduzida no São Jorge e pondo todo o Festival na plataforma Filmin, à excepção de duas ou três curtas que - pela sua temática - complementam longas exibidas no Cinema São Jorge, praticamente toda a secção de curtas da Competição Geral e a secção Começar a Olhar (filmes de escola) só estará disponível na Filmin. As curtas, organizadas de alguma forma por temáticas, estão disponíveis em sessões que procuram espelhar o que poderia ter sido a sua projecção se tivessem acontecido de forma presencial. Foi a forma que arranjámos de simular o mais possível a experiência de festival, onde as curtas se desdobram umas atrás das outras sem que o espectador possa propriamente escolher ver ou não uma curta que esteja inserida numa sessão.


Portal Cinema (PC) – Que secção da programação mais aconselhariam a um estreante no festival? E porque?

Silvia Di Marco: Depende! Alguém que esteja muito atento aos temas sociais e, em particular, às questões que têm a ver com refugiados e migrações, aconselharíamos todos os filmes da Secção Especial Travessias (longas e curtas). Quem gosta de ser surpreendido, poderá explorar as Secções da Competição Geral (longas e curtas), porque encontrará drama, comédia, documentários, animações e até um musical. Quem quer descobrir os talentos mais novos, achará com certeza interessante a Secção Começar a Olhar, onde apresentamos filmes de escola. Agora, é preciso dizer que nos Olhares do Mediterrâneo gostamos de quebrar os esquemas e nas nossas sessões de curtas misturamos filmes de várias secções, pondo em diálogo histórias, mais do que categorias competitivas. Portanto sugiro que as pessoas visitem o nosso site (www.olharesdomediterraneo.org), explorem a programação, procurem as histórias que mais as intrigam, deixando a mente aberta para possíveis surpresas.


Portal Cinema (PC)  - O que podemos esperar de futuras edições do Olhares? Haverá algum esforço extra para em 2021 estender ainda mais o Olhares para compensar as restrições deste ano?

Silvia Di Marco: Nos nossos planos haverá grandes novidades na edição 2021, talvez uma revolução. Mas ainda é cedo para falar disso, os planos são ainda muito incipientes. Será preciso ter paciência e acompanhar-nos até à próxima edição!


Portal Cinema (PC) - Para terminar que informações adicionais é que gostaria de transmitir aos espectadores sobre esta edição?

Silvia Di Marco: Este ano, em que tudo nos aperta e constringe e afunila, os Olhares desdobraram-se e multiplicaram-se. Além da programação habitual, temos muito mais debates e masterclasses, enquadrados num projecto que estamos a implementar, “Awareness and Empowerment”, que visa a criar uma rede internacional de festivais de cinema no feminino e promover o uso do cinema como instrumento facilitador de mudança social.

Para este projecto, desenvolvido graças ao apoio da Fundação Anna Lindh, convidámos parceiros de sete países da bacia mediterrânica, a saber Mostra Internacional de Films de Dones de Barcelona (Espanha), Films Femmes Méditerranée (França), Some Prefer Cake – Bologna Lesbian Film Festival (Itália), Beirut Film Society e Films Femmes Francophones Méditerranée (Líbano), Salé International Women Film Festival/FIDADOC (Marrocos), Shashat Woman Cinema (Palestina) e Flying Broom International Women's Film Festival (Turquia). Os parceiros participarão, de forma presencial ou remota, nas actividades que criámos para o efeito (masterclasses, mesas redondas e uma acção de formação para professores),actividades essas que serão difundidas em streaming num canal de YouTube e nas nossas redes sociais.

Outro dos destaques neste projecto de expansão e desdobramento do Festival é uma sessão acessível que só estará disponível na Filmin. Esta sessão, com cerca de 40 minutos, integrará cinco curtas portuguesas da nossa programação e terá legendas para surdos e uma pista de audiodescrição para invisuais ou pessoas com baixa visão.


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