O Sucesso de O Pátio das Cantigas e O Leão da Estrela É Uma Vitória da Mediocridade? Como Afetará o Cinema Português?

As comédias "O Pátio das Cantigas" e "O Leão da Estrela", ambos de Leonel Viera, estão a ser um sucesso nas bilheteiras nacionais, mas já não estão a ter o mesmo nível de sucesso junto da opinião crítica, quer da imprensa, quer do público. Segundo dados oficiais do ICA, "O Pátio das Cantigas", o primeiro dos três remakes de clássicos nacionais preparados por Leonel Vieira, levou mais de seiscentos mil espectadores às salas de cinema, já "O Leão da Estrela" foi visto por mais de cento e cinquenta mil espectadores até à data. 
Embora "O Leão da Estrela" vá ficar na história como o segundo filme português mais visto de 2015, já se pode perceber que não terá o mesmo sucesso de "O Pátio das Cantigas", que será o filme português mais visto de 2015. O inesperado sucesso de "O Pátio das Cantigas" só aconteceu porque a  maioria dos espectadores deu-lhe o beneficio da dúvida, esperando que se aproximasse à qualidade do filme original, mas tal não aconteceu, como comprovam as milhares de opiniões negativas que correm as redes sociais e a imprensa nacional. Os espectadores que foram ver "O Pátio das Cantigas" e odiaram-no já não foram ver "O Leão da Estrela", aliás muitos espectadores afirmaram publicamente que não iriam cometer o  mesmo erro duas vezes. E será provável que o terceiro remake que Leonel Vieira está a preparar vá ter ainda menos assistência que "O Leão da Estrela", mas deverá ser ainda assim um sucesso comercial para os padrões nacionais. 


A imprensa tem sido ainda mais crítica destes filmes, tendo criticado fortemente o conteúdo das obras e a forma como estes foram feitos, tanto é que não encontrei uma única crítica minimamente positiva entre a nossa imprensa. O homicídio qualitativo de dois clássicos do cinema nacional teve, no entanto, um inesperado (ou não) sucesso comercial que não está ao alcance de 99% dos filmes nacionais que estreiam por cá e que deixou, assim, a imprensa nacional estupefacta. A discrepância evidente entre a qualidade e o efeito pipoca destes produtos é interessante mas preocupante. Já se sabe que até mesmo em Hollywood os melhores filmes do ano não arrecadam tanto dinheiro como os blockbusters mais fracos, mas ainda assim seria de esperar que "O Leão da Estrela" fosse um fracasso, tendo especialmente em conta as opiniões que se ouviram de todo o lado relativamente a "O Pátio das Cantigas". Mesmo nos Estados Unidos da América, os maus filmes de Hollywood, mesmo sendo blockbusters, não costumam ser estrondosos sucessos comerciais, mas em Portugal, "O Pátio das Cantigas" e "O Leão da Estrela" foram. É um caso interessante de analisar que tem diversas explicações razoáveis e todas elas válidas, mas que demonstram todas elas que Portugal fornece pouca oferta nacional para tanta procura e, assim, a pouca oferta que há, mesmo não sendo a melhor, acaba por ter mais sucesso se tiver a visibilidade acertada.
É por isso que, quer seja por culpa da ausência de produtos pipoca no cinema português, pela presença crescente da internet na vida dos portugueses ou até pelo efeito de nostalgia que estas obras possam provocar em espectadores mais velhos, este inesperado sucesso de ambos os produtos tem explicação. O que preocupa é a percepção da falta de oferta nacional, mas num patamar diferente o que acaba por chocar os fãs de cinema é que cada um dos dois filmes em questão já foi mais visto que a trilogia "As Mil e Uma Noites", de Miguel Gomes, um dos filmes europeus mais consagrados do ano. É certo que apesar do enorme impacto internacional e nacional, "As Mil e Uma Noites" não chegará aos Óscares e não conquistará nenhum prémio importante na Europa ou na América. É ainda assim curioso constatar que há pessoas que tiveram uma má experiência com um filme semelhante e preferiram, ainda assim, cometer o erro de ver um produto que já sabem, à partida, que vai ser claramente mau em vez de ver, pelo menos, uma das partes de um dos filmes mais aclamados do ano. E acreditem há quem tenha visto "As Mil e Uma Noites" e achado piada a muitas das suas histórias, pelo menos mais piada que qualquer um dos dois filmes de Leonel Viera em questão. O cinema português conquista ainda assim uma vitória, mas apenas de um ponto de vista estatístico, já que estes dois filmes chamaram muitas pessoas ao cinema para ver um filme nacional, mas isto não é propriamente um sinónimo de orgulho, atendendo especialmente a tudo o que está por detrás desta história.
Há portanto perguntas que se têm que impor independentemente dos gostos de cada um, sim porque os gostos não se discutem e há pessoas que apreciam um tipo de cinema enquanto outros podem preferir exatamente o oposto. É a beleza da 7ª Arte! Não estamos portanto perante uma questão de gostos ou géneros, mas sim de qualidade que possa valorizar o cinema nacional. E neste sentido pergunto se é preferível ver nos cinemas um péssimo filme português em vez de um razoável filme estrangeiro que possa entreter mais o espectador? E se ao ver um péssimo filme português não estaremos a encorajar a criação de mais péssimas obras que assassinam o nosso passado cultural? Não quero com isto dizer que "As Mil e Uma Noites" deveria ser, por esta altura, o filme português mais visto de 2015, porque claramente é um tipo de filme que, pelo registo histórico que temos, não é para todos os gostos e só convencerá ou entreterá uma pequena parte da população nacional. Mas ainda assim, certamente que no futuro Portugal pode fazer bem melhor que "O Pátio das Cantigas", aliás já o fez no passado com a versão original deste polémico remake. Vale a pena pensar nisto............

7 comentários:

  1. Concordo com as críticas ao filme, mas este texto não deixa de ser um pouco pretensioso...

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    1. Eu respeito a opinião anónimo, mas asseguro que a minha intenção era apenas a reflexão entre a propensão comercial e a qualidade, sendo que para este último critério tentei apelar mais a uma opinião coletiva retirada da imprensa. Tal como disse, junto da nossa imprensa nenhum dos dois filmes teve uma opinião positiva, mas agradeço a opinião e respeito-a.

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  2. Há falta de filmes de entretenimento com qualidade em Portugal, o que para mim é culpa da má escrita e dos maus "actores" da nossa praça. A fórmula é sempre a mesma, comediantes e cameos manhosos, com piadolas fortuitas sem histórias coerentes nem personagens interessantes. Depois apanham o subsídio e toca a usar a mesma fórmula, enquanto que os bons filmes interessantes como Mil e uma Noites, e até mesmo o Capitão Falcão (uma excepção no que disse anteriormente) , são ignorados pelo público em geral por não terem a mesma exposição pública que os referidos antes.

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  3. Aconselho o autor deste artigo a pesquisar o significado de Blockbuster e rever a frase em que utilizou este termo para ver se faz sentido.

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    1. Não retiro uma vírgula. Há que compreender o contexto desta questão, bem como a aplicação de um termo tão banal como é a palavra blockbuster. No sentido literal do termo é claro que não pode haver um blockbuster sem sucesso comercial, mas já há muito tempo que o termo blockbuster passou também a aplicar-se a filmes pipoca com tremendo orçamento, daí o seu uso no contexto supracitado não ser errado. A mesma corrente de pensamento vigora junto da imprensa americana. Eu agradeço a oportunidade para explicar e compreendo a confusão.

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  4. Mas um blockbuster tem necessariamente de ser mau? O Titanic foi é fraco?

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    1. Não, um blockbuster não é necessariamente mau. A minha referência aos blockbusters de Hollywood refere-se apenas à percepção do espectador. Há blockbusters bons e maus, mas por norma os verdadeiramente maus raramente têm o sucesso esperado....E por blockbuster entenda-se que, neste contexto, refiro-me ao género de filmes e não à sua capacidade económica.

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