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Histórias do Cinema - Doctor Zhivago, o Clássico Que Enfureceu a União Soviética

Histórias do Cinema - Doctor Zhivago, o Clássico Que Enfureceu a União Soviética
Histórias do Cinema - Doctor Zhivago, o Clássico Que Enfureceu a União Soviética

Hoje em dia, "Doctor Zhivago" é considerado um clássico da 7ª Arte e um dos filmes mais celebrados do Século XX. Vencedor de 5 Óscares da Academia (Melhor Fotografia, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Banda Sonora e Melhor Design de Produção) e de muitos outros prémios relevantes do mundo do cinema, este épico de David Lean, que foi lançado em 1965, conquista, ainda hoje, a adoração de muitos cinéfilos e não é para mais, já que "Doctor Zhivago" é, sem dúvida, um clássico do cinema, tendo sido já reconhecido várias vezes pelo American Film Institute como um dos 100 Melhores Filmes do Século XX.
Este épico foi produzido durante a Era Dourada da MGM e tem como base o romance homónimo de Boris Pasternak sobre a vida de um médico dividido entre duas mulheres durante os anos da Revolução Russa. O homem é Jivago, um talentoso poeta e dedicado cirurgião a quem a guerra não poupou, sendo que o seu coração atormentado pela guerra encontra-se dividido entre a meiga mulher com quem casou e a fogosa mulher que não consegue esquecer.

O Livro Que Deu Origem ao Clássico


 O livro, também ele um épico aclamado em todo o mundo, retrata bem mais que um romance, já que vai mais longe e tece considerações políticas e sociológicas sobre a Revolução Russa, mas também sobre o próprio país. Editado em 1956, o livro "Doctor Zhivago" nunca colheu grande amor na União Soviética, aliás Pasternak, que mesmo antes do lançamento daquele que viria a ser o seu melhor livro já era uma espécie de celebridade literária, chegou a ser perseguido pelos serviços secretos da União Soviética enquanto estava a escrever "Doctor Zhivago", já que mesmo antes do livro estar pronto, as autoridades soviéticas já especulavam que a obra poderia conter bastantes depreciações do regime comunista e da revolução que o ajudou a instaurar. E, verdade seja dita, não estavam erradas quanto a esta teoria.  Pasternak soube, desde logo, que nunca conseguiría publicar esta obra na União Soviética, por isso teve que encontrar uma forma de o publicar no Ocidente. Rezam as histórias e crónicas da altura que o manuscrito teve de ser contrabandeado por um italiano chamado D'Angelo para ser entregue a Giangiacomo Feltrinelli, na altura dono de uma editora italiana que o publicou em 1957 para fúria da União Soviética. A nação, por via do seu Ministério da Cultura, lançou uma campanha de difamação e ódio contra o romance que, apesar de não ter sido publicado no Leste, era considerado um livro proibido e quem tivesse uma cópia do mesmo poderia enfrentar muitos problemas jurisdicionais! Esta campanha impediu a disseminação ilegal em larga escala do livro no país, mas, por ironia do destino, fez com que se tornasse uma sensação em todo o mundo não comunista, tendo passado, por exemplo, 26 semanas no topo da lista de mais vendidos do New York Times, um feito para a época, ainda para mais tendo em conta a nacionalidade do autor!


Histórias do Cinema - Doctor Zhivago, o Clássico Que Enfureceu a União Soviética



O sucesso do romance "Doctor Zhivago" correu o Ocidente e aumentou o sentimento Anti-Comunista, aliás o livro não se obsta a fazer duras críticas ao Comunismo e à forma como a Revolução Russa foi conduzida. Por isto, o Ocidente aclamou o livro, aliás os ataques ao Comunismo pareciam mais importantes até que o triângulo amoroso encabeçado pelo Doutor Zhivago. O maior insulto para a União Soviética chegou em 1958, quando Pasternak recebeu o Prémio Nobel da Literatura, prémio este atribuído muito em parte devido ao seu grande clássico "Doctor Zhivago" É fácil de imaginar a fúria do governo soviético que via um autor que escreveu uma obra anti-soviética ser aclamado com o maior prémio da literatura e, por isso, não é de estranhar que tenha interpretando essa entrega do Prémio Nobel como um gesto hostil contra União Soviética. Apesar de todas as críticas do seu país, Pasternak manteve-se a viver na União Soviética, mesmo no auge das campanhas contra a sua pessoa. A sua fama como um dos grandes autores russos tinha impedido, até então, a sua prisão, mas a entrega do Prémio Nobel aumentou a pressão sob o Governo que acabou por rotulá-lo como traidor. Mas atitude mais graves acabaram por não ser tomadas devido à pressão de Governos Externos que ameaçaram a União Soviética com protestos à escala mundial, caso prendessem Pasternak. Este ponderará recusar o prémio, tal era o seu amor pela Rússia, mas nem isso acalmou a União Soviética que se não o poderia prender estava a ponderar expulsá-lo do pais, tendo criado movimentos estudantis e culturais com essa intenção. Mas a força do Prémio Nobel e de vários Governos, como a Índia, evitaram este desfecho e foi permitido que Pasternak se mantivesse na Rússia, mas afastado do mundo por ser visto como uma má influência. Na altura, Pasternak já se encontrava debilitado e acabou mesmo por morrer dois anos depois da polémica do Prémio Nobel, vítima de cancro no pulmão. Os seus familiares acreditam que a purga da União Soviética contra Pasternak pode não ter influenciado diretamente a sua morte, mas ajudou a acelarar-la, já que Pasternak foi alvo de grande pressão durante vários anos e, por isso, fumou bem mais então teve tantos cuidados com a sua saúde.

Depois do Livro....O Filme Polémico


Exposta a história por detrás do livro, julgo ser fácil de presumir que a sua adaptação cinematográfica também nunca seria produzida na União Soviética e que esta nunca permitiria que o mesmo fosse exibido no seu país. Há rumores que o realizador David Lean, talvez com um pensamento algo inocente, tenha feito de tudo para filmar algumas partes do filme na Rússia, mas claro que a União Soviética não o permitiu, aliás o seu governo ficou, como seria de esperar, furioso com o anuncio da produção desta obra, já que considerava que o filme poderia ser um veiculo ainda mais mediático que o livro na propagação de uma campanha anti-comunista. Pese embora os protestos da União Soviética em plena Guerra Fira, a MGM, uma empresa norte-americana, decidiu mesmo produzir o filme em parceria com o icónico produtor Carlo Ponti. Foi aliás de Ponti a ideia de avançar com o filme, até porque queria dar um dos papéis principais à sua esposa na altura, a icónica atriz Sophia Loren. Mas os seus planos acabaram por ser contrariados por Lean e pela MGM que preferiram contratar Julie Christie e Geraldine Chaplin para assumirem os dois principais papéis femininos da obra. Já o papel principal do Doutor Zhivago foi entregue a Omar Sharif, apesar de o papel ter sido inicialmente entregue a Peter O'Toole que, para surpresa de muitos o recusou!
Em 1965, após longos processos de gravações em Espanha, no Canadá e na Finlândia, o filme "Doctor Zhivago" chegou finalmente às salas de cinema ocidentais onde, tal como o livro, teve um enorme sucesso. Os críticos aplaudiram-no e o público acorreu aos cinemas para o ver, tanto é que, ajustando as bilheteiras à inflação e ao mercado atual, "Doctor Zhivago"  é considerado o oitavo filme mais lucrativo de sempre do box-office norte-americano. Como a União Soviética temia, o filme ajudou a promover a causa Anti-Comunista e teve uma maior repercussão mediática que o próprio livro que, com o sucesso da adaptação, teve uma segunda vida com recordes de vendas nas livrarias. Como já era de esperar, "Doctor Zhivago" foi banido da União Soviética que lançou campanhas difamatórias contra a produção que, mesmo assim, não abrandou o seu sucesso no Ocidente.
Pasternak nunca chegou a ver o  filme "Doctor Zhivago" nem nunca chegou a aprová-lo. Os seus familiares e descendentes que se mantiveram na Rússia também só o conseguiram ver em 1990, quando a exibição do filme foi finalmente autorizada na Rússia e nos antigos países da União Soviética. A fúria dos governos soviéticos contra o livro e o filme durou mais de trinta anos e só sucumbiu perante o fim do Bloco Comunista, caso contrário ainda hoje permaneciam entre as obras proibidas. E assim é a história de um filme baseado num best-seller de um autor russo sobre uma história russa, mas que só chegou à Rússia mais de três décadas após o seu lançamento no Ocidente. É curioso observar, agora, que um dos maiores clássicos literários russos foi transformado num grande filme por uma empresa norte-americano e que esse filme é, hoje em dia, considerado um dos maiores clássicos de sempre........do cinema americano.

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