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Histórias do Cinema: Joker, o Filme de Sucesso Que (Quase) Ninguém Queria Fazer

Histórias do Cinema: Joker, o Filme de Sucesso Que (Quase) Ninguém Queria Fazer
Histórias do Cinema: Joker, o Filme de Sucesso Que (Quase) Ninguém Queria Fazer

"Joker", de Todd Phillips, foi um dos grandes êxitos de 2019. Vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza e de 2 Óscares da Academia (Melhor Ator - Joaquim Phoenix e Melhor Fotografia - Hildur Guðnadóttir), "Joker" conquistou o público e a imprensa, mas talvez o maior elogio que se lhe pode fazer é que seja considerado hoje em dia, a par de "The Dark Knight" (que curiosamente também marcou o público graças à presença do Joker do malogrado Heath Ledger), uma das melhores obras cinematográficas inspiradas nas bandas desenhadas da DC Comics. 
Não deve por isso existir hoje ninguém que esteja arrependido de ter participado e apoiado a produção de "Joker", mas verdade seja dita que o processo de nascimento desta aclamada produção foi bastante complexo.

O Nascimento de "Joker"


Foi o próprio Todd Phillips que, durante a promoção do filme, revelou a jornada que teve que ultrapassar para conseguir fazer esta obra, cujos planos iniciais remontam a 2016, três anos da sua estreia no Festival de Veneza. Foi neste ano que Todd Phillips apresentou, pela primeira vez, a sua visão de um filme sobre as origens de Joker, o principal arqui-inimigo de Batman, aos executivos da Warner Bros. Este estúdio é, como se sabe, o único que poderia fazer o filme, já que só a Warner é que detém os direitos sobre as obras da DC Comics e, por isso, só este estúdio é que pode fazer ou autorizar filmes inspirados em personagens dessa companhia. Por esta altura, Phillips, que já tinha uma relação profissional com a Warner devido ao seu trabalho em filmes como "The Hangover" ou "War Dogs", já tinha na sua posse uma primeira versão do argumento. E foi com esse argumento em mãos que apresentou aos executivos da Warner uma ideia de um filme completamente diferente do que aquele que eles provavelmente estariam à espera. 
Por esta altura, a Warner já tinha lançado nos cinemas "Suicide Squad", um filme de ação que junta vários vilões do Universo Batman na mesma aventura, incluindo o Joker num papel mais secundário e de apoio à verdadeira estrela do filme, Harley Quinn. O filme acabou por se revelar um flop global, mas o público até reagiu bem à presença do Joker e, sobretudo, à presença de Harley Quinn que, graças a isto, até acabou por ter direito a uma spin-off. Pese embora o fracasso de "Suicide Squad", a Warner acreditava que a personagem de Joker era uma mina de ouro e tinha potencial para render um filme a solo com grande potencial para se tornar num enorme sucesso comercial. Mas a Warner acreditava que só poderia ter nas mãos um campeão se tal filme seguisse o estilo de "Suicide Squad". A ideia original de Phillips, como se sabe hoje, era completamente diferente deste conceito!





Phillips não queria que "Joker" se aproximasse sequer da ideia um blockbuster, nem que tivesse um estilo semelhante a todas as adaptações de obras da DC Comics que tinham sido produzidas até então, incluindo até a elogiada trilogia "Batman", de Christopher Nolan. Phillips queria no fundo fugir o máximo possível do típico conceito de filmes de super-heróis. Ele não queria criar um filme de ação ou aventura com elementos de fantasia. O que realmente queria realizar era um filme mais sério que dissecasse o lado psicológico e sociológico do Joker e que verdadeiramente explorasse as suas origens de uma forma realista. 
As ideias de Phillips e da Warner eram, portanto, opostas e a Warner recusou-se, numa primeira fase, a alinhar com a ideia de Phillips. O estúdio parecia mais interessado em apostar na ideia de criar uma spin-off/ prequela de "Suicide Squad" centrada na relação entre Joker e Harley Quinn que exploraria também as suas bases maléficas e a sua relação conflituosa com Batman. Segundo Phillips, a Warner via o Joker como um produto comercial. Um dos executivos até lhe chegou a dizer que não poderiam fazer um filme como ele pretendia, já que a Warner vende pijamas do Joker na Target e que uma personagem que aparece em pijamas nunca poderia encabeçar um filme sério como aquele que Phillips queria fazer. 
A batalha parecia perdida, mas surpreendentemente Phillips começou a convencer a Warner que o seu filme era aquele que merecia ser feito. Se "Suicide Squad" tivesse sido um êxito, talvez o "Joker", de Todd Phillips nunca teria avançado, já que a Warer teria apostado no filme que pretendia fazer. Mas Phillips conseguiu convencer a Warner a testar algo diferente, mostrando que o conceito de "Suicide Squad" não tinha resultado como eles esperariam, mas que este conceito mais modesto poderia funcionar e até ficaria mais barato. Embora tenha usado o argumento económico no seu pitch, Phillips não esperaria que a Warner, quando acordou em apoiar o projeto, lhe desse um orçamento tão baixo como acabou por dar.


O Orçamento da Descrença


A Warner aceitou os argumentos de Phillips e, após muitas reuniões, o realizador conseguiu convencer o estúdio a apoiar o seu projeto e, acima de tudo, a sua visão. O filme estava pronto a arrancar, mas Phillips queria saber quanto dinheiro ia ter para concretizar a sua visão. E ficou surpreendido quando a Warner lhe deu pouco mais de sessenta milhões de euros para fazer o filme. Este valor, embora seja bem mais alto que qualquer orçamento de uma típica produção indie, não era bem aquilo que Phillips estava à espera e a própria imprensa também achou que não era um orçamento adequado. Mal se soube do valor, a imprensa norte-americana especulou que a Warner tinha dado ao filme um orçamento de descrença e que era fácil de presumir que os seus executivos não depositavam grande fé no projeto e que, por isso, não estavam dispostos a investir um valor mais alto porque nunca o conseguiriam recuperar nas bilheteiras. 
O orçamento mostrava bem aquilo que a Warner pensava, já que mostrava claramente que o viam apenas como uma experiência que, mesmo que não resultasse, não provocaria grandes prejuízos. Em termos comparativos, por exemplo, o blockbuster "Suicide Squad" teve um orçamento de cento e oitenta milhões de dólares e até mesmo "Batman Begins", o primeiro filme da trilogia Batman de Nolan, teve um orçamento de cento e cinquenta milhões de dólares.  Phillips, embora descontente, não protestou e ficou determinado em provar à Warner que a sua falta de fé em nada alteraria a sua visão. O cineasta juntou rapidamente a sua equipa e, neste ponto, voltou a ter uma guerra com a Warner, mas conseguiu mais uma conquista importante que viria a revelar-se fundamental para o sucesso do filme.


A Entrada de Joker


Joaquin Phoenix é a estrela de "Joker" e um dos motivos apontados para o seu enorme sucesso. A sua grande performance valeu-lhe o Óscar de Melhor Ator e todos o vêm como um dos impulsionadores da grande qualidade do filme. Sem Phoenix, "Joker" não teria tido tanto sucesso. Mas o ator nem sempre esteve envolvido com o projeto. Phoenix já tinha proferido o desejo de interpretar a personagem no grande ecrã, aliás o ator recusou papeis nos filmes da Marvel porque gostaria de interpretar uma personagem como Joker, ou seja, uma personagem com quem se identificasse e com a qual poderia promover um trabalho de excelência. Phillips apercebeu-se desta paixão de Phoenix e, sendo também ele um fã do actor, conseguiu convencê-lo a encabeçar "Joker". À primeira vista, Phoenix era a escolha ideal para interpretar o popular vilão e quase todos apoiaram esta decisão, com uma grande excepção inicial: a Warner Bros. Numa primeira fase, o estúdio parecia querer que Jared Leto, que interpretou a personagem em "Suicide Squad", interpretasse novamente o vilão nesta obra sobre as suas origens. Os fãs gostaram de o ver em "Suicide Squad" e a sua presença, embora secundária, foi um dos poucos pontos positivos do filme. O próprio Leto parecia convicto que seria ele a interpretar o Joker, mas Phillips tinha, como se sabe, outra ideia e foi a sua intenção que prevaleceu. É certo que a Warner ainda tentou que o vilão fosse interpretado por Leonardo DiCaprio numa clara tentativa de conferir um maior star power ao projeto, mas no final não parece ter dado grande luta por Leto ou DiCaprio, já que por esta altura ainda mantinha em cima da mesa o plano de fazer uma prequela de "Suicide Squad" centrada em Joker. Mas uma vez mais, Phillips conseguiu convencer o estúdio e conquistar mais uma vitória importante que se revelou fundamental. Quem não ficou muito contente foi Jared Leto que, publicamente, mostrou desagrado por não ter ficado com o papel. Mas o tempo e a qualidade do filme vieram dar razão a Phillips que, assim, conseguiu reunir a sua equipa de sonho para produzir o seu projeto de sonho. 

A Última Guerra


As filmagens de "Joker foram pacificas, mas a Warner, uma vez mais, entrou em guerra com o conceito de Phillips, já que gostaria que o filme não fosse tão violento, já que isso poderia limitar as opções comerciais do projeto. Embora tenha pedido para o filme ser menos explicito, certo é que Phillips não cedeu e continuou a filmá-lo segundo a sua visão e ideia.  Phillips começou o processo de pós-produção em Março de 2019 e a Warner começou a pensar numa estratégia de promoção do filme. E aqui tivemos uma última guerra entre Phillips e a Warner. O estúdio, mesmo antes de ver a versão final, parecia determinado em promovê-lo de forma limitada nos Estados Unidos da América, tendo planeado um plano de distribuição bem mais reduzido do que aquele que normalmente promove para os seus grandes blockbusters. A ideia de Phillips em apostar num filme mais indie parecia levar a Warner a conferir ao filme esses estatuto e, por isso, estava a reserva-lhe a mesma estratégia dos seus filmes de menor orçamento. Neste ponto, Phillips não tinha voto na matéria, já que a decisão sobre o plano de distribuição cabe exclusivamente ao estúdio, mas rezam as histórias de bastidores que o cineasta esperava mais apoio por parte do estúdio. No entanto, como estava confiante com o filme que tinha feito acreditou que, mal este começasse a sua carreira de exibição, a Warner iria mudar rapidamente de planos e iria aumentar o seu plano de distribuição.
E Phillips, uma vez mais, tinha razão. Após a surpreendente vitória de "Joker" no Festival de Veneza, a Warner começou a olhar com outros olhos para a pérola que tinha em mãos e alargou o seu plano de exibição e começou a posicioná-lo como um candidato aos grandes prémios de Hollywood, promovendo uma campanha intensiva para os Óscares. Há quem diga até em jeito de hipérbole que a Warner até apostou mais em tal campanha do que na própria produção do filme. 
O que é certo é que, no final de contas e três anos após ter lutado contra tudo e contra todos para concretizar a sua visão, Phillips provou que estava certo. A sua ideia resultou. O seu conceito funcionou. E as suas decisões foram as mais acertadas. 
Sem a sua motivação e dedicação, "Joker" nunca teria sido feito e, hoje em dia, poderíamos estar a falar de um "Joker" completamente diferente e, quem sabe, mais próximo às linhas e à visão de "Suicide Squad" ou da spin-off "Birds of Prey", que se centra em Harley Quinn. Podemos até presumir que "Birds of Prey" poderia ter sido o "Joker" que a Warner queria fazer e, com isto, conseguimos ver a influência que tem a visão e a dedicação de um cineasta num determinado projeto. Se a ideia da Warner tivesse ido para a frente, então poderíamos hoje estar a falar de um "Joker" completamente diferente que seria  esquecido com o tempo, mas graças a Phillips e à sua perseverança hoje falamos de "Joker" como um clássico intemporal que faz parte da história do cinema.

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