Entrevista a Anne Paulicevich, Autora do Argumento e Co-Realizadora de "Working Girls", Um Sublime Drama Sobre a Força Feminina Que Representará a Bélgica nos Óscares


Anne Paulicevich surpreendeu em 2020 com o lançamento de "Working Girls, um drama para o qual escreveu o argumento e acabou por realizar ao lado de Frederic FonteyneTrata-se de um forte e comovente filme que lança um novo olhar sobre a prostituição e as mulheres que dependem desta profissão para darem uma vida minimamente digna às suas famílias. A qualidade do filme saltou à vista junto do Comité de Seleção da Bélgica que escolheu "Working Girls" para representar o país na categoria de Melhor Filme Estrangeiro dos Óscares em 2021. Uma seleção justíssima por tudo o que este filme pretende representar. Falamos com Anne Paulicevich sobre o que representa este filme para a sua carreira, mas sobretudo o que representa para as Mulheres e para o tema que é explorado de forma tão magistral por este drama que tem potencial para mudar mentalidades e ideias pré-concebidas.


Anne Paulicevich 
surprised the Film Community in 2020 with the release of "Working Girls", a drama for which she wrote the script and ended up directing alongside Frederic Fonteyne. It's a strong and moving film that takes on a new approach at prostitution and women who depend on this profession to give their families a more dignified life. The quality of the film caught the attention of the Selection Committee of Belgium, which chose "Working Girls" to represent the country in the category of Best Foreign Film in the 2021 Oscars. A very just selection for all that this film aims to represent and for all the messages it can transmit. We spoke with Anne Paulicevich about what this film represents for her career, but above all what it represents for Women and for the theme that is so masterfully explored by the film. "Working Girls" truly has the potential to change pre-conceived minds and ideas. 


Entrevista a Anne Paulicevich, Autora do Argumento e Co-Realizadora de "Working Girls", Um Sublime Drama Sobre a Força Feminina Que Representará a Bélgica nos Óscares

 Everyday, three sex workers cross the border from France into Belgium to practice their trade. At the end of one particularly hot summer, all three share a secret that will bind them together forever.


PC – Tem desempenhado alguns papéis interessantes como atriz, mas recentemente teve uma nova experiência como realizadora com de “Working Girls”? Como  descreve essa experiência e o que o levou a apostar na direção de filmes?/ You’ve been doing some interesting roles as an actress, but recently you experienced with directing with “Working Girls”? How do you describe this experience and what led you to try directing?


Anne Paulicevich - Passei de representar a escrever argumentos. Foi graças a "Working Girls" que escrevi o meu primeiro argumento e isso levou-me a assumir o cargo de realizadora também, ou mais exatamente de co-realizadora. Inicialmente estava planeado que Frederic Fonteyne iria realizar "Working Girls" sozinho. Ele é um cineasta que respeito pela sua delicadeza, pela sua visão do mundo e pelo seu talento como ator e diretor. Ele também é o meu apaixonado companheiro de vida ;)

Como a história estava tão perto do meu coração, porque conheci as mulheres que confiaram em mim para contar as suas histórias, porque eu estava tão envolvida no projeto (porque estava também envolvida na direção artística do filme) ficou claro que também deveria compartilhar esta função. Além disso, as atrizes que fizeram parte de "Working Girls" sentiam-se mais confortáveis se pudessem falar com uma mulher em certas cenas, então nós apenas encontramos um equilíbrio enquanto trabalhamos com Frédéric.


I went from acting to writing scripts. With Working Girls, I started with the script writing and it led me to take on the direction as well, or more exactly the co-direction. Originally, Frederic Fonteyne was set to direct on his own, a director I respect for his delicacy, his view on the world, and his talent as an actor director. And he is also my partner in love ;)

Because the story was so close to my heart, because I met the women who gave me their trust to tell their stories, because I was so involved in the project (I was doing all artistic direction of the movie) it became quite natural to share this role. Also the actresses felt more comfortable speaking to a woman for certain scenes, so we just found an equilibrium while working with Frédéric.


PC – Também escreveu o argumento de “Working Girls”. Como teve a ideia para criar este filme e foi difícil transportar o argumento para o cinema?/ You also wrote the script for “Working Girls”. How did you come up with the idea for this film and it was difficult to transport the script to the screen?


Anne Paulicevich - Sempre quis escrever sobre mulheres, sobre o heroísmo das mulheres. Muitas amigas ao meu redor são mães solteiras com filhos que lutam diariamente para manter a cabeça acima da água, sempre tentando sobreviver, nunca desistindo. Eu também tornei-me mãe. Quando fiquei grávida e descobri que ia ter uma menina, foi um choque: como pude trazer uma menina a este mundo onde sei, por ter vivido isso, que as mulheres são alvo de violência?

Nesse interregno encontrei um artigo num jornal que descreve a vida de mulheres que levam uma vida dupla. Essas mulheres cuidam dos filhos pela manhã antes de irem trabalhar, secretamente, como prostitutas. Eles cruzavam a fronteira todos os dias para fazerem o seu trabalho legalmente, mum bordel, a poucos quilómetros de onde moravam. Todas as peças do quebra-cabeça se encaixaram. Eu sabia que tinha de contar aquela história. Mulheres que trabalham, heroínas do mundo real que colocam comida na mesa da suas famílias ao cruzarem a fronteira franco-belga, todos os dias, juntas, para trabalhar mum bordel. Três mulheres que formam uma irmandade para sobreviver.

Mas depois de trabalhar no esboço, ficou muito claro para mim que não escreveria mais nenhuma palavra sem conhecer essas mulheres que levam esta vida dupla, como também teria que entrar num bordel para sentir a experiência. Tudo isto por causa de uma narrativa. Não queria fazer um filme baseado numa fantasia (masculina) do que é a prostituição. Mas ainda mais importante, do ponto de vista humano era uma questão de respeito, de respeito por essas mulheres. Passei por isso nove meses, dois a três dias por semana, num bordel administrado por uma jovem, um desses bordéis da Bélgica, na fronteira com o norte da França. Nunca fiz anotações, nem gravei nada. 

Nem precisei fazer perguntas: as respostas vieram espontaneamente, por si mesmas. Estava lá com elas, e elas compartilharam comigo as suas rotinas diárias, as suas histórias, as suas vidas….Todos os detalhes, tudo o que deu vida ao argumento veio das histórias dessas mulheres. Tornou-se minha responsabilidade, e de todo o elenco e equipa, fazer um filme que não traísse a confiança que eles nos deram para contar as suas histórias de vida.


I've always wanted to write about women, about women’s heroism. A lot of friends around me are mothers that live alone with children, struggling daily to keep their heads above water, always trying to make ends meet, never giving up. I also became a mother. When I was pregnant and I found that I was going to have a girl, it was a shock: How could I bring a girl in this world where I know, from having experienced it, that women are a target of violence?  

In the meantime, I came across an article in a newspaper describing the lives of women leading a double life. They would take care of their kids in the morning before going off to work, secretly, as prostitutes. They would cross the border every day to do their job legally, in a brothel, just a few kilometers from where they lived.  All the pieces of the puzzle came together. I knew that I had the story. Women who work, heroines of the real world who put food on the table for their families by crossing the French - Belgian border, every day, together, to work in a brothel, three women who form a sisterhood in order to survive. 

But after working on the outline of the script, it was really clear for me that I wouldn’t write further without meeting these women leading this double life, and without entering a brothel. For the sake of a narrative. I didn’t want to make a movie based on a (male) fantasy of what prostitution is. But even more important, from a human standpoint. It was a question of respect, of respect for these women.

I spent nine months in a brothel run by a young woman, one of these brothels in Belgium, on the border with the north of France. I went there two to three days a week. I never took any notes, nor recorded anything. I didn’t even need to ask questions: the answers came spontaneously, by themselves. I was there with them, and they shared with me their daily routines, their stories, their lives…. All the details, everything that brought life to the script came from these women’s stories. It became my responsibility, and that of all the cast and crew, to make a movie that would not betray the trust that they gave us by telling their life stories.


PC - Como foi trabalhar com o seu co-realizador Frédéric Fonteyne?/ How was working with your co-director Frédéric Fonteyne?


Anne Paulicevich - Nos fizemos muito trabalho de preparação  muito tempo antes do início das filmagens. Escolhemos cuidadosamente cada personagem para o filme, cada membro da equipa. Todos os chefes de departamento eram mulheres, e para o tema do filme, para a confiança das atrizes, e a forte ligação entre ficção e realidade, isto era muito importante.

Eu era esse link. Cada atriz, cada chefe de departamento veio comigo para conhecer as mulheres que trabalhavam no bordel. Foi novamente uma questão de respeito e sempre uma experiência intensa e avassaladora. 

Quando começamos a filmar, todos estavam prontos, com a mesma vontade forte de fazer este filme com a dignidade e a coragem que essas mulheres merecem. Em todos os níveis, seja em iluminação, cenário ou som, trabalhamos com um objetivo: as atrizes deveriam ter o máximo de liberdade possível para expressar uma forma de crueza. Entregamos-lhes muito espaço e tempo para improvisar, e foi um imenso prazer filmar.

We prepared a lot together, a long time before the shooting. We carefully chose every character for the movie, every member of the crew.  All the heads of department were women, and for the subject of the movie, for the confidence of the actresses, and the strong link between fiction and reality this was really important.

I was this link. Every actress, every head of department came with me to meet the women working in the brothel. It was again a question of respect and it was always an intense and overwhelming experience.

When we started shooting, everybody was ready, with the same strong desire to make this film with the dignity and courage that these women deserve.

On every level, whether speaking of lighting, scenery, or sound, we worked with one aim in mind: the actresses had to have as much leeway as possible so they could express a form of rawness. We left them a great deal of space and time to improvise, and that was an immense pleasure to catch on film.


PC – Quais foram os principais desafios que enfrentou durante a criação deste projeto?/ What were the main challenges you faced during the creation of this project?  


Anne Paulicevich -  Senti que o assunto era tabu. Era muito complicado ter prostitutas como heroínas sem glamorizar as suas vidas ou seu trabalho. E a nossa visão dessas mulheres que também podem rir, que estão vivas, que são complexas, era algo que incomodava os outros porque estávamos desconstruíndo estereótipos. Queríamos compartilhar o ponto de vista dessas mulheres que trabalham como prostitutas e não ceder à fantasia masculina do arquétipo da prostituta.

It felt like the subject was so taboo.  It was very complicated to have prostitutes as heroines without glamorizing their lives or their work. And our vision of these women who can also laugh, who are alive, who are complex was something that was disturbing to others because we were deconstructing stereotypes. We wanted to share the point of view of these women who work as prostitutes and not give in to a male fantasy of the archetype of a prostitute. 


PC – Uma parte importante para o sucesso do filme é o seu forte elenco feminino. Como é que o trio de protagonistas se envolveu neste projeto? E como foi trabalhar com as mesmas?/ A big part of the film's success is it’s amazing female cast. How did the lead trio of actresses got involved? And how was working with them? 


Anne Paulicevich - É importante para nós respeitar a verdade que estas mulheres nos confiaram. Poderíamos ter sido tentados a contratar prostitutas para se interpretarem a elas próprias. Mas era impossível, porque essas mulheres estavam a esconder as suas vidas duplas das suas famílias. Precisávamos de atrizes, grandes atrizes, que tivessem um motivo muito forte para fazer o filme. Mulheres que investiram realidade e sinceridade no projeto de forma humana e artística.

Cada uma delas leu o argumento e quis fazer o filme. Para Sara (Forestier), foi também uma declaração política, porque ela está também muito envolvida nas questões feministas. Foi uma experiência muito intensa e demos-lhes liberdade para encontrarem sua própria verdade na sua atuação. As três deram muito aos seus papéis e trouxeram uma energia distinta ao filme. Eu acho que elas são incríveis.

It was important to us to respect the truth that these women had entrusted us with. We could have been tempted to cast real prostitutes to play themselves. But it was impossible because these women were hiding their double lives from their families. We needed actresses, great actresses, who had a very strong reason to do the film. Women who had a real and sincere investment in the project, both humanly and artistically. 

Each of them read the script and wanted to do the film. For Sara (Forestier), it was also a political statement because she is very engaged in feminist issues. It was a very intense experience and we gave them freedom to find their own truth in their acting. The three of them gave so much to their roles and brought a distinctive energy to the movie.  I think they are amazing.


PC - O filme foi selecionado como o candidato da Bélgica ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Como acha que esta seleção vai ajudar na divulgação do filme?/The film was selected as Belgium’s Oscar Entry for the Best Foreign Film Oscar. How how do you think this selection will help in the promotion of "Working Girls"?


Anne Paulicevich - Sentimos que a Bélgica foi muito corajosa por escolher "Working Girls" e isso pareceu uma declaração. Ficamos muito felizes e orgulhosos! A seleção certamente ajudará o filme a ser visto por mais pessoas e, com sorte, abrirá algumas discussões.

We felt that Belgium was so courageous in choosing Working Girls and it felt like a statement. We were so happy and proud! The selection will definitely help the film be seen by more people and hopefully will open up some discussions.


PC – O filme explora um tema muito polémico, mas infelizmente recorrente em nossa sociedade. O que a levou a explorar o angulo da prostituição e os dramas humanos associados a esta temática?/ The film explores a very controversial but unfortunately recurrent theme in our society.  What led you to explore the prostitution angle and the human dramas associated to it?


Anne Paulicevich - A prostituição é uma fantasia recorrente no cinema, mas tem sido tratada pelo olhar masculino e sentimos que estávamos a mostrar uma coisa nova: o quotidiano das mulheres que trabalham como prostitutas, que cruzam a fronteira para fazerem o seu trabalho legalmente. O filme não é sobre uma jovem prostituta à espera de ser salva, é sobre mulheres poderosas, cheias de humor, que lutam pela sua dignidade e ajudam-se mutuamente para se manterem vivas, é sobre colegas que se tornam amigas para sobreviver e se salvar.

Prostitution is a recurrent fantasy in film,  but it has been treated through the male gaze and we felt like we were showing something new: the daily lives of women who work as prostitutes, who cross a border to do their job legally. The movie is not about a young prostitute who is waiting to be saved, it is about women who are powerful, full of humor, fighting for their dignity, and helping each other to stay alive, it is about colleagues who become friends in order to survive and to save themselves.  


PC - Que mensagens espera transmitir ao espectador?/ What messages to you hope it can convey to the audience?

Anne Paulicevich - Além da história delas, o que o filme conta é como a solidariedade pode ser criada até mesmo nos piores lugares e nas piores circunstâncias. Ninguém consegue fazer isto sozinho no seu canto. No entanto, se alguém levantar a cabeça por um minuto para dar uma olhada ao redor e perceber que o seu vizinho está a lutar tanto quanto ele ou ela, então eles podem lutar juntos.

E, claro, esperamos, como todas as vez que fazemos um filme, que ele possa ajudar a ver o mundo de maneira diferente. Uma vez, uma das trabalhadoras do sexo que conheci disse-me “Espero que as pessoas nos vejam de forma diferente depois de ver este filme”.

Beyond their story, what the film recounts is how solidarity can be created in even the worst places and in the worst circumstances. No one can make it alone in their corner. Yet, if one lifts one’s head for a minute to have a look around and realizes that their neighbor is struggling as much as he or she is, then they can fight together.

And of course, we hope, like every time we make a movie, that it can help to see the world differently. Once, one of the sex workers I met told me “I hope that people will see us differently after watching this movie”. 


PC – Está a trabalhar em algo de novo neste momento?/ Are you working on something new at the moment?

Anne Paulicevich  - Sim, estamos a trabalhar juntos (Frédéric Fonteyne e Anne Paulicevich) num novo filme que será sobre homens desta vez! 

Yes, we are working on a new film together (Frédéric Fonteyne and Anne Paulicevich), that will be about men this time! 












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