Crítica - Steve Jobs (2015)

Realizado por Danny Boyle 
Com Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen

Se antes de ver "Steve Jobs" não soubesse praticamente nada sobre a história real de Steve Jobs ou da Apple devo confessar que não seria esta cinebiografia que me iria ensinar qualquer coisa de útil ou concreto sobre as mesmas. Se uma cinebiografia sobre determinada personalidade não consegue transmitir ao espectador uma informação clara e relevante sobre o seu objeto central, então falha redondamente num dos seus principais objetivos que se prende com a elucidação e informação do público. Embora "Steve Jobs" não seja de todo uma cinebiografia convencional que siga os padrões típicos do género, tal não pode servir de desculpa para a sua fraca capacidade em expor de uma forma minimamente pormenorizada ou objetiva a vida e carreira de Jobs. 
É perceptível que Aaron Sorkin (Guionista) e Danny Boyle (Realizador) tentaram explorar uma dimensão mais pessoal de Steve Jobs, aproveitando apenas a espaços para introduzir e contextualizar certos factos expositivos sobre a evolução da sua vida e carreira. O retrato que é feito da sua personalidade é interessante, sem dúvida, mas não é apoiado por doses decentes de factos informativos comprovadamente reais e concretos que consigam informar e elucidar o espectador sobre toda a evolução dos eventos da sua vida. Não há portanto muitos traços objetivos dentro desta cinebiografia claramente subjetiva que, embora seja empolgante, peca na hora de apresentar a credibilidade factual e contextual que se espera de uma cinebiografia, especialmente de uma sobre uma personalidade tão atual sobre a qual há tanta informação comprovada espalhada por aí. À margem de todas as problemáticas externas que envolveram e ainda envolvem "Steve Jobs" e que também não ajudam nada a credibilizá-la, esta falha crassa acaba por ser o seu maior calcanhar de aquiles já que, como cinebiografia que é, falha redondamente naquilo que uma cinebiografia deve apresentar.


Embora Aaron Sorkin tenha aproveitado a biografia oficial de Steve Jobs para construir o argumento desta obra nota-se claramente que este produto não é nem nunca será consensual. Este aproveita os bastidores de três populares apresentações que Steve Jobs comandou sobre os principais produtos da Apple e NeXT nos anos de 1984 (Apple Macintosh), 1988 (Computador NeXT) e 1998 (IMac) para ilustrar a personalidade deste já falecido empresário. Tal retrato, que acompanha várias versões expressivas de maturidade, ilustra com a devida competência moral e dramática o lado humano falível e por vezes irritante e detestável de Jobs. Tal ilustração interior está muito bem feita e é muito interessante de analisar. O problema, lá está, prende-se com tudo o resto que praticamente não existe. Por intermédio de complexos mas magníficos diálogos e alguns flashbacks primordiais é nos dada uma pequena dose de informação factual objetiva sobre a carreira e vida de Jobs, mas tal não é suficiente para justificar o rótulo de filme informativo e factual que os seus criadores lhe atribuem.
Não quero dizer que "Steve Jobs" seja um mau filme, apenas acho que não é devidamente elucidativo e informativo. Isto não o torna desinteressante. Tal como referi, "Steve Jobs" é inconvencional, tal como Jobs era. O retrato que nos é apresentado sobre a sua personalidade é deliciosamente intenso e interessante, mas ficamos sempre na dúvida sobre o seu real alcance e veracidade. Afinal de contas a maior parte das personalidades próximas a Steve Jobs, com a excepção da sua primeira filha, recusaram colaborar com Sorkin e associar-se a esta obra, aliás até a atacam por ser tendenciosa, oportunista e falaciosa. Se é correta ou não só os visados saberão, mas não duvido nada que Sorkin incluiu uma certa ficção e embelezamento dramático e moral a esta sua criação, daí "Steve Jobs" não ser aquela cinebiografia 100% fiável. É óbvio que a considero um melhor filme que "Jobs" (2013), outra cinebiografia de Steve Jobs que é mais factual e histórica, mas que não tem nem metade da personalidade e qualidade desta obra mas, lá está, aproxima-se mais da cinebiografia informativa que a maior parte dos espectadores procuram. Para quem quer saber mais sobre a vida e carreira de Steve Jobs, então esse filme ou os documentários sobre esta matéria são os mais ideias. Se porventura procura um filme diferente que se apoia mais no retrato da personalidade de Steve Jobs, então este produto é o ideal para saborear como deve ser. Mas aviso já que, embora tal retrato seja interessante, não está isento de falhas relevantes.


Nos três segmentos que compõem "Steve Jobs" há sempre dois temas que são explorados: a polémica questão da paternidade relativamente à jovem Lisa-Brennan Jobs e os jogos empresariais internos da Apple. Embora pelo meio sejam explorados de forma tímida outros temas, como a adoção de Steve Jobs, estes dois tópicos são praticamente os únicos que fazem parte do conteúdo da cinebiografia e aqueles que Sorkin usa para traçar o perfil de Jobs. É por intermédio de flashbacks e discussões relativamente a estas questões que a personalidade de Jobs sobressai, sendo que dependendo da era que está a ser abordada, tal personalidade é mais ou menos provocativa e simpática. Embora o elemento factual de tais tópicos seja bastante reduzido, não há dúvida que cumprem o seu objetivo na hora de ajudarem a traçar um retrato mais pessoal do famoso empresário. É esta brilhante qualidade que torna esta obra num produto pouco informativo mas surpreendentemente empolgante. E apesar das já referidas questão citadas serem exploradas por vezes com uma dose exagerada de melodramatismo digno de Hollywood não se pode dizer que isso as prejudique ou que afete a exposição humana do protagonista. 
E tal complexo e polémico protagonista é interpretado com enorme qualidade por Michael Fassbender.  A sua prestação, embora não seja digna de um Óscar de Melhor Ator, apresenta nobres traços de destreza e carisma que aumentam a força apelativa de uma já de si complexa personalidade. Não há qualquer dúvida que Fassbender surpreende pela positiva, como também poucos contestam que veste com uma maior personalidade a pele de Jobs do que o fraquinho Ashton Kutcher que, recorde-se, praticamente insultou a memória de Jobs com a sua mediana interpretação em "Jobs" (2013). O restante elenco não se exibe a mau nível. Jeff Daniels e Seth Rogen têm boas prestações secundárias, tal como Kate Winslet que na pele da maior confidente e ancora emocional de Steve Jobs sai-se muito bem. E já que se fala em Joanna Hoffmann, a personagem interpretada por Winslet, aproveito para destacar uma das falhas pouco importantes de "Steve Jobs". Em abono da verdade, Hoffmann não tinha nada que aparecer na terceira e última parte do filme, já que por esta altura já não trabalhava na Apple. A sua presença fictícia compreende-se apenas pela necessidade que Sorkin sentiu em dar um sentido de continuidade à história e ao arco emocional de Jobs, mas a sua presença, tal como outras falhas também secundárias e ausências demasiado notórias, ajudam a ilustrar pouca clareza factual e histórica desta obra. Mas lá está, "Steve Jobs" deve ser visto e entendido mais como um drama sobre uma personalidade do que propriamente como uma cinebiografia maioritariamente correta. Se é candidato aos Óscares não sei, mas tem potencial para, pelo menos, almejar a certas nomeações. 

Classificação - 3,5 Estrelas em 5

1 comentários:

  1. Steve Jobs: 5*

    "Steve Jobs" é um excelente filme e tem um argumento bastante coerente e isso é uma mais-valia, recomendo que o vejam.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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