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Crítica - Frankenweenie (2012)

 
Realizado por Tim Burton
Com Charlie Tahan, Catherine O’Hara, Martin Short, Winona Ryder, Martin Landau

Da última vez que Tim Burton trabalhou nesta história de traços quase autobiográficos sobre um rapaz introvertido que decide ressuscitar o seu cão, a Disney acabou por despedi-lo. Na altura Burton ainda era um zé-ninguém. E como apresentou uma fita macabra depois de lhe ter sido encomendada uma história para crianças de todas as idades, o seu cabelo desgrenhado acabou no olho da rua. Muitos anos mais tarde e com o estatuto de realizador de culto a abrilhantar o currículo, porém, eis que Burton regressa a esta história reconhecidamente pessoal. E desta vez não há quem tenha o atrevimento de o despedir. Pois, por estes tempos, a Disney praticamente lhe beija os pés à sua passagem. E com outro tipo de recursos e toda uma experiência de inúmeras fitas de sucesso por detrás, o realizador mais excêntrico do mundo transformou a sua curta-metragem de cariz experimental numa película de astronómicas ambições, que decerto se tornará uma obra de culto com o passar dos anos. “Frankenweenie” pode não ser tão mágico e irreverente quanto esperávamos, ficando mesmo a anos-luz da qualidade do sobejamente elogiado “The Corpse Bride”. Todavia, não deixa de ser um filme encantador e detentor de um enorme coração, despoletando tantas gargalhadas como lágrimas agridoces. 

 

Victor Frankenstein (Charlie Tahan) é um rapazinho tímido e diferente de todos os miúdos da sua idade. A vila onde vive – New Holland (uma espécie de Hollywood ainda mais surreal do que a verdadeira) – possui a sua quota-parte de personagens bizarras (ou não estivéssemos num filme de Burton, o mestre do bizarro), cada uma mais estranha e inadaptada que a anterior. Mas mesmo neste cenário de absoluto desvario, Victor consegue destacar-se como o mais inadaptado e solitário de todos. O seu único grande amigo é Sparky, o enérgico e amoroso cão da família Frankenstein. Conjuntamente com Sparky, Victor realiza filmes de terror caseiros e joga à bola no jardim das traseiras, isolando-se do mundo em redor e dos que nele vivem. E isso não o incomoda de todo. Porém, num dia aparentemente normal, Sparky é atropelado por um carro em alta velocidade e Victor tomba num estado de depressão profunda. Os pais dizem-lhe que o cãozinho viverá para sempre no seu coração, mas Victor quer Sparky a seu lado e não no coração. E é então que uma aula de ciências do visionário professor Rzykruski (Martin Landau) lhe dá a ideia de ressuscitar o cão com recurso a grandes descargas de eletricidade oriundas da trovoada. Uma ideia que funciona às mil maravilhas, mas que acaba por afetar a vida de toda a população da maneira mais inesperada…

   

Pode dizer-se que o stop motion, pelas suas propriedades caracteristicamente bizarras, assenta que nem uma luva a esta história tão macabra quanto enternecedora. O 3D já é outra história (pois pouco ou nada se nota). Mas o stop motion parece ter sido criado de propósito para o génio de Burton e para as suas películas do outro mundo. Se tivesse sido concebido em CGI, “Frankenweenie” não teria nem um terço do impacto que tem sobre o espectador. E a união do stop motion ao visual a preto-e-branco transforma este filme numa verdadeira obra de culto, já que faz com que ele se afirme como uma homenagem de peso a todos os filmes de terror das décadas de 60/70. O último terço da película leva a narrativa numa direção inesperada, mas é aí que o filme se torna mais divertido, mais marcante e mais icónico. Não é por acaso que Burton pisca o olho a todos os grandes monstros do cinema da velha guarda, desde o Godzilla japonês ao puro lobisomem americano. De forma bem vincada, Burton aproveita-se da narrativa de “Frankenweenie” para prestar homenagem aos filmes que o inspiraram durante a infância e que certamente contribuíram (e muito!) para o homem que ele é atualmente. De certa forma, esta obra transforma-se então numa carta de amor aos filmes de terror de meados do séc. XX, e o resultado final é assombroso. Os fãs de Burton não terão muito com que se queixar, pois este é bem capaz de ser o filme mais admirável do realizador desde “Sweeney Todd”. Só é pena que muitas personagens sejam excessivamente monocórdicas (como o próprio Victor, que parece nunca mudar de tonalidade emocional) e que o seu background não seja tão aprofundado quanto seria desejável. Nota-se que este ainda não é o Burton que todos conhecemos, o Burton na sua melhor forma. Mas, apesar de tudo, duas ou três destas personagens são suficientemente fortes para permanecerem na memória por muitos e bons anos, e é impossível não encarar com carinho um filme que conta uma história de valores tão nobres e amorosos. Não é um assombro completo, mas é um filme a ver e rever. 

 Classificação – 4 Estrelas em 5

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1 Comentários

  1. Tim Burton não desilude, sempre ao seu estilo.

    Uns adoram-no e idolatram-no, outros dizem que é aberração cinematográfica.

    Ainda bem que sou da opinião dos primeiros.

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