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Crítica - Grand Budapest Hotel (2014)

Realizado por Wes Anderson 
Com Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham 

É sempre um prazer singular e peculiar assistir a uma película realizada por Wes Anderson, mas admito, sem qualquer problema, que os seus filmes são um gosto adquirido, porque nem todos conseguem apaixonar-se de imediato pelo estilo bem particular e singular deste ainda jovem cineasta, que tem vindo a subir de nível nos últimos anos, como comprova o belo, romântico e tocante “Moonrise Kingdom” (2012), ou este bem humorado e surpreendentemente incisivo “Grand Budapest Hotel”, que ilustra, mais uma vez, a brilhante capacidade que Wes Anderson tem para criar filmes visualmente magníficos, com um apaixonante toque subtil de profundidade moral e intelectual. A intriga deste genial projeto acompanha a luta por justiça de Gustave H, um dedicado concierge num luxuoso hotel situado num país fictício que, a certa altura, é apanhado no meio de uma intriga criminal que envolve homicídio e roubo. Ao ser injustamente acusado destes crimes hediondo, Gustave parte numa demanda para limpar o seu bom nome e salvar o seu hotel preferido da ruína que se avizinha, provocada pela ameaça de guerra mundial e pela própria controversia do caso, podendo apenas contar para isso com a ajuda do fiel Zero Moustafa, um jovem aprendiz de concierge, que parece ser a única pessoa que acredita nele. 
Esta breve sinopse desvenda, em traços genéricos, a camada mais superficial de “Grand Budapest Hotel”, que na sua génese é portanto uma espécie de comédia policial, onde o protagonista, uma vitima inocente, tenta provar que não é culpado do que é acusado, tentando também pelo meio descobrir os responsáveis pelos crimes de que é acusado. É claro que o guião deste projeto vai muito além desta simples trama, porque para além dos óbvios elementos policias que envolvem uma intriga com um certo mistério, “Grand Budapest Hotel” brinda o público com uma dose rica e bem chamativa de humor leve e adulto, que por vezes deriva para a sátira e ironia, mas sempre com um toque de sofisticação impressionante, que nunca descai no facilitismo ou no excesso. É claro que isto não significa que não aja aqui um certo aspeto de surrealismo e fantasia, porque tal aspeto existe e até de uma forma pronunciada, mas assim é o estilo peculiar de Wes Anderson, que consegue transformar uma intriga previsivelmente banal e leve, em algo transcendente ao nível de tudo aquilo que mais se deseja mas menos se espera. Há portanto no seio do seu guião um humor categórico e singular, que mergulha todos os poros deste projeto numa onda de sentimentos alegóricos, cómicos e perspicazes que nunca se tornam desconfortáveis ou cansativos, porque Anderson consegue conferir-lhes aquele toque de magia e compenetração que os torna simplesmente deliciosos de qualquer ponto de vista. 



Esta complexa leveza de “Grand Budapest Hotel” é mágica, mas é propositada. É graças a esta competente componente que Anderson consegue também incluir, ao longo de todo o filme, pequenos mas explosivos mecanismos dramáticos e humanos, que apelam a um lado mais filosófico e intelectual do espectador, seja através de paralelismos políticos e da guerra que reforçam a precariedade da situação socioeconómica ou a instabilidade bélica que reina entre nós, seja através de detalhes mais humanos e sensitivos, que reforçam a precariedade de tudo o que nos rodeia, bem como as raízes da compaixão e da coragem humana. Este extravagante balanço entre um thriller policial, uma comédia singular e um drama politico torna este projeto numa experiência sem igual, que tanto apela à nostalgia de outros tempos, como aos sentimentos agridoce do presente, mas sempre com uma apelativa dose de boa disposição pelo meio. É porque apesar de ser, para todos os efeitos, uma comédia, pode-se também dizer que “Grand Budapest Hotel” é uma dramédia ou um thriller, porque qualquer distinção lhe fica bem, já que estamos perante um filme completo e versátil que, apesar de todas as misturas, apresenta sempre, do início ao fim, um enredo pleno de significado e organizado por uma estrutura sublime.
É pertinente também falar das personagens do filme, os grandes protagonistas de uma intriga fascinante e bem humorada, que também se torna assim tão cativante graças à força, criatividade e dinamismo das personagem que a protagonizam, porque é nelas que reside muita da magia e peculiaridade desta produção. Para além de criar um excelente espetáculo visual, Wes Anderson também consegue criar e moldar personagens inesquecíveis com características bem particulares, como é o caso, por exemplo, do protagonista Gustave, que se nota à distância, que é uma personagem de um filme de Wes Anderson, porque tem aquele carisma estranho adequado à loucura das histórias dos seus projetos. E quem fala de Gustav, pode também falar de personagens como Dimitri ou Agatha, também elas bem particulares e dignas do estilo mágico de Wes Anderson que, como já é habitual, entrega estas suas personagens de qualidade a atores de igual qualidade, sendo por isso que em “Grand Budapest Hotel” ninguém consegue encontrar uma performance fraca ou deslocada, porque todo o elenco, composto principalmente por grandes estrelas do mundo do cinema, foi escolhido a dedo por um realizador que sabe o que quer e que, acima de tudo, sabe com o que pode contar da matéria prima que tem à mão. 


Já faltam palavras positivas para descrever a perfeição deste projeto, que junta portanto um argumento deliciosamente complexo e cheio de parábolas humanas e sociais com toques de humor e criatividade, a uma componente visual absolutamente espetacular, cheia de pormenores intensos que refletem o potencial criativo de um realizador que nunca nos desilude com o seu trabalhado e detalhado estilo técnico. E que ninguém duvide que “Grand Budapest Hotel” é, efetivamente, um filme magistral do ponto de vista técnico, porque ninguém, no seu perfeito juízo, pode discordar deste ponto, já que tudo, desde a nostálgica fotografia à composição dos cenários mágicos, passando pela beleza da banda sonora e à mestria da maquilhagem e guarda roupa das personagens, é digno dos máximos elogios, ou seja, tudo que tem origem técnica, é digno de um destaque de excelência, algo que até pode ser comprovado pelos seus belos e curiosos elementos promocionais. É assim que, durante o primeiro semestre do ano, chegou a Portugal, à Europa e aos Estados Unidos um dos grandes filmes deste ano, que pela sua qualidade e óbvia originalidade, merecia porventura mais relevo junto do público, porque para ser franco, vejo grande potencial neste filme para ser um dos nomeados ao Óscar de Melhor Filme em 2015 e, se tivesse estreado em 2013, e a julgar apenas por todos os candidatos que concorreram ao Óscar de Melhor Filme este ano, podem ter a certeza que "Grand Budapest Hotel" daria uma bela luta a "12 Years a Slave" e "The Wolf of Wall Street" no campo de Melhor Filme, bem como concorreria taco a taco com "Gravity" e "The Grat Gatsby" nas categorias técnicas, sim este filme é assim tão bom.


Classificação - 4,5 Estrelas em 5

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3 Comentários

  1. Concordo em absoluto. Um filme que se gosta ou não se gosta. Eu gostei imenso. Foi uma lufada de ar fresco. Nunca tinha visto um filme de Wes Anderson. Mais um para a minha lista de favoritos.

    Como o João diz, por outas palavras, um elenco de luxo, uma interpretação fabulosa e uma intriga completa que retrata surrealisticamente a realidade da solidão (Madame D.), a devoção ao trabalho (Gustave H), a amizade e a fidelidade (Zero), a ovelha negra da família (Jopling), fazendo o “dirty job” das restantes ovelha negras camufladas, entre outras realidades, e obviamente a mais notória, a da ganância da família, a qual só aparece em magote quando um dos parentes morre, tudo envolto num cenário “quase” Felliniano, diria, não? Digo “quase”, porque nunca apreciei os filmes de Fellini, mas deste, do Wes, apreciei, e bastante. Adorei a subtileza requintada do humor negro ajustado nos longos e explicativos diálogos sérios e nas expressões e trejeitos faciais (quando retiram o quadro da parede e colocam outro, por exemplo); as longas explicações dos porquês estão o máximo, como aquela em que Gustave explica ao Zero o que lhe aconteceu na prisão! :)
    Ou seja, um filme recomendado.

    Lúcia

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  2. Pois, eu discordo totalmente do que é dito sobre este filme na critica do João Pinto. Acho este filme, um mau filme.Pode ser original mas isso não faz dele um bom filme. Tirando a componente técnica o filme é um lástima. Já vi 3 filmes de Wes Anderson. Todos eles são maus. Na minha opinião, claro.

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