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Entrevista a Ameen Nayfeh, Realizador do Impactante 200 Meters, o Candidato da Jordânia ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro


O Portal Cinema continua a entrevistas os grandes realizadores e integrantes da corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2021. Desta vez falamos com Ameen Nayfeh, o realizador do drama "200 Meters", o representante da Jordânia ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e um filme muito revelador sobre a Crise na Palestina. Nascido na Palestina, Ameen Nayfeh assistiu, em primeira mão, aos horrores da Guerra e teve que passar por inúmeras situações complicadas durante os vários conflitos que ocorreram na região. Esta sua experiência serviu de base para "200 Meters", um drama que visa reforçar a atenção do público para a situação complexa que ainda se vive na Palestina e que ainda espera uma resolução definitiva. Foi com prazer que falamos com Ameen Nayfeh sobre este seu projeto e sobre o seu processo criativo para o concretizar!

Portal Cinema continues to interview the directors and members of staff of the several films that are part of the 2021 Foreign Language Film Oscar race. This time we spoke with Ameen Nayfeh, the director of the drama "200 Meters", Jordan's representative to the Best Foreign Film Oscar., and a very revealing film about the Crisis in Palestine. Born in Palestine, Ameen Nayfeh witnessed, firsthand, the horrors of the War and had several troubling experiences during the various conflicts that occurred in the region. This serves as his basis for "200 Meters", a drama that aims to capture the public's attention to the complex situation that still exists in Palestine, and that still awaits a definitive resolution. It was a pleasure to speak with Ameen Nayfeh about this project, and about his creative process.


A Palestinian father trapped on the other side of the separation wall is trying to reach the hospital for his son. 


PC – Gostaria começar por lhe perguntar o que o levou a se tornar num cineasta? O que o inspirou a seguir essa carreira?/ I would love to start by asking you what drove you to become a filmmaker? What inspired you to pursue this career ?


Ameen Nayfeh - Cresci entre a Jordânia e a Palestina. Descobri que queria ser cineasta quando ainda estava na escola, quando tinha 16 anos. Testemunhei os horríveis incidentes da segunda Intifada na Palestina. Estava sempre a questionar-me porque é que isto está a acontecer! Porque é que o mundo está tão silencioso sobre isto? E, além disso, a Invasão Americana do Iraque, que ocorreu ao mesmo tempo, também me impactou. Estava sempre a ver os noticiários e a consumir todas essas imagens de morte e destruição. Na mesma época passava também muito do meu tempo a ver muitos filmes com o meu irmão, porque estávamos presos em casa por causa dos toques de recolher intermináveis. Ele tinha descoberto o cinema que existe fora da esfera mainstream dos EUA e fiquei encantado com este mundo. Senti que a nossa região, as nossas verdadeiras histórias e luta para viver uma vida normal não estavam a ser contadas, então eu queria contá-las.

I grew up living between Jordan and Palestine. I wanted to become a filmmaker when I was still at school, I was 16 years old. I happened to witness the horrifying incidents of the second Intifada in Palestine.  I was always asking myself why is this happening! Why is the world so silent about it? And on top of that it was also the American Invasion of Iraq at the same time and again I was always watching the news and consuming all these images of death and destruction. At this same time, I was watching a lot of movies with my brother because we were stuck at home because of the endless curfews. He had discovered the cinema that exists outside the US mainstream sphere and I was enchanted by this world. I felt that our region, our true stories and struggle to live a normal life are not being told, so I wanted to tell them.


2 – "200 Meters" marca a sua estreia na direção de longas metragens. Como é que a sua experiência passada o ajudou a enfrentar este desafio? E o que o levou a criar este projeto?/ “200 Meters” marks your directorial debut in a feature film. How did your past experience in other projects and other roles within the industry prepared you for this challenge? And what led you to the creation of this project?


Ameen Nayfeh - Não foi fácil para mim estudar cinema após terminar o liceu, isto porque a minha família era contra esta ideia no início, e também porque não tínhamos naquela época uma escola de cinema na Palestina. Então, estudei enfermagem durante 4 anos! Sei que enfermagem parece algo diferente do cinema, mas o meu plano era poder trabalhar como enfermeiro em qualquer lugar do mundo, pois sabia que existe uma escassez global de enfermeiros. Então, a minha ideia era ter um trabalho que pudesse praticar em qualquer lugar para assim conseguir trabalhar e estudar ao mesmo tempo, e também que tivesse a opção de trabalhar no turno da noite e estudar durante o dia!

Após ter terminado a licenciatura em enfermagem em 2010,ouvi falar de uma nova escola de cinema na Jordânia. Inscrevi-me e fui aceite com uma bolsa de estudo! O meu sonho tornou-se realidade e, em 2012, formei-me com um mestrado em Estudos Cinematográficos do Instituto do Mar Vermelho de Artes Cinematográficas. E tenho trabalhado na indústria cinematográfica desde então. Trabalhei em diferentes cargos nos últimos 10 anos. O meu primeiro trabalho remunerado foi como faz tudo no set, depois fiz alguns trabalhos como assistente de direção, som e edição. Mas, com mais ou menos dificuldade, estava a ganhar dinheiro como editor freelance. A ideia de "200 Meters" começou há 10 anos na escola de cinema. A nossa professora de escrita pediu-nos para apresentar ideias interessantes para discutir na aula de escrita e ela pediu-nos para levar esta tarefa a sério porque, eventualmente, talvez pegaríamos numa dessas idéias e continuaríamos a trabalhar nela após a licenciatura e, realmente, foi isso que eu fiz!

It wasn't easy for me to study film directly after high school, because my family was against it at the beginning, and we also had no film school in Palestine at that time. So, I studied nursing for 4 years! I know nursing seems far from filmmaking, but my plan was that I would be able to work as a nurse anywhere in the world as I knew that there is a global shortage of nurses. So, my idea was to have a job that I can practice anywhere so that I can work and study at the same time, and also that I have the option of working a night shift and studying during the day!

After I graduated from nursing school in 2010, I heard about a new film school in Jordan, I applied and got accepted with a scholarship! My dream came true and then in 2012, I graduated with an MA in Cinematic Studies from the Red Sea Institute of Cinematic Arts. And I have been working in the film industry since then. I worked in different positions in the past 10 years. My first paid job was a daily runner, then I did some assistant director, sound and editing jobs. But more or less I was mostly earning my bread from working as a freelance editor. The idea for "200 Meters" started 10 years ago in the film school. Our writing professor asked us to present interesting ideas to discuss in the writing class and she asked us to be serious about it because eventually maybe we would pick up one of those ideas and continue working on it after graduation, and I did!


PC – Quais foram os principais desafios que enfrentou para criar "200 Meters"/ What were the main challenges you faced to bring “200 Meters” to life?


Ameen Nayfeh - O primeiro desafio para mim foi encontrar o tom certo para contar a história. Lutei com a minha própria escrita no sentido de encontrar o equilíbrio, já que queria ser honesto com a história, mas também queria torná-la atraente e compreendida por um público internacional. O segundo desafio foi o financiamento do filme que, em alguns momentos, foi um processo muito deprimente. Mas felizmente fomos persistentes e sabíamos que tipo de história é queríamos contar e, portanto, encontramos os nossos parceiros.

O maior desafio acabou por ser rodar o filme em 22 dias, porque esse era o número máximo de dias que podíamos pagar. Não consegue imaginar como é que é filmar um road movie em mais de 35 locações em apenas 22 dias! Então, sim, foi realmente desafiante. A outra dificuldade foi a minha intenção em filmar em locais reais, como perto da parede e pontos de verificação reais, e isso também foi uma grande aventura porque não se consegue uma licença para filmar lá, então tivemos que fazer planos muito inteligentes para que funcionasse.

The first challenge for me personally was to find the right tone to tell the story, I struggled with the writing in the sense of finding the balance where I wanted to stay honest to the story but also make it appealing and comprehended by an international audience.  The second challenge was the financing of the film which was getting very depressive at many moments. But luckily we were persistent and we knew what kind of story we wanted to tell and therefore found our partners.

The biggest challenge was to shoot the film in 22 days because that was the maximum number of days that our production could afford. Can you imagine shooting a road film in more than 35 locations in just 22 days! So, yes it was really challenging. The other difficulty was that I wanted to shoot in real locations like next to the wall and real checkpoints, and that was also a big adventure because you can not get a permit to film there so we had to make very smart plans to make it work.


PC – "200 Meters" é o representante da Jordânia na categoria de Melhor Filme Estrangeiro dos Óscares. Como recebeu esta notícia? E o que significa esta seleção para si?/ “200 Meters” is Jordan’s 2021 selection for the Foreign Film Oscar. How did you get the news? And what does this selection mean to you?


Ameen Nayfeh - Li o e-mail de seleção umas 20 vezes para perceber que era realmente verdade! Também estou muito feliz por representar a Jordânia nos Óscares. Como já disse  cresci entre a Jordânia e a Palestina e tenho a cidadania de ambos os países. Estudei cinema na Jordânia e o argumento nasceu lá também. E, por isso, dedico esta honra a todo o corpo docente, equipa e ex-alunos do Instituto de Artes Cinematográficas do Mar Vermelho. E um grande agradecimento especial à Royal Film Commission of Jordan, que tem feito parte dessa jornada desde que ela começou há 7 anos! A seleção e sua repercussão na imprensa deixam-me muito feliz e animado, mas também stressado. Agora sei que tenho que ter muito cuidado com o meu próximo projeto.

I read the selection email 20 times to realise it was true! I am also very happy to represent Jordan in the Oscars. As I said before, I grew up between Jordan and Palestine and I hold the citizenship of both countries. I studied film in Jordan and the script was born there as well.  I dedicate this to the whole faculty, team and alumni of the Red Sea Institute of Cinematic Arts. And a big special thanks to the Royal Film Commission of Jordan who has been part of this journey since it started 7 years ago! The selection and its presence in the media makes me very happy and excited, but stressed as well. I now know that I have to be very careful with the next project.


PC –  É impossível escapar ao forte tema deste filme, onde a questão da Palestina é explorada através do drama pessoal de um pai que tenta se reunir com o seu filho. O que espera que o público possa retirar deste filme e da sua mensagem?/ It’s impossible to escape the strong theme of this film, where the Palestine issue is explored via the personal drama of a father trying to reunite with his son.  What do you hope the audience can take away from this film and its strong message?


Ameen Nayfeh - Tudo o que eu sempre quis foi levar o público a um ponto em que fizessem duas perguntas simples: Por que isto ainda está a acontecer hoje, em 2020? E estamos satisfeitos com isto?

All I wanted was to bring the audience to a point where they ask two simple questions: Why is this still happening today in 2020? And are we OK with it?


PC –  Esta a trabalhar em alguma coisa neste momento? E como é que o Covid-19 impactou a sua carreira? Are you working on something new at the moment? How did the Covid situation impact your career? 


Ameen Nayfeh -  Estou a trabalhar num novo argumento que conta a história de um menino de uma família de expatriados disfuncional que procura um sentimento de inclusão, mas só o encontra no mundo virtual e nas redes sociais. Mas quando viaja para passar as férias de verão na Jordânia - o país do seu pai - ele trava uma amizade extraordinária com um homem idoso e começa uma aventura que se tornaria um conto de amadurecimento que nos leva através das montanhas da Jordânia e mitos e ruínas esquecidos.

A situação desagradável do COVID afetou muito o processo de pós-produção, mas conseguimos ultrapassar os desafios e completar o filme. Também resultou no cancelamento de muitos festivais e transformou alguns festivais em espetáculos online. Esta é uma triste notícia para todos os cineastas, porque sempre aspiramos exibir os nossos filmes e estar com o público para poder mergulhar nas acaloradas discussões e reflexões sobre os nosso projetos.

I am working on a new script that tells the story of a boy from a dysfunctional expat family, searching for a sense of belonging, but only finding it in the virtual world and social media. But when he travels to spend his summer vacation in Jordan - his father's country - he strikes an extraordinary friendship with an old man, and he starts an adventure that would become a coming of age tale that takes us through the Jordanian mountains and forgotten myths and ruins. 

The COVID situation affected the post production process big time, but we managed to pull it off and deliver the film. It also resulted in the cancellation of many festivals and turned a handful into online gigs. This is sad news to every filmmaker because we always aspire to screen our films, and be with the audience to be able to immerse in the heated discussions and reflections about our projects.


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