Crítica - Cloud Atlas (2012)

Realizado por Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski
Com Tom Hanks, Halle Berry, Susan Sarandon, Hugh Grant, Jim Sturgess

O último filme que Andy e Lana Wachowski lançaram nos cinemas foi o pobre e psicadélico “Speed Racer” (2008) que, para além de ter sido um fracasso comercial, conseguiu desiludir e chatear muita gente com a sua catastrófica vertente visual. O regresso dos Irmãos Wachowski às salas de cinema era por isso esperado com muita ansiedade e a verdade é que este seu novo trabalho, “Cloud Atlas”, não desilude os seus fãs. Os Wachowski e Tom Tykwe pegaram num dos trabalhos literários mais bem conseguidos de David Mitchell e criaram uma longuíssima mas produtiva adaptação cinematográfica, onde vários géneros se unem num filme muito forte e visualmente deslumbrante sobre o âmago da vida e a complexidade da existência humana.


O longo e complexo enredo de “Cloud Atlas” é então baseado no homónimo e aclamado trabalho literário de David Mitchell e desdobra-se em múltiplas linhas temporais, ao longo de aproximadamente quinhentos anos, que interligam através da ideia de amor eterno, de variados dramas existenciais e morais, dos eternos mistérios da vida mas também da misteriosa relação existencial que nos une a todos, uma única história, onde as ações e escolhas individuais têm consequências e impactos entre si no passado, presente e futuro distante. A primeira história que nos é apresentada desenrola-se no Oceano Pacifico em 1845 e é protagonizada por Adam Ewing (Jim Sturgess), um advogado norte-americano que viajou até às Ilhas Chatham para concluir um negócio que envolve escravos e ouro. A meio da viagem de regresso a casa, Ewing conhece e trava uma curiosa amizade com um escravo clandestino que se escondeu no barco para assim conseguir ter uma vida melhor nos Estados Unidos da América. A longa viagem acaba por ser mais atribulada do que Adam esperava, já que uma estranha doença começa afeta-lo e ameaça até a sua vida. A segunda história do passado desenrola-se no Reino Unido em 1936 e centra-se em Robert Frobisher (Ben Whishaw), um jovem músico bissexual que sonha em compor uma sonoridade clássica que marcará para sempre a indústria musical. Robert convence Vyvyan Ayrs (Jim Broadbent), um ilustre e mundialmente famoso músico, a aceita-lo como seu assistente para assim conseguir obter algumas dicas gratuitas. O seu plano resulta e Robert acaba mesmo por conseguir compor o "The Cloud Atlas Sextet", uma peça musical magistral que até deixa Ayrs com inveja. Na bela cidade de São Francisco em 1973, Luisa Rey (Halle Berry), uma determinada jornalista com um conceituado historial familiar, começa a investigar uma série de rumores que parecem indicar que uma grande catástrofe está prestes a acontecer e que uma grande empresa, controlada por homens sem escrúpulos, parece estar por detrás desta iminente tragédia. A quarta história acompanha a louca jornada de Timothy Cavendish (Jim Broadbent), um editor veterano que se envolve numa série de cómicos mal-entendidos e infortúnios que vão pôr à prova a sua tenacidade e que acabarão por lhe mostrar o que ele realmente mais precisa na vida. O primeiro segmento futurista desenrola-se na Coreia do Sul (Neo Seoul) em 2144 e segue a triste existência de Sonmi-451 (Doona Bae), um clone que trabalha num restaurante de fast-food e que começa a questionar o mundo onde vive, algo impróprio para uma criatura da sua espécie. A sua natureza inquisitória acaba por chamar a atenção de um soldado da resistência que a convence a se revoltar contra o poder estabelecido. A última mini-história desenrola-se na Ilhas do Havai num Futuro Pós-apocalíptico, onde Zachry (Tom Hanks), um pastor que pertence a uma pequena tribo de selvagens pacíficos, tenta ajudar uma das últimas descendentes da antiga civilização a encontrar as respostas que ela procura e que poderão ajudar a salvar o que resta da humanidade.


A história desta obra divide-se então nestas seis histórias que se desenrolam em seis épocas distintas e que vão sendo abordadas de forma intermitente, mas que acabam por se interligar ao abrigo da teoria da reencarnação e de vários temas diversos como o amor, a opressão, a resiliência ou a coragem. Estes seis segmentos narrativos não partilham uma relação muita explícita ou objetiva entre elas, mas à medida que o filme se desenrola vão aparecendo várias pistas sobre a sua ligação e, no final, conseguimos compreender os grandes objetivos desta obra que, no fundo, tenta passar uma mensagem bastante esperançosa sobre a vida. É praticamente impossível fazer uma análise mais profunda a essas histórias e aos seus temas sem estragar o grande objetivo e mensagens do filme, mas posso adiantar que uma das ideias base prende-se com a capacidade de o ser-humano amar, mudar e enfrentar as adversidades, muito embora não o possa fazer na mesma vida. É claro que dentro das seis narrativas há duas ou três que se destacam mais que as outras, nomeadamente as duas tramas mais futuristas que, no meu entender, estão muito bem conseguidas. Já aquela que é protagonizada pelo veterano Jim Broadbent (Timothy Cavendish) destaca-se como a mais cómica, mas também como a menos complexa, surpreendente e apelativa de um filme que tem uma componente visual/ técnica muito forte. A caracterização dos seus variados intervenientes é sublime e merecedora de, pelo menos, uma nomeação ao Óscar de Melhor Caracterização, mas também convém salientar os sublimes e bem trabalhados efeitos sonoros e visuais que marcam presença em praticamente todas as histórias, nomeadamente na que se desenrola num futuro distante e dominado pela avançada tecnologia. A fotografia de Frank Griebe e John Toll também é brilhante. Já o seu elenco conta com bons trabalhos de Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Hugo Weaving e Jim Sturgess que vestem a pele de seis personagens diferentes nas seis histórias, se bem que em alguns casos aparecem em apenas um ou outra cena. As suas performances não são notáveis, mas seria difícil exigir mais destes atores num filme tão quebrado como este. Em suma, "Cloud Atlas" é uma agradável mistura entre o drama, a ficção científica e a filosofia. Lana Wachowski, Tom Tykwer e Andy Wachowski têm aqui um filme bastante difícil de seguir com toda a atenção possível, mas que no fim vale a pena, nem que seja pela sua mestria técnica ou pelas interessantíssimas lições e teorias que se podem retirar do seu subjetivo enredo que, apesar de toda a sua complexidade, é um grande exemplo de imaginação e qualidade. 

 Classificação – 4 Estrelas em 5

12 comentários:

  1. Muita boa critica... acho que a classificação poderia mesmo ser de 5 estrelas e acho que este filme tem potencial para ser um dos GRANDES vencedores da noite na grande cerimónia dos óscares

    André Borrego

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  2. Sinceramente gostava de perceber em quê que este filme mostra que Everything is connected...nao ha elos entre as historias, nem entre personagens. Ha muita parra e pouca uva.
    Considero isto outro pretenciosismo dos irmãos matrix e um filme em que se aproveitaram do mote e da ideia original e simplesmente nao conseguiram transpo-la para o cinema de forma satisfatória.
    Filme claramente cliché e mal conseguido naquilo que certamente ambicionara, e assim o demonstra o trailer mas que o enredo deixa completamente aquem de qualquer sumo que se pudesse expremer no final.

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  3. Soylent Green + Amistad + Mad Max + Brave New World + Monty Python + Matrix + pitadinhas de filmes investigativos americanos + pitadinhas de Blade Runner + pitadinhas de Prometeus = Cloud Atlas. O filme mais cliché e chato de 2012.

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  4. Infelizmente tenho que concordar com o último comentário, achei o Cloud Atlas uma pitada de todos os filmes citados, ainda estou na dúvida se foi uma decepção completa...

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  5. Simplesmente o melhor filme feito até hoje (já vi mais de mil) é pena que nem toda a gente tenha sensibilidade para ver a grandiosa mensagem do filme... talvez por isso é que no global a humanidade esteve, está e estará tão mal...

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  6. Discordo de alguns comentários. É um filme grandioso, saber que tudo está conectado, quem imaginaria que um Diário do século XIX teria importância em 2144, saber que o que nem sempre está visível pode ser o elo de toda comunidade.

    Merece o Oscar em Maquiagem e deve concorrer em Trilha Sonora.

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  7. Pra começar, devo dizer que sou fã absoluto de MATRIX (o filme, não a trilogia).

    Tudo que "as irmãs" Wachowski fizeram além da obra prima lançada em 1999, reforça a tese de que não passam de 'one hit wonders'. Nem as duas continuações de Matrix - que disseram (sem convencer) estarem pré-planejadas - convenceram.

    Depois desperdiçaram outra chance com Speed Racer que é(ra) uma franquia com bastante potencial (se tomarmos como base de comparação o que foi feito com Transformers e G.I.Joe - que não tinham, nem de longe, o apelo cult do desenho de corridas).

    Agora, nem em meus piores pesadelos, eu imaginei que eles fossem capazes de tamanho desperdício de dinheiro. Cloud Atlas parece um "desfile carnavalesco" em que tudo o que tem são as maquiagens e os efeitos especiais (diga-se de passagem, bem chinfrins para os padrões atuais). A edição é macarrônica e as atuações variam entre o mediano e o medíocre...

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  8. Muita má critica para mentes pouco abertas.... se fossem inteligentes, tinham percebido BEM a mensagem.... Ouvi dizer que os americanos precisaram deu um "manual de instruções" para entender o filme... Só prova que o mundo anda perdido e atrofiado... Existe uma linha que separa a realidade da ficção mas parece que há pessoas que nunca fizeram um filme na vida e mesmo assim conseguem ver defeitos naquilo que nunca fizeram... nem nunca conseguirão fazer...

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  9. Ridiculo se prender somente ao aspecto visual de Speed Racer, quando o filme é uma aula de linguagem cinematografica e transpoção da linguagem da arte sequencial japoneza para a tela, além da perfeita representação do gênero Shonen. Me entristece e muito toda a vez que vejo alguém criticar speed racer apenas pelo visual, pois ficou preso somente ao superficial do filme que é muito maior.

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  10. Concordo Plenamente com Wolfydog, não se faz uma crítica vendo outros filmes, antes de criticar o filme tende-se a entender o que ele disse.

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  11. Ainda estou digerindo o filme.
    Não é um filme ruim, piegas, porém bem feito, filosofia oriental bastante até.
    Gostei da história da personagem que vira um Deus posteriormente,mostra como pode nascer um mito, bom já tá demorando nascer um novo pra dizer à verdade, poxa já se passaram mais de 2000 anos e povo acredita no mesmo Deus, se acabar a tecnologia é possivel criar Outro.

    É um filme subjetivo.

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  12. Para mim, o melhor do filme foi quando comecei a descobrir as finas linhas que ligam todas as personagens, foi das coisas mais geniais que vi nos últimos tempos.. o pior é chegar lá, mas quando isso acontece.. bliss!

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