Crítica - Weiner (2016)

Realizado por Elyse Steinberg e Josh Kriegman

Sinopse - O até então brilhante percurso profissional no Congresso dos Estados Unidos do democrata Anthony Weiner chegou abruptamente ao fim em 2011, altura em que Weiner se demitiu após ter publicado no Twitter uma imagem explícita das suas partes íntimas. Esta publicação abriu as portas ao início de um enorme escândalo sexual que levou o próprio Weiner, um homem casado, a admitir que estava viciado em enviar mensagens sexualmente impróprias a outras mulheres. Em 2013, após as ondas do escândalo de 2011 terem acalmado, Weiner candidatou-se a Mayor de Nova Iorque, aparecendo agora em campanha com uma nova imagem política e pública onde se assumia arrependido dos erros do passado e que estes o tinham ajudado a tornar-se num homem melhor e mais dedicado ao mundo e à sua família. A história desta sua campanha política é retratada sob um próximo ponto de vista em "Weiner", um documentário isento e sem restrições que revela a história humana por trás das cenas de propaganda política e dos escândalos, oferecendo assim um olhar sem filtros para a reflexão de como hoje em dia os políticos são movidos pelo espetáculo e por uma propensão pelo escândalo. 

Crítica - No ano em que Donald Trump foi eleito, para surpresa de todo o planeta, Presidente dos Estados Unidos da América, "Weiner" consegue ilustrar na perfeição a podridão moral que reina entre os políticos americanos e as suas campanhas recheadas de escândalos, mentiras e falsidades. Antes de explorar o que este fascinante documentário nos tem para oferecer convém começar por apresentar o seu principal enfoque, o antigo congressista Anthony Weiner. Este político é apenas um entre vários políticos norte-americanos que, nos últimos anos, viram-se envolvidos em escândalo mediáticos de várias dimensões e feitios. Se houve uma época onde os escândalos políticos eram tudo menos banais pode-se dizer que, hoje em dia, estes fazem parte do quotidiano da política americana. Neste ponto basta relembrar que os dois candidatos presidenciais destas últimas eleições, Donald Trump e Hilary Clinton, também estiveram envolvidos em polémicos escândalos sem graves consequências nos Estados Unidos, mas que em qualquer outra parte do Mundo Ocidental teriam provocado o forte escrutínio publico e até policial dos respectivos candidatos. 
O escândalo que envolveu Weiner em 2011 foi um de cariz sexual, ou seja, o tipo de escândalo que a imprensa americana mais aprecia devido às suas potencialidades mediáticas. É certo que Weiner não cometeu nenhum crime, já que só admitiu enviar mensagens e imagens sexualmente explícitas a outras mulheres apesar de ser um homem casado, mas ainda assim este escândalo alcançou uma proporção mediática enorme e uma ainda maior pressão política que, no final, acabou por levá-lo a apresentar a sua demissão. O início do documentário, que recorre a imagens de arquivo para ilustrar a sua carreira e explorar a dimensão deste escândalo, ilustra na perfeição a dimensão da queda deste político. Vê-se que num momento Weiner era apontado como um político sério e em ascensão, mas que noutro posterior ao escândalo já era encarado como um homem imoral com falhas de carácter acentuadas.
Apesar do impacto do escândalo, Weiner recuperou e, com o apoio da sua mulher Huma Abedin, que só por mero acaso é uma das pessoas de maior confiança de Hilary Clinton, decidiu candidatar-se a Mayor de Nova Iorque em 2013. Se calhar por estar convencido que iria ganhar consentiu a que os documentaristas Elyse Steinberg e Josh Kriegman retratassem o quotidiano da sua campanha e a sua jornada política até ao dia das eleições. Escusado será dizer que a Elyse Steinberg e Josh Kriegman saiu-lhes a sorte grande, já que acabaram por ter um total acesso aos bastidores de uma das campanhas eleitorais mais desastradas dos últimos anos. Nos seus primeiros trinta minutos, "Weiner" mostra-nos um Anthony Weiner que passa uma imagem de político honesto, controlado e mudado. O seu quotidiano é bastante banal e a sua vida familiar parece pacífica. A sua campanha acompanha esta imagem de calma e sucesso, já que toda a sua equipa confia que Weiner é um político arrependido do seu passado e que está pronto a fazer de tudo para melhorar Nova Iorque. É visível pelos relatos e retratos da campanha nas ruas que os próprios eleitores acreditam, tal como o staff da campanha, que Weiner errou no passado mas que não voltará a errar e que merece, por isso, uma segunda oportunidade. Uma segunda oportunidade é aliás o que o próprio Weiner pede a Nova Iorque, sendo neste mote que a sua campanha aposta os seus primeiros trunfos mediáticos. Todo o país, incluindo a imprensa, parecem rendidos à nova imagem de Weiner e as primeiras sondagens apontam para uma clara vantagem em relação aos outros candidatos. 
Até este ponto, "Weiner" aproxima-se a um documentário de redenção. O retrato pessoal e profissional que nos é transmitido do político em recuperação é bastante positivo e até os bastidores da sua campanha parecem tão rotineiros como a personalidade do seu líder. É então que o documentário sofre um twist caprichoso. Um novo escândalo sexual abate-se sobre Weiner. A imprensa norte-americana exibe provas irrefutáveis que Weiner continua a enviar mensagens e imagens sexuais a outras mulheres e que continua, assim, a enganar a sua mulher. Isto vem provar que continua a ser o mesmo político desonesto e imoral que em 2011 tentou abafar o escândalo para manter o seu trabalho. As notícias caem que nem uma bomba junto da campanha de Weiner e é a partir deste ponto que o documentário ganha uma nova vida e um novo rumo. A partir deste momento somos brindados como uma série de imagens verdadeiramente deliciosas que ilustram a queda de um homem, de um político, de uma família e de toda uma campanha. Há uma sequência em particular que mostra Weiner e Abedin a olharem-se fixamente, após o escândalo rebentar, durante um bom par de minutos em silêncio, isto antes de Weiner pedir aos documentaristas para saírem da sala. Este momento retrata na perfeição o fim da carreira política e da própria vida familiar de Weiner. É um momento dramático, tenso e absolutamente brilhante. 
O que se segue é um desfile de imagens e sequências que ilustram o verdadeiro carácter falso, manipulador e machista de Anthony Weiner. A campanha tranquila transforma-se numa campanha de pesadelo e é aqui que o documentário mostra na perfeição como caóticas, manipuladoras e falsas as campanhas eleitorais podem ser. O que é certo é que neste caso a manipulação em larga escala não surtiu qualquer efeito positivo. A maior parte dos seguidores e figuras de proa da campanha de Weiner abandonam-no sem pensar duas vezes e uma campanha que começou por ser de sucesso transforma-se num verdadeiro desastre. Pese embora o escândalo, Weiner não desiste da eleição e nem o impiedoso afastamento da sua mulher, que segundo nos é dado a entender foi orquestrado por ordens expressas de Hilary Clinton, impede-o de continuar a tentar convencer os eleitores que os problemas da sua vida pessoal não se repercutem na sua vida política. O problema é que se torna evidente que é precisamente isso que acontece. O público, a imprensa e até a classe política já não confiam em Anthony Weiner. Os ataques ao seu carácter são constantes e levam à já esperada ruptura emocional do candidato que, por diversas vezes, explode em público contra tudo e todos, incluindo contra os próprios documentaristas. O resultado final é uma derrota humilhante no dia das eleições, uma das mais humilhantes de sempre da história recente da política norte-americana. E tal humilhação foi retratada ao pormenor por este fascinante documentário que, sem restrições e com clara isenção, consegue mostrar literalmente o apogeu e a queda de uma campanha política, de uma carreira e também de uma família. E a forma como o faz é absolutamente maravilhosa!

Classificação - 4,5 Estrelas em 5

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