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Crítica - The Great Gatsby (2013)

Realizado por Baz Luhrmann
Com Carey Mulligan, Tobey Maguire, Joel Edgerton

O eterno romance de F. Scott Fitzgerald nas mãos do excêntrico Baz Luhrmann só podia dar nisto. Esqueça as versões clássicas a que possa ter assistido no passado, pois elas pouco ou nada têm a ver com esta nova e arrojada visão moderna. Nas mãos de Luhrmann, “The Great Gatsby” é espetáculo visual e sonoro do início até ao fim, um espetáculo gigantesco e por vezes descontrolado onde a cor ganha uma nova dimensão e a música floresce com novos significados. Não seria de esperar outra coisa do realizador de “Moulin Rouge” e “Romeo + Juliet”. Tal como nesses filmes, Luhrmann desconstrói a obra de base e as limitações do realismo para dar vida a sequências musicais eletrizantes e audaciosas, privilegiando o espetáculo em detrimento do bom senso. Os anos 20 podem ter sido marcados pelo jazz e pela música clássica, mas aqui imperam o hip-hop, a música pop espalhafatosa e até mesmo sonoridades tecno dignas de uma discoteca atual. Luhrmann vê os anos 20 como uma época de loucura e devassidão (pelo menos para os abastados), e encara as festas de Gatsby como festejos primaveris de estudantes universitários em férias. Estava à espera de quê? De ver Gatsby a dançar a valsa com o amor da sua vida? Nada disso. Aqui toda a gente abana o capacete ao som de house music enquanto despeja champanhe pela goela abaixo. O público de uma faixa etária mais elevada poderá ficar escandalizado com esta abordagem moderna ao conto clássico de Fitzgerald, mas os fãs de Luhrmann decerto reconhecerão a veia irreverente do cineasta australiano e sairão da sala a sonhar com a luz verde do outro lado do rio.

 

O argumento não é o ponto mais forte desta obra, já que oscila entre fascinantes momentos de imensa ternura e momentos de total desvario narrativo. Ainda assim, e apesar de nunca causar o impacto que seria desejável, mantém-se interessante até ao fim e permite que algumas personagens brilhem bem alto em dois ou três momentos de grande tensão emocional. Nick Carraway (Tobey Maguire) é um jovem que abdica do sonho de se tornar escritor para mergulhar numa aventura pelo mundo da banca. Por obra do acaso, acaba por se fixar na modesta residência adjacente ao palácio de um misterioso milionário que dá pelo nome de Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio) e que organiza festas de arromba todos os fins-de-semana. Por intermédio de Jordan Baker (Elizabeth Debicki) – uma mulher com todos os tiques da aristocracia de então –, conhece finalmente o intrigante milionário numa festa como tantas outras e trava amizade imediata com ele. Nick apercebe-se então que Gatsby pretende aproximar-se da sua prima Daisy (Carey Mulligan). E é ao promover os constantes encontros com Daisy que Nick vai absorvendo as particularidades do misterioso e obscuro passado de Gatsby… 

 

Feitas as contas, “The Great Gatsby” é um filme satisfatório, muito embora não possua grande consistência. É visualmente arrebatador e consegue também ser muito divertido, mas nunca se torna o grande filme que poderia (e deveria) ser. Isto acontece um pouco por culpa de Luhrmann. É Luhrmann que o torna um espetáculo visual de contornos diferentes de tudo aquilo que estamos habituados a ver, graças à sua irreverência e à sua busca incessante pelo excêntrico. Mas é também Luhrmann que descontrola a narrativa com os seus excessos artísticos, retirando credibilidade a algumas personagens e destruindo a solidez de uma história com demasiados avanços e recuos. DiCaprio está bem na pele de Gatsby, embora cometa alguns exageros que prejudicam a imagem da personagem. Luhrmann quis transformar Gatsby num menino perdido de amores que quase se urina pelas pernas abaixo quando encontra a sua amada. Isto leva a que Gatsby se torne uma personagem quase cómica, retirando-lhe brilho e credibilidade. Apesar deste pequeno defeito, Gatsby nunca deixa de ser interessante e DiCaprio deixa transparecer as suas emoções, obsessões e inseguranças com uma facilidade tremenda, oferecendo-nos mais um grande papel. Carey Mulligan e Joel Edgerton também cumprem os seus papéis com excelência, mas o mesmo não pode ser dito de Tobey Maguire. O ator parece um pouco perdido durante a maior parte do tempo, não conseguindo descolar-se de interpretações passadas e falhando em transmitir a dose necessária de perdição a Nick Carraway. Mas “The Great Gatsby” é mesmo assim: um filme de altos e baixos, uma obra onde alguns brilham e outros não, uma película onde certas coisas funcionam e outras… nem por isso. Fica, portanto, uma imagem globalmente positiva desta versão moderna de Gatsby, mas também a sensação de que poderia ter sido feito mais e melhor. 

 Classificação – 3,5 Estrelas em 5

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2 Comentários

  1. Concordo plenamente com esta opinião!!

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  2. Algumas criticas que já li e não apenas deste filme, apenas se limitam e preocupam-se em colocar abaixo e salientar sem dó nem piedade os defeitos do filme em questão.
    Aqui, para além da critica estar bem feita, está com dignidade e respeito, sem ter a necessidade de ridicularizar ou fazer grande "espalhafato" em elogiar o filme (se fosse o caso).
    Assim, merece sem dúvida os parabéns pela excelente critica.

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