Crítica - A Tale of Two Cities (1935)

Realizado por Jack Conway, Robert Z. Leonard 
Com Ronald Colman, Elizabeth Allan, Edna May Oliver 

"It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness."

Introduzindo-se na linha do livro, desenrola-se assim A Tale of Two Cities, facilmente resumido com metáforas. No entanto, este filme é muito mais do que simples recursos estilísticos. Aqui, não há mau nem bom, uma revolução floresce e os medos, as vitórias, as angústias avolumam. Não é uma simples revolta que avança mas sim uma verdadeira revolução, apesar de a obra não ser propriamente rebelde e inovadora. Inesquecível e deslumbrante serão dois adjetivos mais apropriados.
Baseado no mais amado livro de Charles Dickens, a história cruza dois países e dois indivíduos, empurrados em contraste um com o outro: o advogado descontraído com problemas de álcool (Ronald Colman) e o aristocrata carismático e charmoso Charles Darnay (Donald Woods), ambos apaixonados pela doce Lucie (Elizabeth Allan), filha de uma vítima do regime Francês. A vida destes personagens desdobra-se no plano de uma violenta revolução que engole uma nação e modifica mentalidades. Os sentimentos de justiça, lealdade e amor tornam-se presentes do autossacrifício e da brutalidade das duas frentes da Revolução. 


Quando obras-primas cinematográficas flutuam em conversas, esta obra poderia perfeitamente ser posta em cima da mesa, sendo, talvez, uma das melhores representações do cinema americano dos anos 30. Infelizmente, na altura do seu lançamento não obteve tanta aclamação, sendo nomeado para um só Óscar, de Melhor Filme, enquanto as atuações dos atores, numa maneira geral, mereciam ser valorizadas pela Academia. 
A conquista menos citada quando se trata deste filme é a fluidez do encadeamento dos planos que se dividem em dois: o palco da Revolução Francesa que ainda se encontra no seu início, borbulhando ao longo do filme, onde esperamos ansiosamente que algo expluda, que se faça justiça. Entrelinhas, temos os três personagens principais, os amores e desamores, que se desenvolvem ao longo de uma linha histórica muito bem retratada. Não é um documentário, não é um filme romântico, mas sim uma história comovente com todas as emoções a ferverem à flor da pele. 
Sentimo-nos atraídos pelas gloriosas palavras dos revolucionários, observamos a sua miserável situação, filhos a serem assassinados, pessoas a morrerem à fome, beber vinho no meio da lama. Olhamos para os aristocratas com desdém, um ódio terrível, como se fosse uma simples decisão de escolher o lado que apoiar. Tão depressa sentimo-nos magnetizados como traídos, quando a história troca os papéis com mestria, uma “reviravolta” que desejamos que tenha sido caricata, mas que na verdade, mais realista não podia ser. Todos são os vilões, todos são os heróis, e as personagens principais acabam por ficar no meio.
A história de amor não sobrepõem à da Revolução, havendo uma ligação entrelaçada entre elas que torna tudo mais natural e fluido, para um melhor aproveitamento das personagens e dos acontecimentos. O amor é o plano de fundo, um pontinho no escuro no centro de muita confusão. Neste tema, raros são os filmes que acertam, aproveitando o lado lamechas feminino para ganhar mais compreensão e interesse do público geral. Aqui, conseguimos visualizar os desejos do diretor, de mostrar os factos ao mesmo tempo que nos maravilha com a ficção.
Apesar desses desejos estarem bem expressos, o filme em termos de direção não peca mas não surpreende, estando agarrado e dependente do bom argumento e das excelentes performances da maioria do elenco. Estamos a falar numa idade em que os filmes eram mais dirigidos pelas companhias e produções, que controlavam cada passo dos seus diretores, Jack Conway não conseguia e não lhe era dada permissão para explorar outros campos de criatividade, tendo que seguir uma linha uniforme à dos outros filmes da MGM. Uma obra que facilmente seria um clássico de direção, tornou-se fantástica mas com um “jogo” de câmara já muito visto.
Um dos maiores triunfos, lá está, são os atores, destacando-se um: Ronald Colman. É quem leva o filme a um outro nível, com o seu carisma, sarcasmo e bom coração. Sydney Carton é uma espécie de Tony Stark dos anos 30, com uma personalidade extremamente interessante e provocadora, ganhando o carinho de todo o espectador. É a única pessoa em que colocamos toda a nossa confiança, mas sem sabermos bem o porquê, mesmo sendo uma personagem com os seus problemas na vida. Colman traz um maravilhoso trabalho com Sydney, conseguindo transparecer os sentimentos da personagem com um simples olhar, uma curta fala, um suspiro…
O mesmo não poderá ser dito a Elizabeth Allan e Donald Woods que entregam performances aceitáveis mas não merecedoras para o ritmo dramático da histórica, cumprindo meramente o que está no guião. Mas o elenco não acaba aqui, aparecendo a adorável, Miss Pross, empregada de Lucie, interpretada brilhantemente por Edna May Oliver. Numa época em que raras eram as mulheres retratadas com garra no cinema, Oliver presenteia-nos com uma senhora não só carinhosa com os que ama mas sim protetora, fazendo tudo ao seu alcance para proteger Lucie. Podemos provar as minhas declarações com uma das cenas finais do filme que são simplesmente memoráveis.


No meio de inúmeros pontos positivos, podemos finalmente destacar o guião e as sequências de maior ação, transmitidas com grande mestria, não nos guiando para um simples ninho de confusão, mas sim numa luta com significado. O argumento guia as personagens e as ações de maneira leve e subtil, com falas que facilmente permanecem na mente, que leva a história à frente, tendo os seus momentos divertidos e pesados no momento certo.
Temos então o final, que nos toca com esperança e injustiça, uma guilhotina sangrenta e um público alegre com a presença da morte. Porém terei que acrescentar o importante significado da figura da costureira, uma humilde rapariga que mal prestamos atenção no primeiro momento que aparece mas que representa a crueldade da Revolução Francesa.
Com um diretor competente, uma história bem contada e com as fantásticas performances de Ronald Colman e Edna May Oliver, o filme permanece certamente no coração dos espectadores que se encantam e deixam-se encantar. Se o filme é uma revolução? Em certos aspetos sim, mas com certeza que é uma grande revolté.

Artigo Elaborado por Bellatrix Alves

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