Crítica - J. Edgar (2011)

Realizado por Clint Eastwood
Com Leonardo DiCaprio, Armie Hammer, Naomi Watts, Judi Dench

Vou começar esta crítica de forma invulgar: para ser franco, não sei como raio é que Leonardo DiCaprio falhou a nomeação para os Óscares com esta interpretação intensa e poderosa de uma das figuras mais controversas da História norte-americana. Não se trata da melhor performance da sua carreira, é certo. “The Aviator” e “Revolutionary Road” continuam a ser os filmes em que o actor californiano brilhou mais alto. Mas esta sua interpretação de J. Edgar Hoover merecia certamente a nomeação, para não dizer mais do que isso. Contudo, ser desprezivelmente ignorado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é algo a que DiCaprio já está habituado. Conjuntamente com os papéis de “Revolutionary Road”, “Shutter Island” e “The Departed”, esta é já a quarta vez em poucos anos que DiCaprio se vê injustamente arredado dos Óscares. O que apenas levanta dúvidas quanto ao real valor e mérito destes prémios. Nos outros casos referidos não sei o que se terá passado. Mas aqui parece-me óbvio que o actor está a pagar as favas de um filme menos bem conseguido por parte de Clint Eastwood, o que não me parece nada justo. Talvez por causa da idade que começa já a pesar, Eastwood encontra-se numa fase descendente da carreira. Após um período de glória em que tudo o que tocava se parecia transformar em ouro, “Changeling” veio marcar o início de uma nova etapa na carreira do veterano realizador/actor. “Changeling”, “Gran Torino”, “Invictus” e “Hereafter” são bons filmes, mas estão longe da genialidade de “Mystic River”, “Letters From Iwo Jima” e sobretudo “Million Dollar Baby”. E o mesmo pode ser dito deste “J. Edgar”, uma obra perfeitamente competente e filmada com mestria, mas que denota alguma falta de consistência narrativa e sentido de ritmo.


Contada através das memórias de um J. Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio) em fase terminal da sua existência, a narrativa acompanha o percurso realizado por essa figura histórica ao longo de vários anos de vida, desde os primeiros tempos de afirmação no departamento da justiça norte-americano até à fase de maior glória do seu precioso bebé: o hoje mundialmente famoso FBI. Criado por uma mãe (sempre intensa Judi Dench) possessiva e de convicções austeras, Hoover desenvolve uma personalidade rígida, obsessiva e pouco tolerante. Farto de assistir à facilidade com que diversos criminosos escapam às garras da justiça, o ainda jovem Hoover faz as suas ideias revolucionárias chegarem até aos mais altos cargos do senado norte-americano, conseguindo assim obter alguma atenção e cimentar as bases para a criação da força policial mais competente e intimidatória do planeta. Uma força policial que se alia à ciência e a procedimentos de conduta rigorosíssimos para atingir resultados notórios. Com a ajuda de Clyde Tolson (Armie Hammer), ele acaba por alcançar tudo aquilo que deseja, formando uma instituição que depressa começa a mostrar os seus dotes. Mas por muito boas intenções que tenha, qualquer homem pode ser corrompido. E como tal, Hoover acaba por abusar do poder que lhe é conferido, despertando o temor da população e daqueles que lhe são mais próximos. Tudo enquanto trava uma batalha interior com os seus mais profundos sentimentos, que não encaixam de forma alguma na imagem que pretende transmitir para o exterior, transformando-o numa personagem deliciosamente paradoxal e quase doentia.


Reconhecemos “J. Edgar” como um filme de Clint Eastwood logo nos primeiros minutos de película. Todo o aspecto visual e sonoro da obra tresanda (no bom sentido) a Eastwood, pelo que os fãs confessos do veterano realizador decerto ficarão deliciados. Aliando-se a um jogo de sombras que quase se destaca como uma personagem de créditos próprios (porque nos ajuda a compreender as emoções que absorvem os intervenientes de carne e osso), Eastwood filma tudo com uma segurança impressionante e uma noção de storytelling sempre presente na cabeça. O “velho” Clint é um contador de histórias nato, sobretudo histórias com elevado valor humano. É por isso que os actores que trabalham com ele acabam sempre por se destacar, brindando-nos com algumas das melhores performances das suas carreiras. A câmara de Eastwood adora os actores, respeitando-os o suficiente para nunca desprezar o mais ínfimo gesto que eles fazem. DiCaprio, já se disse, torna-se então assombroso na pele de um homem que tão depressa se ama como se odeia. E mais do que Judi Dench ou Naomi Watts, Armie Hammer encontra também espaço para brilhar bem alto, oferecendo-nos uma composição que poderia igualmente ter reservado o seu espaço nos Óscares deste ano. Não é pela direcção de cenas de Eastwood e pela competência dos actores que “J. Edgar” falha, portanto. Acima de tudo, é pelo argumento demasiado entrelaçado e pela falta de ritmo musical que esta obra sucumbe à vulgaridade. O argumento de Dustin Lance Black (oscarizado por “Milk”) apresenta demasiados saltos temporais que tornam a história confusa e dificultam o acompanhamento dos eventos retratados. E a banda-sonora do próprio Eastwood é demasiado cinzenta, monocórdica e ausente para fazer a diferença, castrando a película de algum enfoque emocional e levando o espectador a pensar que está a ver uma cópia inacabada do filme, como se lhe faltasse a componente musical da pós-produção. De facto, Eastwood talvez beneficiasse um pouco com a entrega da batuta de maestro a um compositor de créditos firmados, pois esse poderia atribuir uma dimensão emocional extraordinária às suas obras.


No seu todo, “J. Edgar” não é um mau filme, apresentando todos os condimentos de um biopic competente e ambicioso, tão ao gosto da Academia. Mas nota-se bem que lhe falta alguma coisa para ser um filme ao nível da reputação de Eastwood. Fica-se com a sensação de que a fase de pós-produção não correu lá muito bem. O material das filmagens é bom e tem um potencial tremendo. Mas a montagem algo desleixada das sequências de transição temporal e a quase absoluta ausência de uma componente musical acabam por arruinar tudo. Bom, talvez não tudo. Mas definitivamente quase tudo. Apesar de não ser um desastre completo (longe disso), salva-se pela interpretação fenomenal de DiCaprio, pela visão de Eastwood enquanto realizador e pela coragem com que o argumento aborda algumas facetas menos conhecidas do fundador do FBI.

Classificação – 3,5 Estrelas Em 5

2 comentários:

  1. Embora o papel do DiCaprio seja poderoso entende-se a sua omissao da nomeaçao aos oscares. As ausencias de Fassbender por Shame e Gosling por Drive sao muito mais graves e peremtorias.

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  2. Concordo plenamente com esta crítica. A banda-sonora foi demasiado minimalista e poderia ter contribuído tanto para a intensidade de certas cenas. Além da forte performance de DiCaprio (que ainda assim não atinge o pedestal do seu papel em Revolutionary Road), Armie Hammer surpreendeu-me pela positiva. Não é só uma cara bonita, como por exemplo Channing Tatum, mas tem muito para dar. Espero que lhe cheguem às mãos papéis que mereça.

    Parabéns por mais uma excelente crítica.

    V.

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