Crítica - 99 Homes (2015)

Realizado por Ramin Bahrani
Com Andrew Garfield, Michael Shannon, Laura Dern

Por virtude da forte concorrência e dos interesses de terceiros, "99 Homes" foi desde cedo afastado da corrida à Época de Prémios. Tal afastamento precoce pode ser considerado um pouco injusto atendendo à oferta dramática e moral deste belo thriller dramático e financeiro, onde nos é transmitida uma interessante mas cruel visão do funcionamento do mercado imobiliário norte-americano.  Esta visão, que hoje em dia é um pouco mais moderada mas que nos tempos mais graves da Crise Financeira de 2008 correspondia à dura realidade, tem como cenário o drama individual de Dennis Nash (Andrew Garfield). Tal como muitos outros pais de família, Dennis tenta fazer o que pode para providenciar sustento para o seu filho e para a sua mãe. A sua vida muda drasticamente no dia em que o Tribunal lhe retira a sua casa por não conseguir pagar a sua hipoteca, indo a mesma parar às mãos de um corretor de imóveis corrupto chamado Rick Carver (Michael Shannon). Perante tal situação, Nash muda-se, juntamente com o seu filho e com a sua mãe, Lynn (Laura Dern), para um motel com outras pessoas sem casa. Para ganhar dinheiro e tentar recuperar a sua vida, Nash começa a trabalhar para o próprio Carver que lhe ficou a casa, entrando assim também no jogo de recuperação de casas que foram tomadas pelos bancos, mas quase sem se aperceber entra também num jogo controverso de interesses e jogadas arriscadas que lhe podem custar a sua liberdade.


Rico em drama e tensão, "99 Homes" é um perfeito exemplo de um filme competente e equilibrado que não precisa de jogar com a banalidade e com as emoções fáceis do público para transmitir as suas ideias. Sem apostar, portanto, num melodrama sentimentalista que pudesse rentabilizar a sua base de apoio, "99 Homes" foca-se sobretudo no realismo e nos factos concretos e cruéis para demonstrar as falências de um sistema já muito criticado nos Estados Unidos. É claro que pelo meio há uma aposta clara na presença do sentimentalismo e na moralidade humana para vincar a injustiça e a própria crueldade do tema em si, mas tal aposta nunca ultrapassa certos limites que poderiam banalizar o efeito prático da sua trama. Tal história tem efectivamente na sua base um drama familiar e humano, mas em vez de centralizar as nossas atenções nos dramas óbvios dos intervenientes, "99 Homes" redirecciona a nossa atenção para o que realmente interessa e para o tema que efetivamente dá vida ao filme, ou seja, as falências morais e humanas do sistema bancário e imobiliário.
Embora em Portugal tal sistema seja muito mais pacífico, pode-se ainda assim aplicar parte das bases desta história à realidade nacional. Isto porque no centro do jogo de interesses promovido por bancos e indivíduos que se aproveitam da carência de pessoas mais desesperadas está, como se sabe, um sentimento de ganância e uma completa ausência de valores morais que movem muito dinheiro. Por intermédio de "99 Homes" conseguimos perceber como é que esse sistema realmente funciona e o que o movimenta. Para além da parte financeira e humana que tão bem desenvolve, "99 Homes" explora também com o devido respeito o lado humano e moral, sejam eles da parte forte ou fraca, deste sistema. Neste sentido, "99 Homes" mostra as perspectivas das pessoas que ficam sem casa e das pessoas que lhes tiram as casas, criando assim uma interessante dinâmica  moral e humana que fica na retina e que é abordada com muita sensibilidade e interesse.


Para além de um enredo muito curioso e bem montado, "99 Homes" vai também buscar muita da sua força ao seu poderoso elenco central. Andrew Garfield e Michael Shannon têm duas prestações muito claras e eficazes que promovem uma forte dose de dinamismo humano. Garfield interpreta, com a devida expressividade moral, uma pessoa com claras necessidades financeiras, mas que parece manter apesar de tudo o que lhe acontece, uma bússola moral atenta à realidade humana, como tão bem prova a conclusão do filme. Já Shannon interpreta, com o profissionalismo que todos lhe reconhecemos, uma pessoa com valores exatamente opostos que personifica o exemplo perfeito de uma pessoa sem morais que apenas quer o seu bem estar. Esta dicotomia moral que está presente, quer nestas prestações individuais, quer como já se falou no seio da própria trama, resulta na perfeição e dá ao filme, como já se referiu também, uma dimensão muito didática, humana e inteletual.
Todos estes detalhes enriquecem "99 Homes" e tornam-no num produto realista, concreto e eficaz que coloca em evidencia o que importa e não o que seria mais fácil de explorar.  Este retrato promove junto do público os sentimentos mais adequados e não joga de forma libertina com as suas emoções, transmitindo-lhe assim a informação sem subterfúgios e com o respeito que a mesma merece. A opinião perante este resultado eficaz só pode ser positiva e, pese embora uma ou outra falha mais acentuada, nada afeta  gravemente a qualidade das mensagens e do próprio produto que nos são apresentados.

Classificação - 4,5 Estrelas em 5

1 comentários:

  1. Os meus conhecimentos sobre vigarices, sejam elas de que tipo for, aproveitando-se da desgraça alheia para proveito próprio, são muito diminutos; só consigo atingir o mínimo dos meandros utilizados para sacanear o próximo; tudo o resto ultrapassa-me! Mas este filme, sem eu contar, porque não havia lido nada sobre o mesmo, encheu-me as medidas em todos os aspectos: narrativa, direcção e sobretudo as performances, nomeadamente a do jovem Andrew Garfield, que, como o João diz, promove um “dinamismo humano” à personagem sem cair na lamechice; os seus trejeitos faciais e corporais, ombros e peito encolhidos, retraídos, inclusive o “fade away” dos seus discursos quando perante as famílias que tinha de despojar, expressam claramente o que lhe vai na alma!

    Sem dúvida a nota máxima para este filme!


    Continuação de boas críticas.

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