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Pérolas Indie - Joe (2013)

Pérolas Indie - Joe (2013)
Realizado por David Gordon Green 
Com Nicolas Cage, Tye Sheridan, Heather Kafka 
Género - Drama

Sinopse - Joe Ransom (Nicolas Cage) é um antigo preso que vive agarrado ao passado. Afundado no fundo da garrafa e amargurado com a vida, Joe tena apenas focar-se no seu trabalho de líder numa madeireira, procurando assim levar uma vida simples e sem problemas. Durante o seu período de trabalho, Joe conhece Gary (Tye Sheridan), um jovem que procura desesperadamente por trabalho para conseguir sustentar a sua família, que está na lama por causa do seu pai alcoólico. O veterano ex-recluso decide proteger e cuidar do rapaz, oferecendo-lhe um trabalho e tornando-se na figura paternal que ele sempre desejou ter.

Crítica - Antes de chegar às salas de cinema, "Joe" passou por vários festivais de cinema de renome internacional, sendo de destacar a sua presença nas prestigiadas seleções oficiais dos festivais de Veneza (Itália), Toronto (Canadá), Deauville (França), Rio de Janeiro (Brasil), Dubai (Emirado Árabes Unidos), Zurique (Suiça) e Dallas (Estados Unidos da América). Esta gloriosa passagem de "Joe" pelo circuito global de festivais de cinema assentou-lhe perfeitamente e resultou de uma preparação pormenorizada por parte dos seus produtores, que se aperceberam desde logo que esta adaptação cinematográfica do livro homónimo de Larry Brown é, no fundo, uma produção direcionada em grande parte para o grande público dos festivais, não sendo propriamente um daqueles típicos filmes de sala de cinema. E não é preciso ser-se muito astuto ou entendido para tirar esta conclusão, já que salta de imediato à vista de todos que "Joe" está longe de ser um filme fácil de perceber ou até de agradar ao grande público. É um drama pesado, lento e susceptível que mexe com temáticas pesadas e dignas de um reflexão psicológica forte. É claro que acredito piamente que tais reflexões sejam muito mais proeminentes no livro, mas esta versão cinematográfica também tem certos méritos, sobretudo na forma como constrói e desenvolve uma relação triangular que tem como vértice central o jovem Gary, um rapaz maduro para a sua idade que tenta lidar como pode com as dificuldades da vida, procurando no duro e solitário Joe uma figura paternal de relevo, já que Wade, o seu próprio pai, nunca lhe conseguiu dar a vida que ele sempre quis, já que o grande amor de Wade é o álcool, e não o seu filho.
As interacções de Joe e Wade com Gary representam a força vital e dramática de "Joe". Estas três personagens aparecem, aliás, perfeitamente montadas no seio de um argumento pesado e potencialmente moralista, onde a figura do paternalismo é sempre uma constante, seja num lado positivo ou num lado negativo, sendo certo que não existe nenhuma exteriorização facilitista do bom e do mau, apenas um retrato humano de dois homens sem qualquer instinto paternal que, por força das circunstâncias, têm uma relação bastante especial e particular com o jovem protagonista, que apenas quer alguma direção concreta na sua vida já sem qualquer inocência. A força das personalidades dos três intervenientes dá azo às complexas relações pessoais que os prendem numa mescla singular de sentimentos paternais e beligerantes de onde saem reforçados vários pontos curiosos e cruciais, que tanto elevam o antagónico Joe a uma posição mais benéfica do ponto de vista moral, como entregam, no final, ao inicialmente repugnante Wade uma certa desculpabilização, que até é reconhecida pelo próprio protagonista. É claro que pelo meio do filme existe uma espécie de intriga criminal algo irregular, mas que existe para ajudar a potenciar a necessidade de proteção por parte de Gary, que encontra essa mesma proteção junto do individualista Joe, que no final, por força dessa fraquinha intriga criminal, acaba por se redimir de todo o mal que cometeu ao longo da sua vida, quer por ter ajudado Gary, quer por ter-se tornado finalmente numa pessoa melhor. É certo que o desfecho de "Joe" não deixa de se aproximar a um daqueles finais clichés bastante previsíveis e trágicos, porque já se adivinhava desde o inicio que, pelo menos, uma das personagens centrais do filme iria ter um final triste que o redimisse, mas penso que tal conclusão é necessária para reforçar o crescimento de Gary e para alicerçar de vez a sua relação com Wade e Joe, que ao longo do filme assumem a figura de seus pais, um do ponto de vista meramente biológico, outro mais de um ponto de vista moral.
Por detrás das três grandes personagens que são Gary, Joe e Wade estão três fantásticas performances de Tye Sheridan, Nicolas Cage e Gary Poulter, três atores muito peculiares. Em "Mud", Tye Sheridan mostrou grande potencial, que agora reforçou neste "Joe", onde também exibe um grande à vontade dramático que potencia o desenvolvimento interior da sua personagem, que apesar de tudo, acaba por ser a grande figura central do filme, já que é dele que derivam as grandes questões do filme. O experiente Nicolas Cage também é alvo de destaque, já que a sua performance é digna de toda a glória que este ator conquistou na última década do século passado. Ao fim de alguns projetos menos conseguidos, Nicolas Cage parece estar finalmente a recuperar a forma do passado, já que em "Frozen Ground" também nos presenteou com um trabalho razoável, mas longe de ser tão poderoso como o que tem neste projeto, onde realmente mostra a aura de outros tempos mais positivos. Por fim, o incógnito Gary Poulter também merece uma palavra de apreço. É triste mas Poulter, apesar de ser um ator profissional, teve em "Joe" a sua grande estreia, mas acabou por morrer, de forma trágica, antes de poder recolher os aplausos que o seu trabalho conseguiu junto da crítica. O seu papel de vagabundo alcoólico não poderia ser mais adequado à sua pessoa, já que na vida real Poulter também enfrentou vários problemas com o alcoolismo, tendo sido precisamente esta doença/ vício que acabou por o matar. A sua performance em "Joe" ficará para a história como, por ventura, uma das melhores performances únicas do cinema, já que não há dúvida que Poulter conseguiu transformar Wade em tudo aquilo que é suposto esta personagem ser.
É provável que "Joe" seja um daqueles filmes que não verei uma segunda vez, mas não deixo por isso de lhe atribuir o mérito devido por ser um filme interessante e forte, embora seja bastante lento e difícil de ver, não sendo por isso ideal para o grande público, mas sim uma obra mais direcionada para os festivais. É certo que apreciei a forma como explora os seus temas, como apreciei imensamente a construção pessoal e psicológica do seu trio central de personagens, mas para mim, "Joe" é um daqueles filmes bons que só se deve ver uma vez, porque no final não se fica com grande vontade de repetir a experiência, apesar de David Gordon Green ter tido aqui um trabalho fenomenal. Entre 2008 e 2011, Gordon Green deambulou pelas comédias, com algum sucesso até, mas parece que este ainda jovem cineasta gosta mesmo dos dramas e dos thrillers mais dramáticos, como prova este seu belo regresso às origens.

Classificação - 3,5 Estrelas em 5

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