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Crítica - Unstoppable (2010)

Realizado por Tony Scott
Com Denzel Washington, Chris Pine, Rosario Dawson, Kevin Dunn

Aquando da sua estreia nos Estados Unidos da América, “Unstoppable” foi imediatamente catalogado como sendo o “Speed” do século XXI. Como seria de esperar, Tony Scott não perdeu tempo a desmistificar esta ideia, argumentando que a sua mais recente obra não obedecia aos mesmos pressupostos do bem-sucedido filme de Jan de Bont. E neste aspecto, tendo a concordar com o realizador inglês de 66 anos de idade. “Speed” abordava mais o tema do terrorismo e tinha como grande vilão um homem com insaciável sede de vingança. De certa forma, “Speed” estava mais de acordo com os princípios de um intenso filme policial, enquanto este “Unstoppable” se insere melhor na categoria de filme-tragédia. Aqui, o grande vilão da história é nada mais, nada menos do que o próprio comboio descontrolado – uma autêntica besta de múltiplas toneladas de peso – e o enfoque heróico da trama não vai para um corajoso agente da polícia, mas sim para dois indivíduos “normais” que, perante uma inesperada adversidade, despertam o que de melhor têm dentro deles e se tornam verdadeiros heróis nacionais. Para além disto, “Unstoppable” é inspirado em factos verídicos, um pequeno factor que sempre estimula um maior envolvimento emocional por parte do público (especialmente o público norte-americano, que vivenciou este inquietante episódio como mais ninguém no mundo inteiro).


A narrativa dá-nos a conhecer duas personagens que, por pertencerem à classe operária da sociedade (ao povo, simplesmente falando), estabelecem uma ligação emocional muito mais poderosa com o espectador comum, criando aqui uma daquelas epopeias populares que ficam na memória de todos e com as quais a audiência facilmente se identifica. Frank Barnes (Denzel Washington) e Will Colson (Chris Pine) são dois trabalhadores de uma empresa ferroviária do Estado da Pensilvânia que, num dia como tantos outros, se vêem confrontados com uma irregularidade possivelmente trágica: um vigoroso comboio que transporta substâncias tóxicas e explosivas escapa ao controlo do seu maquinista e dirige-se a toda a velocidade para a populosa cidade de Stanton, sem travões e com a promessa de ceifar milhares de vidas inocentes. Colocados no caminho do descontrolado comboio, tanto Frank como Will depressa se apercebem de que jamais poderão ficar de braços cruzados e deixar que o monstro mecânico esmague todos os familiares e amigos que aprenderam a amar; até porque a empresa ferroviária responsável pelo comboio não consegue lidar com a situação da melhor maneira, dando mais atenção aos dólares e à imagem social do que à vida de todos os inocentes. Mas o problema é que, oriundos de escalões etários diferentes e em plena crise socioeconómica, Frank e Will não se entendem às mil maravilhas. E se quiserem travar o imparável comboio, ambos terão de deixar as desavenças para trás das costas e trabalhar como a equipa mais oleada e corajosa de todos os tempos.
O cinema de Tony Scott (irmão do consideravelmente mais famoso e aclamado Ridley Scott) é, talvez, um daqueles que mais se enquadra no típico paradigma do cinema “hollywoodesco”. E isto tem as suas virtudes e defeitos. Por um lado, trata-se de um cinema que pretende, acima de tudo, entreter e fazer o espectador passar por duas horas de frenética acção sem limites. Trata-se de um cinema (por vezes) de qualidade artística questionável, mas que, apesar disso, consegue ser extremamente eficaz e competente. Trata-se de um cinema de heróis e de vilões; de orçamentos elevados e de grandes emoções; de estruturas narrativas lineares e pouco arrojadas; enfim, um cinema de e para grandes massas. Este tipo de cinema tem os seus méritos e, precisamente pelo facto de apostar numa fórmula de sucesso mais que testada e comprovada, consegue mesmo arrastar multidões e despertar insanas paixões. Até aqui tudo bem. O problema é que, por outro lado, se trata também de um cinema terrivelmente previsível, muitas vezes imaturo e que cai constantemente numa torrente de clichés perfeitamente evitáveis. E “Unstoppable” é o espelho perfeito da esquizofrenia cinematográfica que se encontra presente neste tipo de cinema made in Hollywood.


Ninguém pode afirmar que a mais recente obra de Tony Scott peca por falta de adrenalina e por deixar o espectador adormecer à sombra de uma narrativa que se arrasta sem ritmo e sem despertar as emoções mais básicas do ser humano. Aliás, essa é a característica principal dos filmes deste realizador. “Unstoppable” possui todos os condimentos necessários para a criação de uma obra que explode com todos os box-office mundiais. Acção a rodos é coisa que não falta, personagens estereotipadas estão presentes em todos os frames da película e o espectador depressa se vê a puxar pelo sucesso do duo de carismáticos protagonistas. Denzel Washington e Chris Pine (o Capitão Kirk do último “Star Trek”, em clara ascensão de promissora carreira), sobretudo eles, mantêm a atenção do espectador até ao fim com interpretações fortes e seguras. E para além de tudo isto, a película é também pautada por um senso de humor que não deixa ninguém indiferente (atenção à forma como o filme acaba; simplesmente deliciosa). Mas – e este é um grande “mas” – a forma simplória como tudo se desenrola, a incapacidade para se afastar de estereótipos mais que vistos e banalizados, e a escandalosa imaturidade com que se procura um happy-ending demasiado esforçado fazem deste “Unstoppable” uma obra, na melhor das hipóteses, penosamente vulgar.
Mais do que a narrativa que, a meio caminho, já se adivinha como vai terminar, aquilo que mais me afligiu foi a forma exagerada como o filme tenta colar o rótulo de “herói” nos dois protagonistas. Não que estes não o sejam! Mas aqueles planos (sucessivos) com o povinho a bater palmas e a exprimir palavras de incentivo em frente ao televisor são simplesmente intragáveis. O espectador não precisa de muito tempo para perceber que Frank e Will são os heróis improváveis desta história; razão pela qual não havia necessidade absolutamente nenhuma de virem com as cenas da multidão a festejar, a bater palminhas e a sorrir para a câmara.


Em suma, aquilo que se pode dizer de “Unstoppable” é que ele cumpre aquilo a que se propõe. Os aspectos cinematográficos tão característicos do cinema de Tony Scott estão todos presentes e resultam numa obra extremamente eficaz. Temos acção, emoção, heróis e adrenalina sem limites, num filme com algum humanismo e maturidade emocional. Porém, temos também um filme que nunca consegue surpreender e que se contenta descaradamente com a aposta nos lugares-comuns do género. Algo que o torna um filme divertido… mas nada mais que isso.

Classificação – 3 Estrelas Em 5

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