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Entrevista a José Carlos de Oliveira, Histórico Produtor, Realizador e Autor Nacional Responsável em 2020/2021 Pelo Projeto TREZES

Entrevista a José Carlos de Oliveira, Histórico Produtor, Realizador e Autor Nacional Responsável em 2020/2021 Pelo Projeto TREZES
Créditos DR/ José Carlos de Oliveira

José Carlos de Oliveira é um dos grandes nomes do cinema português. Famoso cinematografo, romancista,  produtor, guionista, realizador e editor, José Carlos de Oliveira tem uma vasta filmografia e uma carreira repleta de sucessos e de contributos positivos para as áreas do cinema e televisão em Portugal. O seu mais recente contributo assume a forma do projeto TREZES! Uma ambiciosa colectânea de telefilmes inspirados em contos de famosos autores nacionais, cuja exibição já arrancou na RTP1 com grande sucesso cultural. 

Para além de estar à frente deste mega projeto de elevado interesse público, José Carlos de Oliveira assumiu também a realização de um desses telefilmes intitulado "O Sítio da Mulher Morta" e que tem como base o conto homónimo de Manuel Teixeira Gomes. Falamos com José Carlos de Oliveira sobre este mega projeto e sobre o filme que realizou e, antes deste ser exibido na RTP1, convido todos a lerem esta entrevista para compreenderem um pouco melhor os objetivos e mensagens que este telefilme (e os restantes da colectânea) pretende transmitir.


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Portal Cinema – Antes de explorarmos o seu mais recente projeto gostaria que nos falasse um pouco sobre a sua vasta e aclamada carreira. O que o apaixonou e ainda apaixona pelo cinema/televisão? E que pontos de destaque mais releva na sua carreira.


José Carlos de Oliveira – Quando ainda cursava fotografia disparei uma sequência de fotos sobre uma acção passional. Ampliadas as fotos e coladas na parede do meu quarto apercebi-me de que a sequência tornar-se-ia muito mais dramática e representativa do nível emotivo dos parceiros se excluísse algumas das fotos e trocasse a ordem de outras.  No final obtive uma sequência eminentemente cinematográfica e enveredei pelo percurso que me trouxe até aqui. E, salvo algumas excepções propositadas, têm sido os momentos em que sinto os espectadores repudiarem ou identificarem-se com as provocações que levo ao ecrã que me levam a viver cada um dos filmes em que me envolvo como a coisa mais importante do mundo. A minha família tem a gentileza de compreender e respeitar este meu fundamentalismo, permitindo-me o luxo - não menos - de me entregar intensamente a esta fabricação mágica.


Entrevista a José Carlos de Oliveira, Histórico Produtor, Realizador e Autor Nacional Responsável em 2020/2021 Pelo Projeto TREZES



Portal Cinema – O seu novo projeto como realizador, “O Sítio da Mulher Morta”, insere-se no projeto TREZES e estreará em breve na RTP1. Para além de realizar “O Sítio da Mulher Morta” tem também uma profunda relação com este projeto, já que participou na produção do mesmo e dos seus filmes. Por isso antes de falarmos um pouco sobre o filme/telefilme que realizou gostaria que nos explicasse como é que este projeto nasceu e que também nos descrevesse, nas suas palavras, quais são as suas ambições. 


José Carlos de Oliveira - A sociedade contemporânea parece por vezes ter uma necessidade suicidária de apagar a história e o conhecimento adquirido, como se padecesse do receio de se aperceber da dimensão do que não sabemos e, no extremo, do pânico de entrevermos a realidade de que nunca saberemos o suficiente. E com isso repetem-se erros desnecessários ou, até, regride-se quando poderíamos avançar todos os dias.

O TREZES nasceu dessa observação, como uma forma de trazer para os dias de hoje o olhar analítico de 13 grandes autores portugueses dos últimos 200 anos, de Alexandre Herculano a Rui Zink, a que se junta agora a visão de 13 realizadores.

E reconhecendo eu ser isto uma enorme ambição, junto-lhe, no entanto, outra não menor, que é conseguir estar à altura do desafio e confiança da RTP e do Director de Programas José Fragoso, que desde a primeira hora têm estado com a Marginalfilmes no desenvolvimento e exibição deste TREZES. 


Portal Cinema – Tal como os restantes filmes do projeto TREZES, o filme que realiza tem como base uma grande obra da literatura nacional da autoria de um grande vulto literário que, neste caso, é Manuel Teixeira Gomes. Talvez entre todos os autores homenageados pelo TREZES, Manuel Teixeira Gomes é um dos mais “desconhecidos” entre as gerações mais novas apesar do seu impressionante legado. Pergunto-lhe, como o realizador que adaptou a sua obra, como descreve a sua escrita e a sua influência na literatura nacional?  O que distingue esta das outras histórias escritas por Manuel Teixeira Gomes e o que o levou a escolher esta obra para inserir no projeto TREZES?


José Carlos de Oliveira – Por muito que nos custe reconhecê-lo, grande parte das decisões que tomamos são menos decorrentes da racionalidade do que das circunstâncias que, em determinada altura, nos condicionam e, até, empurram. E embora a selecção global dos contos do TREZES decorra de um trabalho conjunto, muito racional, da Direcção de Programas da RTP e da Marginalfilmes, assim como a selecção dos realizadores para cada um dos contos conforme a linha conceptual das suas obras, a escolha do meu  O SÍTIO DA MULHER MORTA já tem mais a ver com a atracção, muito emotiva e menos racional, que há muito a escrita de Manuel Teixeira-Gomes exerce sobre a minha imaginação, neste caso no que se refere às Novelas Eróticas; pelo desassombro, e assunção de que o elemento passional, e a sua efabulação perante a rotina, tudo – ou quase tudo – determinam; de tal forma que tudo se torna um ciclo de que não conseguimos, e muitas vezes não queremos, sair. E por último e não menos importante, porque entendo que as artes devem ser provocatórias, diria que este era o conto que eu tinha de filmar. 


Portal Cinema – Quais foram os grandes desafios que enfrentou para dar vida a esta adaptação? E considera que esta obra, devido às peculiaridades da obra original, acabou por acarretar um maior desafio que outros filmes do projeto TREZES?


José Carlos de Oliveira Sem falsa modéstia, todos os filmes do TREZES trazem grandes responsabilidades às equipas e aos realizadores: porque são uma evidente opção de Programação, de mérito e invulgar, da RTP; porque são adaptações de grandes escritores; porque têm de ser vistos com o olhar de hoje sobre a época em que, eles próprios, olharam a sociedade de então; porque têm de ser construídos com o objectivo de que personagens e situações estejam organizadas num edifício sólido que seduza e emocione o muito alargado e diverso público da RTP1; diria mesmo, os públicos, sem excepção. 

No caso do meu O SÍTIO DA MULHER MORTA, tudo teria de se centrar numa primeira leitura pelos espectadores, quase óbvia, do poder absoluto de um homem, que o exercendo sobre os outros não logra no entanto exercê-lo sobre si próprio; do Proprietário por ela é a coisa mais óbvia e tentadora da vida. O desafio foi tecer tudo isto num edifício sólido, e puxar os espectadores a senti-lo, mais do que pensá-lo, transpondo-os para os comportamentos das duas personagens principais, cercadas por todas as outras que servem o desenho das circunstâncias e consequências das acções. Sem desfocar o protagonista.


Portal Cinema – Controversa na época em que foi lançada, a história retratada em “O Sítio da Mulher Morta” explora temas como o desejo e a traição. O brilhante filme que nos apresenta mantém bem vivas essas características e, apesar de tais temas já estarem banalizados na nossa sociedade, certo é que continuam a suscitar curiosidade. Como encara e descreve a narrativa de “O Sítio da Mulher Morta” e considera que a sua visão faz justiça aos elementos que Manuel Teixeira Gomes pretendeu incitar na altura?


José Carlos de Oliveira – Quero crer que honrei o espírito do conto do grande, e espantosamente muito ignorado, Manuel Teixeira-Gomes, e que a brutalidade que lhe imprimi no filme resulta deste nosso olhar contemporâneo sobre hábitos e costumes da época do conto. O que procurei fazer, como de resto no enquadramento para os preciosos e muito talentosos argumentistas de todos os outros, foi respeitar sempre o espírito dos autores, recortando os elementos dramáticos que sustentam o edifício dramático dirigido às leituras diversas de todos os públicos, sem excepção- cá está mais uma um objectivo que, a par de outros, é uma ambição, algo desmedida, que só os públicos diversos nos dirão se foi concretizada. 


Portal Cinema – O filme mantém os maneirismos da época e retrata com muito cuidados detalhes cénicos da época. O que envolveu esta preparação criteriosa dos cenários, diálogos e da recriação da época? Sempre foi sua intenção manter a história na época em que a mesma foi idealizada pelo autor ou, em algum momento, pensou em transpor a história para os tempos modernos?


José Carlos de Oliveira – Provocadora, esta questão. Ponderei ainda no início transpor os contos para a actualidade; e depois logo me apercebi que isto seria o mais fácil e que o mais provável seria adulterar, por essa via, o espírito dos contos. E entendi que a inovação seria, provavelmente, mais conseguida se após uma pesquisa responsável, obrigatoriamente rigorosa, transpuséssemos, além da Arte, Figurinos, Direcção de Fotografia, comportamentos e, não menos importante, ritmos sob o olhar do que sabemos historicamente hoje, num quadro político e social de que, infelizmente, estamos longe ainda de nos afastarmos. Por exemplo, quando a minha personagem Júlia/Marta se decide oferecer-se ao proprietário como é que o faz? E como encenar o arranque e a evolução da cena? Naquela altura, segundo o que sabemos hoje, arrancaria o primeiro fotograma e se seguiriam os outros? E o Proprietário, quando ali recebe a oferta da Júlia/Marta, como se comporta depois e durante? Entrega-se-lhe também, tendo a sua mulher, de quem inequivocamente gosta e que lhe trará o varão que há muito aguarda, ou?... Enfim, é uma enorme teia de que se fazem os filmes...


Portal Cinema – Um elemento importante é também o elenco que, afinal de contas, é o grande responsável por “vender” a trama. Como descreve a performance dos atores com quem trabalhou?


José Carlos de Oliveira – Caramba. Raramente um realizador tem a oportunidade de trabalhar com tantos – todos – actores tão sérios e tão empenhados num filme seu. Pude ver que para eles não foi fácil, porque as personagens e as situações a que são sujeitas são muito complexas, de grande pormenor e com textos cuja densidade não tem de transparecer para o espectador, antes tem de se fazer sentir na pele. E correndo o risco de os ofender tenho de confessar que me surpreenderam, trazendo o filme para um plano em que a representação foi transposta para a dimensão carnal de pessoas com quem nos identificamos ou que repudiamos. E tudo isto se faz com uma equipa de grandes profissionais.   


Portal Cinema - Por fim gostaria de lhe perguntar com que mensagens e/ou ideias espera que o fique após ver este projeto, mas também gostaria de lhe fazer a mesma pergunta em relação à coletânea TREZES.


José Carlos de Oliveira – Julgo que produtores e realizadores esperam que cada um dos seus filmes fique para a História. Não é isso que vulgarmente acontece, sejamos lúcidos. E nos dias que correm, tudo parece efémero, como a chama de um fósforo. Mas há que reter, sem deslumbramentos, o que importa e nos mantém, aos cineastas, com a convicção de que, apesar da voracidade deste nosso tempo, é indispensável surpreender e seduzir os públicos, de forma a que retenham o que queremos dizer e fazer sentir em cada um dos nossos filmes. E para isso há, também, que destacar o que nos permite fazê-lo ou seja, novamente sem falsa modéstia: poderemos considerar que há grande capacidade de produção e direcção dos produtores da Marginalfilmes, o Ricardo Oliveira e eu na execução deste projecto mas, de facto, o grande mérito é da RTP e do Director de Programas José Fragoso que decidiram seleccionar o projecto e que, desde a primeira hora e ao longo da concepção e produção, todos na Estação têm apoiado com solidariedade, profissionalismo e objectividade, sendo também pertinente e justo ser destacado, sem equívocos, o papel exemplar da Direcção do ICA. Isto deve ser dito e destacado por quem, como nós, na Marginalfilmes, já assistiu a muito, ao longo de décadas.


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