Crítica - Anna Karenina (2012)

 
Realizado por Joe Wright
Com Keira Knightley, Aaron Johnson, Jude Law, Matthew Macfadyen

Por vezes são os acasos que fazem as lendas cinematográficas. Harrison Ford estava doente no dia em que estava programado filmar uma grande cena de luta contra um adversário temível em “Raiders of the Lost Ark”. Como tal, Spielberg e Ford decidiram simplificar a sequência de luta, colocando Indiana Jones a fazer uma careta e a dar um simples tiro no brutamontes de espada na mão. E ainda bem que o fizeram, pois essa cena ficou para sempre marcada na memória dos espectadores. Na trilogia “The Lord of the Rings”, Stuart Townsend deveria ter interpretado a personagem de Aragorn, tendo mesmo chegado a filmar algumas cenas importantes de “The Fellowship of the Ring”. Mas Peter Jackson achou que o ator irlandês era demasiado novo para a personagem e decidiu chamar Viggo Mortensen para dar vida ao descendente de Isildur. Mortensen que, de resto, mal teve tempo para se preparar para o papel, tendo estudado os textos à pressa e filmado a sequência da batalha no cume de Weathertop logo no primeiro dia de trabalho. Uma decisão arriscada de Jackson, dirão alguns. Mas ainda bem que o realizador neozelandês tomou essa decisão, pois já ninguém visualiza Aragorn sem pensar em Mortensen. E agora surge-nos o exemplo de Joe Wright e do seu sumptuoso “Anna Karenina”. As filmagens desta obra deveriam ter decorrido de acordo com os trâmites tradicionais, com grandiosas paisagens e luxuriantes cenários a deixarem a sua marca na cabeça do espectador. Mas os cortes no orçamento e a crise económica internacional levaram o projeto ao limiar do cancelamento. E em vez de deixar o projeto morrer, Wright decidiu filmar a obra-prima de Tolstoi de forma original, esquecendo os cenários extravagantes para idealizar tudo como se se tratasse de uma peça de teatro. E ainda bem que isto acabou por suceder, pois este “Anna Karenina” tornou-se bem mais maravilhoso e memorável dentro destes parâmetros.

   

A célebre narrativa acompanha as desventuras românticas de Anna Karenina (Keira Knightley), uma aristocrata do império russo do séc. XIX que luta contra os preconceitos da alta-sociedade dessa era. A princípio, Anna vive feliz com Karenin (Jude Law), um importante ministro do governo russo, possuindo uma mentalidade igual à de todos os que a rodeiam e considerando o adultério um pecado incompreensível e quase indesculpável. Porém, o Conde Vronsky (Aaron Johnson) entra em cena e vira tudo do avesso, pois serve-se do seu carisma natural para enfeitiçar a jovem Anna. Não resistindo àquilo que o coração lhe dita, Anna inicia então uma relação escaldante e escandalosa com o Conde, chegando mesmo ao ponto de abdicar do seu estatuto e da sua segurança para simplesmente se entregar ao seu amante. Mas o mundo da alta-sociedade é mais venenoso que uma cobra das selvas amazónicas. E Anna depressa entra numa espiral de autodestruição que ninguém consegue travar, nem mesmo os seus familiares e amigos mais próximos.

   

A história é-nos familiar. Esse sentimento de familiaridade é inegável e aí se encontra o maior ponto fraco deste “Anna Karenina”. De facto, parece que já assistimos a esta intriga um sem número de vezes. A rapariga que se julgava pura e virtuosa apaixona-se perdidamente por outro homem, e a partir desse instante tem de lidar com as más-línguas e com a pressão da sociedade a que pertence. É a tal intriga de novela barata pela qual o público feminino morre de amores, mas com o qual o público masculino não tende a perder muito do seu tempo. É óbvio que o romance eterno e deveras complexo de Lev Tolstoi está longe de se encontrar no mesmo patamar das novelas da TVI. Afirmar o contrário seria uma autêntica barbaridade. Contudo, estas histórias de paixões ardentes e traições conjugais não surgem propriamente como uma novidade nos tempos que correm, o que rebaixa um pouco a majestosa experiência cinematográfica que é este “Anna Karenina”. Se dermos um desconto a esse pormenor, todavia, depressa chegamos à conclusão que a quinta longa-metragem de Joe Wright é um triunfo a todos os níveis. E um triunfo admirável, diga-se de passagem. Tudo é assombroso nesta película, desde os cenários teatrais à belíssima banda-sonora composta por Dario Marianelli. Ao querer fazer de “Anna Karenina” um produto cinematográfico original e diferente do que é habitual até para si mesmo, Wright criou aqui o seu filme mais artístico até à data. O teatro e o cinema unem-se num só palco de forma magistral, e o realizador britânico demonstra possuir talento de sobra para dirigir com mestria ambos os meios. A dinâmica e a criatividade são os dois aspetos que mais saltam à vista nesta obra. Os famosos planos longos e sem cortes de Wright encontram-se novamente presentes, e o cineasta engendra as transições de cena e de cenário mais belas que jamais tivemos oportunidade de assistir. A partir do instante em que a cortina sobe, é como se o teatro ganhasse vida própria e se tornasse mágico ante a câmara de Wright. São muitos os pormenores artísticos que ficam na memória e o realizador deve ser aplaudido por isso. Por isso e pela forma como dirige os seus atores, que aqui demonstram todo o seu potencial. Knightley bem que pode almejar uma nomeação ao Óscar, Law está tão competente como de costume e Johnson mostra que é um talento emergente a ter em conta. Resumindo e concluindo, “Anna Karenina” é cinema de elevadíssima qualidade, que mistura elegância e classicismo como há muito não se via. Só é pena que por vezes se torne excessivamente moroso e vulgarmente previsível. 

Classificação – 4 Estrelas em 5

10 comentários:

  1. Knightley como Anna K. embora boa atriz, não teve espaço para mostrar uma Anna K. que descobriu-se mulher apaixonada ardente e feliz, frustada, ciumenta e deprimida por diversas lutas entre o sentimento e a razão e que por fim foi engolida pela sociedade que coloca na marginalidade aqueles que fazem da regra, exceção.
    O casal Konstantin Levin e Kitty, não fazem o seu papel de apontar fatalmente os erros de Anna K. quando temos quase certeza de que tudo que ela faz se justifica, aliás no filme vc nem entende o porquê deste casal .
    Aaron Taylor-Johnson em nada parece com o amante víril e sedutor, parece sim com um adolescente namoradinho desses filmes de sessãoo da tarde, péeesimaaaa atuação!!!
    Jude Law, embora convença como marido de Anna K, não foi capaz de mostrar que debaixo de sua atitudes polidas, estavam mascaradas na verdade um sentimento de vingança frio e hostil em relação ao casal.
    Enfim o filme não consegue te aproximar do sentimento de angústia, remorsos e amor a que Anna K. luta para no fim não vencer...
    A versão de 1997 de Bernard Rose, traz uma Anna K. bem como marido e amante muito mais próximos da realidade do livro, e mais envolventes também ,bem como um filme que desperta maior interesse pela vida de Anna K

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    1. Tive náuseas do começo ao fim do filme, de péssimo gosto, um horror, uma calúnia!!!!! Deveriam ter jogado uma bomba no set de filmagens logo que tivessem noticiado que a Anna Karênina seria interpretada pela Keira Knigtely, ainda mais sabendo que o papel já chegou a ser interpretado pela Vivien Leigh, Audrey Hepburn e Greta Garbo - em ordem de excelência. É verdade que nenhum diretor conseguiu captar a grandiosidade da obra mas estas atrizes, em especial a Vivien Leigh, fizeram um ótimo trabalho. Inclusive, acredito que já perdi muito tempo assistindo este lixo de adaptação, então, finalizo o meu comentário aqui mesmo.

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  2. Acho que não vi o mesmo filme que este crítico, ou seria a velha história do rei nu, pensando estar vestindo uma roupa inigualável que só os muito inteligentes veem ?
    Em resumo, achei o filme patético e nisso sou acompanhado da imensa maioria da crítica e opinião pública russa. Não houve química alguma entre os atores. Aaron Johnson no papel de sedutor não convence nem a mãe dele.

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  3. Senti uma dor física ao assistir esse filme. Parece que a maravilhosa, intensa, filosófica e revolucionária obra de Tolstoi caiu nas mãos de um açougueiro. As personagens perderam toda a profundidade, suas carcterísticas marcantes, seu caráter. A trama complexa da obra, que discute assuntos sociais de extrema relevância para a época, e importantes até hoje, foi totalmente esquecida no roteiro. Nem sequer os diálogos são fieis. Desprezar o que o mestre disse pra enfiar prosopopeia inútil no lugar? O diretor e os roteiristas mereciam ser apedrejados em praça pública. De preferência na praça vermelha. Andressa Belanda.

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  4. Tolstoi se revirou no tumulo....Nao gostei desse filme .

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  5. Gostei do modo em que teatro e cinema se unem, porém, é fato que houve uma certa falta harmonia entre os casais. Pra mim, o destaque desse filme foi Jude Law, que entrou na profundidade do seu personagem e a bela fotografia. A edição deixou muito a desejar e o início do filme é agoniante ao ponto de nos fazer pensar em desistir do filme.

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  6. Como contar uma história que já foi lida por milhões de pessoas ao redor do mundo? Como reinventar um enredo que já ganhou quatro outras versões para o cinema (1935, 48, 85 e 97)? Como atrair um público jovem, maioria entre frequentadores de cinema, para assistirem a filme baseado em um livro russo de 1877? Resposta: ousando-se. E foi exatamente assim, ousando que Joe Wright (‘Desejo e Reparação’ e ‘Orgulho & Preconceito’) leva ao cinema mais uma versão do romance histórico de Tolstói, Anna Karenina. Sua ótima direção de arte produziu uma das mais belas cenas já feitas na história do cinema.
    Crítica completa no blog:
    http://amahet.blogspot.com.br/2013/03/anna-karenina-anna-karenina-2012.html

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  7. Eu gostei desse filme, porém, achei que algumas atuações não funcionaram : Keira Knightley está abaixo de suas interpretações, ficou no automático; Aaron taylor foi uma péssima escolha para o papel, faltou virilidade. Jude Law não convence, ele é engessado. Agora, que dá um show de interpretação são os outros casais : Matthew Macfadyen está perfeito, Kelly Macdonald apesar do pouco tempo em tela, está muito bem; Domhnall Gleeson e Alicia Vinkader estão maravilhosos.
    Eu gosto muito do Joe Wright mas espero que os próximos filmes sejam de época.

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